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Beagá, 14 de abril de 2003 d.C.

 
A desordem da guerra continua depois dela
Por Cajabis Cannabis
 

Que bom, essa guerra estúpida acabou. Bem, todas as guerras são estúpidas... Talvez algumas sejam mais estúpidas ainda, mas fica meio difícil mensurar. Afinal de contas, a guerra é a derrota da diplomacia, do entendimento, da boa vontade. É mais do que um mero confronto, é a tentativa de o mais forte se impor, submetendo o mais fraco pela força. A guerra é a derrota da civilização.

No caso da Guerra no Iraque, a poeira vai se assentando aos poucos e já dá pra fazer algumas análises. A primeira é que qualquer tipo de análise pode estar completamente furada. História não é algo previsível e controlável, muito pelo contrário. A segunda: pode parecer óbvio, mas está mais do que provado que essa história de encontrar armas químicas e de destruição em massa no Iraque era mesmo conversa pra boi dormir. Nada foi encontrado até agora. Além disso, a rapidez com a qual o regime de Saddam Houssein desmoronou assustou aos próprios americanos. Esse era o poderio que ameaçava a região e a própria segurança americana? Porque os iraquianos fiéis ao ditador não se utilizaram das tais armas quando viram que tudo estava perdido e não teriam mesmo chances frente ao poderio bélico americano?

A guerra foi motivada por interesses econômicos e políticos relacionados ao petróleo. Mas não apenas ao controle das reservas do Iraque, há algo mais: o controle de sua produção. Os EUA querem mais do que simplesmente petróleo, querem petróleo barato. Dou minha cara a tapa se o novo governo iraquiano (claro, controlado pelos americanos) não se retirar da OPEP. É claro que o farão. Petróleo barato não somente para garantir o abastecimento norte-americano, mas também para segurar o preço do dólar frente ao euro e impedir que a cotação do petróleo se atrele à moeda da Comunidade Européia, no momento mais forte que a moeda americana. Por isso, não basta ter a posse das reservas petrolíferas, há que se controlar também sua produção e o preço de venda - daí podemos esperar o que vai ser o governo iraquiano pós-Saddam: totalmente vinculado aos Estados Unidos, assim como as ditaduras de Mubarak no Egito e da família Assad na Arábia Saudita.

O controle do Iraque serve para intimidar Irã, Síria e de quebra a Líbia, além de reforçar a presença americana na região do Oriente Médio. Se a rapaziada do Bin Laden queria ver os ianques fora das terras sagradas, o que aconteceu foi justamente o contrário, já que depois do Onze de Setembro os EUA endureceram sua política com relação ao restante do mundo, agindo de forma unilateral e levando em consideração somente seus próprios interesses.

E pelo visto, estão fazendo isso sem pensar nas conseqüências. O controle do Iraque vai ser uma coisa bem mais complicada do que foi a guerra. A imposição de um governo títere dos EUA no país vai conseguir unir a população, composta por um caldeirão de xiitas, sunitas e curdos? Acho muito improvável. Uma democracia funcionaria nas condições em que o Iraque se encontra? Também acho difícil que isso venha a acontecer. Não duvido que os Estados Unidos a médio prazo venham a patrocinar no país uma "democratura" como hoje vive o Egito, país alinhado à sua política e condizente com seus interesses. E depois os americanos ainda se perguntam por quê o mundo os odeia tanto.

Além disso tudo, é bom lembrar que a campanha para a reeleição do Bush filho já começou. A economia americana vai mal, mas os republicanos conseguiram aprovar uma redução de impostos completamente maluca e mais gastos exorbitantes para as operações militares no Iraque. As indústrias armamentistas agradecem, enquanto o déficit público norte-americano não pára de aumentar nesses anos de governo Bush. Os investimentos externos e os pagamentos de dívidas têm sido capazes de cobrir esse buraco, mas até quando? Muitos também afirmam que a crise interna do país ajudou a motivar a guerra, na medida em que as atenções e preocupações do público americano se dirigem para bem longe...

Essa doutrina de ataques preventivos pode ser muito eficaz para convencer a opinião pública americana de que estão muitos seguros, mas até agora não prenderam o Bin Laden, não acharam o Mulá Omar e o Saddam Hussein parece que evaporou. Eita competência...

Pra não dizer que eu só meto o pau na imprensa, a revista Terra publicou uma matéria muito interessante este mês sobre as guerras no desenrolar da história. Tirando alguns números meio que chutados ("4 bilhões de mortos em 5 mil anos de história", de onde tiraram isso?), a reportagem é muito bem escrita e bastante concisa. Fica o toque.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, finalista do curso de psicologia, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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