A quantidade de merda que li publicada
na imprensa a respeito da morte do papa João Paulo II foi
de deixar meus cabelos em pé. De uma hora pra outra, todos
os jornalistas dos grandes jornais e revistas se transformaram em
vaticanistas, teólogos, historiadores, cientistas políticos
e até catequistas. Deu pra comprovar, definitivamente, que
a grande massa de comunicadores ficou os quatro anos do curso de
jornalismo matando aula jogando mofão, ou então o
curso realmente não serve pra nada, a não ser para
a reprodução de imbecis em larga escala. Em síntese:
a grande maioria dos caras de imprensa demonstra uma total incapacidade
(ou má vontade mesmo) de entender o pensamento conservador
da Igreja e de João Paulo II.
Fica evidente nos textos de grande parte dos jornalistas o preconceito
contra a Igreja Católica, além de uma dose cavalar
de ignorância sobre como funciona a instituição
e sua história. Meninos, metam uma coisa na cabeça:
a Igreja não é uma instituição liberal.
Não é uma instituição democrática.
Não é uma ONG. Isso não existe e nunca existiu
na Igreja, a não ser para aqueles que engolem a conversa
fiada de teólogos como Hans Küng, que caiu nas graças
dos padres e teólogos "progressistas" só
porque ficou 25 anos metendo a lenha no João Paulo II sem
parar. Esse é o melhor exemplo de um loser de carteirinha.
O chavão preferido neste momento é dizer que a Igreja
Católica se esvaziou durante o pontificado deste papa, especialmente
na América Latina, onde muitos católicos viraram a
casaca e trocaram de time, indo bandear para o lado evangélico.
Mas isso aconteceu, em primeiro lugar, devido às práticas
religiosas dessas igrejas, que valorizam mais os aspectos emocionais
em seus cultos. A fé, para os protestantes e evangélicos,
é algo que "se sente", não é algo
compreensível à razão, Lutero já dizia
que "a razão é a prostituta do Diabo". Já
a fé católica é mais tradicional, cheia de
doutrinas e símbolos às vezes complexos, que para
muitos perderam o significado. O ritual católico da missa,
pra muita gente, é simplesmente insuportável. Um culto
num templo evangélico é muito mais movimentado e mexe
muito mais com o emocional das pessoas.
Outros aspectos dizem respeito ao caráter individualista
dessas outras igrejas, que dispensam padres e bispos para interpretar
doutrinas, e à sua capacidade rápida de expansão.
A hierarquia católica é complexa, ordenar um padre
demora muito tempo (normalmente, sete anos); já pra se abrir
uma igreja evangélica, é fácil: é só
alugar um barracão de alvenaria, colocar umas mesas e cadeiras,
de preferência arranjar um microfone com caixas de som e voilà!,
Jesus chegou. Ah, não podemos nos esquecer do balde com água
ou a piscina plástica pra batizar os novos fiéis.
O catolicismo é uma religião eminentemente ritualística,
cheia de tradições. Este simbolismo se perde no contexto
atual, com uma maioria de população vivendo no meio
urbano e com a flexibilização dos laços familiares.
Muita gente abandona o catolicismo simplesmente porque não
o entende, não compreende aquele exército de santos,
aquele excesso de badulaques. São tantas rezas, dogmas e
burocratas celestes que isso se torna simplesmente obscuro para
o fiel comum.
Antigamente, quem vivia na roça seguia o catolicismo por
tradição, por uma ligação sentimental
com os santos e com os rituais, que faziam sentido para aquelas
pessoas - e é notória até hoje a dificuldade
que as igrejas evangélicas têm de penetrarem no meio
rural.
Ora, se a Igreja Católica estivesse perdendo fiéis
para as igrejas evangélicas simplesmente pelo fato de ser
conservadora e rígida demais em sua moral, como explicar
o fato de a maioria esmagadora dessas igrejas e seitas serem ainda
mais conservadoras e moralistas (não preciso falar por exemplo
da Assembléia de Deus) que a própria Igreja Católica?
É um contra-senso.
O que quero dizer é que os gênios da imprensa estão
trombeteando a quatro ventos que a derrocada da Teologia da Libertação
foi o que provocou essa enorme saída de fiéis da Igreja
Católica, mas não foi. Certamente, esses fiéis
que abandonaram a Igreja Católica emigraram para Igrejas
tão ou mais conservadoras ainda.
Essa incompetência da Igreja Católica em manter seu
rebanho tem outras razões, e estas são muito mais
fortes. Passa pela falta de padres (aí pode entrar sim a
questão da imposição do celibato ao clero),
pela rigidez hierárquica, pelo tradicionalismo de seus ritos.
Em se tratando de "concorrência", Padre Marcelo
é muito mais eficiente que a Teologia da Libertação
- além do fato de muitos fiéis se desagradarem com
a Igreja Católica por causa do "envolvimento" de
padres e bispos com a política.
"A proibição da camisinha, para ficar num só
exemplo, oscila entre meramente ridícula e gravemente irresponsável.
Dilema dos fiéis: não fazer sexo, fazer com culpa
("em pecado") ou se expor à Aids. A alternativa
é não ligar." Comentando este trecho de um lamentável
artigo da competente Eliane Castanhêde na Folha,
gostaria de lançar uma questão (sem entrar em méritos,
por favor): se a Igreja é contra o sexo fora do casamento,
por que a proibição à camisinha é "ridícula
e gravemente irresponsável?" Ora, se uma pessoa está
mantendo relações sexuais fora do seu casamento, já
está descumprindo uma norma da Igreja. A minha pergunta:
por que, ao descumprir uma norma da Igreja, essa pessoa iria seguir
uma outra?... Quer dizer, a pessoa faz sexo fora do casamento, mas
não usa camisinha para seguir a regra da Igreja???!!!!...
Este pensamento sim é ridículo, sem cabimento e é
absurdo responsabilizar a Igreja pela conduta dessa pessoa, já
que a mesma tem consciência das definições da
Igreja sobre o que é pecado ou não. Cada pessoa é
dotada de livre-arbítrio, se seguir as regras da igreja simplesmente
não fará sexo fora do casamento e não necessitará
do preservativo para evitar a AIDS – neste contexto, claro.
Honestamente, caro leitor: você conhece alguém que,
ao manter relações fora do seu casamento, não
usou camisinha por causa da determinação da Igreja
contra o preservativo? Eu gostaria sinceramente de conhecer essa
alma piedosa.
A Igreja Católica não é uma instituição
liberal, cacetada! Será que esse pessoal é tão
burro que não consegue entender o óbvio? Não
é e nem pode ser. As igrejas protestantes tradicionais se
liberalizaram na Europa, e o que aconteceu? Nos países protestantes,
o percentual de pessoas que freqüenta a igreja é ainda
menor que nos países católicos. Na Suécia,
depois de a Igreja Luterana do país ter sido varrida pela
onda liberal-modernista do início do século XX, nos
dias de hoje cerca de 65% da população é atéia!
Na Holanda, pátria do liberalismo, as igrejas estão
passando por sérias dificuldades financeiras e têm
que alugar seus imóveis (muitos prédios de seminários
estão vazios) para sobreviver, porque pouquíssimas
pessoas seguem alguma religião naquele país - e pagam
dízimo. E são igrejas liberais, que permitem às
mulheres o sacerdócio, fazem vistas grossas ao sexo fora
do casamento ou ao uso de camisinha. Perguntinha: isso foi capaz
de deter o desinteresse dos europeus pela religião?
Em suma: o contexto da perda de fiéis da Igreja Católica
é muito mais amplo. Muitos católicos praticantes não
cumprem as determinações da Igreja em muitos campos,
não só o da moral sexual. Por exemplo, a Igreja obriga
(é mandamento da Igreja!) o fiel a se confessar uma vez por
ano e ir às missas em todos os domingos. O católico
que não vai à missa aos domingos, a não ser
por uma justificativa séria como uma doença, está
em pecado segundo o Catecismo.
Muitos freqüentam a Igreja regularmente, amam muito o papa...
Mas mantém relações sexuais fora do casamento.
Como muitos casais de namorados que se dizem católicos, transam
e recebem a comunhão na missa. Não é questão
de entrar aqui no mérito se estão certos ou errados,
mas estou aqui apresentando fatos concretos para sustentar a minha
opinião de que não é o conservadorismo moral
da Igreja que vem afastando seus fiéis. É o fato de
o catolicismo ser uma religião de prática comunitária,
repleta de símbolos, que necessita de sacerdotes, ao contrário
das igrejas evangélicas e pentecostais, que são eminentemente
individualistas, pragmáticas em seus cultos e com pastores
que se reproduzem com incrível facilidade.
A situação do catolicismo é complicada. João
Paulo II não foi um papa tão conservador assim em
se tratando de costumes. Ele apenas refletiu uma necessidade de
auto-afirmação de uma instituição de
2000 anos numa época de total relativismo moral. Por que
a mídia raramente divulga (quando divulga) que a Igreja aceita
métodos anticontraceptivos naturais e de eficiência
comprovada pela Organização Mundial de Saúde?
Daí, eu tenho que engolir jornalistas dizendo que a Igreja
só permite relações sexuais para a procriação.
A Igreja Católica não pode e nem deve entrar em "competição"
com as outras religiões, simplesmente para deter a evasão
de seus fiéis. Ou então, se transformaria num supermercado
da fé, oferecendo vários "produtos" na forma
de ensinamentos para consumidores que escolheriam nas prateleiras
esse ou aquele, o que lhes fosse conveniente. Segundo os evangelhos,
Jesus não fazia concessões sobre aquilo que ensinava,
mesmo que isso significasse (como realmente aconteceu) uma enorme
e significativa evasão por parte de seus discípulos.
Se a Igreja Católica se diz seguidora de Cristo, aí
vai minha pergunta: quais as concessões ela pode fazer?
Claro que a Igreja tem que saber o que está acontecendo
no mundo de hoje, mas ela tem que ser, ao mesmo tempo, uma instituição
conservadora. Como permanecer nesse equilíbrio sem perder
sua identidade e sem pender para o lado do relativismo moral? Este
foi o desafio que João Paulo II enfrentou - e se saiu muitíssimo
bem.
O que João Paulo II levou de pancada em seu pontificado
não foi mole. Num extremo, os liberais queriam que ele passasse
um corretivo líqüido na Bíblia e na catequese
da Igreja para aceitar o sacerdócio feminino, o aborto, o
divórcio, o homossexualismo. João XXIII, adorado por
uma penca de gente que acha que ele foi "liberal", condenou
o homossexualismo e ninguém fala nada sobre isso; Paulo VI
foi quem condenou os métodos anticoncepcionais artificiais;
a primeira catequese católica, datada do século I,
chamada Didaqué, condena especificamente o aborto;
não há notícias, em qualquer momento da história
da Igreja, de mulheres sendo ordenadas sacerdotisas (embora tenham
sido diaconisas, o que é diferente). E essas mentes iluminadas
querem que o papa mude isso com uma canetada só, e por quê?
Porque tem que mudar, a Igreja tem que "adequar aos novos tempos",
senão vai ficar ultrapassada, anacrônica... Vão
ser burros assim lá na faculdade de jornalismo, pqp.
Esses liberais se esquecem por ignorância, estupidez ou safadeza
mesmo, que de setores da direita do catolicismo o seu Karol também
levou muita cacetada. Os atos ecumênicos com líderes
de outras religiões foram duramente criticados pelas alas
mais conservadores da Igreja, a turminha do Mel Gibson que não
aceita o Concílio Vaticano II. O pedido público de
perdão do papa pelos erros passados cometidos pelos católicos
foi considerado por estes grupos como uma humilhação
inaceitável. E os escândalos de pedofilia na Igreja
dos Estados Unidos provocaram críticas dos dois lados: conservadores
acusaram o papa de proteger "padres homossexuais que infestavam
os seminários", enquanto muitos liberais insistiam que
o papa deveria ter punido os agressores com a excomunhão.
A verdade é que Karol Wojtyla assumiu o papado num período
conturbado, pós Concílio Vaticano II, e usou de seu
poder para manter a unidade da Igreja, que está acima de
interesses pessoais e ideológicos de uns e outros. Centralizou
o poder em suas mãos e concentrou decisões na cúria
romana, os cardeais que estão ali ao redor dele dando palpites.
Certo, muitas vezes palpites errados, mas o papa fez isso com a
convicção de que, sem autoridade, não tem como
a Igreja sobreviver a uma fragmentação ideológica.
E ele assumiu pra si essa responsabilidade, de ser essa autoridade,
com todos os riscos que essa atitude lhe traria.
João Paulo II foi macho. Ele errou sim, foi uma sacanagem
terem dividido a arquidiocese de São Paulo para diminuir
o poder de Dom Paulo Evaristo Arns, mas seus acertos foram bem superiores
aos erros. Houve uma centralização excessiva da tomada
de decisões dentro da Igreja sim, mas isso garantiu a força
do catolicismo e sua unidade. Ele não hesitou em peitar os
conservadores e desagradar àqueles que pensam que só
os católicos vão entrar no céu com seu diálogo
inter-religioso e seu ecumenismo com as outras igrejas cristãs.
Por outro lado, nadou contra a corrente liberal com sua moral sexual
conservadora, mas - caramba! - essa é a moral de 2000 anos
de Igreja. Queriam o quê? Um papa porra louca vestindo camiseta
do The Doors, com uma louraça sentada em seu colo e fumando
um baseado?
Ele personalizou a autoridade dentro da Igreja e, num mundo onde
você tem que ser "livre" a qualquer custo, representou
uma referência moral. Isso é indiscutível. A
dor de cotovelo de muita gente se resume ao fato de que ele foi
uma personalidade admirável, concordando ou não com
suas idéias. Não foi ele quem derrubou o comunismo,
mas ninguém mais que ele próprio deu umas fortes pancadas
na parede do muro de Berlim (chorem, viúvas vermelhas). Não
abriu as pernas pro Bush e condenou de forma veemente a guerra quando
nenhum líder do ocidente teve a coragem de dizer que a invasão
do Iraque era inaceitável e injustificável. Era quase
um pregador no deserto na política internacional ao criticar
o neoliberalismo e a concentração de renda, enquanto
tantos políticos traíam os compromissos assumidos
com seus eleitores e implantavam essas políticas absurdas
em seus respectivos países. E mesmo doente e bastante debilitado,
ainda insistia em viajar e discutir política, como quando
esteve com Fidel Castro e condenou o bloqueio econômico norte-americano,
ou no Oriente Médio ao insistir para que palestinos e israelenses
retomassem o diálogo, ou ainda ao tentar reconciliar-se com
os cristãos ortodoxos gregos, que nunca se esqueceram da
traição dos católicos acontecida há
mais de 800 anos, quando os cruzados tomaram Constantinopla. Não
é por acaso que o governo norte-americano tenta mexer seus
pauzinhos para que o próximo papa seja o mais neutro possível
em questões de política internacional.
E agora vão me falar de "conservadorismo na moral sexual"?
Tenham dó. A Igreja está errada se tentar impor seus
valores a uma sociedade laica, mas tem todo o direito de expressar
seus ensinamentos e seu posicionamento e de impor essas normas a
seus fiéis. Não estão satisfeitos? Saiam, já
vão tarde. Afinal, todos nós temos liberdade para
seguir uma religião ou não. O problema mesmo é
que falta inteligência pra muita gente perceber isso.
Karol Wojtyla foi uma personalidade extraordinária, um político
audacioso e inteligente, que remou contra a maré liberalizante
do seu tempo e enfrentou os ultraconservadores, provando ter uma
grande força de caráter e uma firmeza inaudita em
suas convicções pessoais. Foi fiel e verdadeiro àquilo
que sempre acreditou e à missão a qual lhe foi confiada.
E, no vácuo ideológico dos dias atuais, onde faltam
lideranças, idéias e demonstrações de
coerência, o papa foi esse referencial. Ele vai fazer falta
não somente para a Igreja Católica, mas para todo
o mundo.

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