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Beagá, 11 de abril de 2005 d.C.
 
João Paulo II e seu tempo
Por Cajabis Cannabis
 

A quantidade de merda que li publicada na imprensa a respeito da morte do papa João Paulo II foi de deixar meus cabelos em pé. De uma hora pra outra, todos os jornalistas dos grandes jornais e revistas se transformaram em vaticanistas, teólogos, historiadores, cientistas políticos e até catequistas. Deu pra comprovar, definitivamente, que a grande massa de comunicadores ficou os quatro anos do curso de jornalismo matando aula jogando mofão, ou então o curso realmente não serve pra nada, a não ser para a reprodução de imbecis em larga escala. Em síntese: a grande maioria dos caras de imprensa demonstra uma total incapacidade (ou má vontade mesmo) de entender o pensamento conservador da Igreja e de João Paulo II.

Fica evidente nos textos de grande parte dos jornalistas o preconceito contra a Igreja Católica, além de uma dose cavalar de ignorância sobre como funciona a instituição e sua história. Meninos, metam uma coisa na cabeça: a Igreja não é uma instituição liberal. Não é uma instituição democrática. Não é uma ONG. Isso não existe e nunca existiu na Igreja, a não ser para aqueles que engolem a conversa fiada de teólogos como Hans Küng, que caiu nas graças dos padres e teólogos "progressistas" só porque ficou 25 anos metendo a lenha no João Paulo II sem parar. Esse é o melhor exemplo de um loser de carteirinha.

O chavão preferido neste momento é dizer que a Igreja Católica se esvaziou durante o pontificado deste papa, especialmente na América Latina, onde muitos católicos viraram a casaca e trocaram de time, indo bandear para o lado evangélico. Mas isso aconteceu, em primeiro lugar, devido às práticas religiosas dessas igrejas, que valorizam mais os aspectos emocionais em seus cultos. A fé, para os protestantes e evangélicos, é algo que "se sente", não é algo compreensível à razão, Lutero já dizia que "a razão é a prostituta do Diabo". Já a fé católica é mais tradicional, cheia de doutrinas e símbolos às vezes complexos, que para muitos perderam o significado. O ritual católico da missa, pra muita gente, é simplesmente insuportável. Um culto num templo evangélico é muito mais movimentado e mexe muito mais com o emocional das pessoas.

Outros aspectos dizem respeito ao caráter individualista dessas outras igrejas, que dispensam padres e bispos para interpretar doutrinas, e à sua capacidade rápida de expansão. A hierarquia católica é complexa, ordenar um padre demora muito tempo (normalmente, sete anos); já pra se abrir uma igreja evangélica, é fácil: é só alugar um barracão de alvenaria, colocar umas mesas e cadeiras, de preferência arranjar um microfone com caixas de som e voilà!, Jesus chegou. Ah, não podemos nos esquecer do balde com água ou a piscina plástica pra batizar os novos fiéis.

O catolicismo é uma religião eminentemente ritualística, cheia de tradições. Este simbolismo se perde no contexto atual, com uma maioria de população vivendo no meio urbano e com a flexibilização dos laços familiares. Muita gente abandona o catolicismo simplesmente porque não o entende, não compreende aquele exército de santos, aquele excesso de badulaques. São tantas rezas, dogmas e burocratas celestes que isso se torna simplesmente obscuro para o fiel comum.

Antigamente, quem vivia na roça seguia o catolicismo por tradição, por uma ligação sentimental com os santos e com os rituais, que faziam sentido para aquelas pessoas - e é notória até hoje a dificuldade que as igrejas evangélicas têm de penetrarem no meio rural.

Ora, se a Igreja Católica estivesse perdendo fiéis para as igrejas evangélicas simplesmente pelo fato de ser conservadora e rígida demais em sua moral, como explicar o fato de a maioria esmagadora dessas igrejas e seitas serem ainda mais conservadoras e moralistas (não preciso falar por exemplo da Assembléia de Deus) que a própria Igreja Católica? É um contra-senso.

O que quero dizer é que os gênios da imprensa estão trombeteando a quatro ventos que a derrocada da Teologia da Libertação foi o que provocou essa enorme saída de fiéis da Igreja Católica, mas não foi. Certamente, esses fiéis que abandonaram a Igreja Católica emigraram para Igrejas tão ou mais conservadoras ainda.

Essa incompetência da Igreja Católica em manter seu rebanho tem outras razões, e estas são muito mais fortes. Passa pela falta de padres (aí pode entrar sim a questão da imposição do celibato ao clero), pela rigidez hierárquica, pelo tradicionalismo de seus ritos. Em se tratando de "concorrência", Padre Marcelo é muito mais eficiente que a Teologia da Libertação - além do fato de muitos fiéis se desagradarem com a Igreja Católica por causa do "envolvimento" de padres e bispos com a política.

"A proibição da camisinha, para ficar num só exemplo, oscila entre meramente ridícula e gravemente irresponsável. Dilema dos fiéis: não fazer sexo, fazer com culpa ("em pecado") ou se expor à Aids. A alternativa é não ligar." Comentando este trecho de um lamentável artigo da competente Eliane Castanhêde na Folha, gostaria de lançar uma questão (sem entrar em méritos, por favor): se a Igreja é contra o sexo fora do casamento, por que a proibição à camisinha é "ridícula e gravemente irresponsável?" Ora, se uma pessoa está mantendo relações sexuais fora do seu casamento, já está descumprindo uma norma da Igreja. A minha pergunta: por que, ao descumprir uma norma da Igreja, essa pessoa iria seguir uma outra?... Quer dizer, a pessoa faz sexo fora do casamento, mas não usa camisinha para seguir a regra da Igreja???!!!!... Este pensamento sim é ridículo, sem cabimento e é absurdo responsabilizar a Igreja pela conduta dessa pessoa, já que a mesma tem consciência das definições da Igreja sobre o que é pecado ou não. Cada pessoa é dotada de livre-arbítrio, se seguir as regras da igreja simplesmente não fará sexo fora do casamento e não necessitará do preservativo para evitar a AIDS – neste contexto, claro. Honestamente, caro leitor: você conhece alguém que, ao manter relações fora do seu casamento, não usou camisinha por causa da determinação da Igreja contra o preservativo? Eu gostaria sinceramente de conhecer essa alma piedosa.

A Igreja Católica não é uma instituição liberal, cacetada! Será que esse pessoal é tão burro que não consegue entender o óbvio? Não é e nem pode ser. As igrejas protestantes tradicionais se liberalizaram na Europa, e o que aconteceu? Nos países protestantes, o percentual de pessoas que freqüenta a igreja é ainda menor que nos países católicos. Na Suécia, depois de a Igreja Luterana do país ter sido varrida pela onda liberal-modernista do início do século XX, nos dias de hoje cerca de 65% da população é atéia! Na Holanda, pátria do liberalismo, as igrejas estão passando por sérias dificuldades financeiras e têm que alugar seus imóveis (muitos prédios de seminários estão vazios) para sobreviver, porque pouquíssimas pessoas seguem alguma religião naquele país - e pagam dízimo. E são igrejas liberais, que permitem às mulheres o sacerdócio, fazem vistas grossas ao sexo fora do casamento ou ao uso de camisinha. Perguntinha: isso foi capaz de deter o desinteresse dos europeus pela religião?

Em suma: o contexto da perda de fiéis da Igreja Católica é muito mais amplo. Muitos católicos praticantes não cumprem as determinações da Igreja em muitos campos, não só o da moral sexual. Por exemplo, a Igreja obriga (é mandamento da Igreja!) o fiel a se confessar uma vez por ano e ir às missas em todos os domingos. O católico que não vai à missa aos domingos, a não ser por uma justificativa séria como uma doença, está em pecado segundo o Catecismo.

Muitos freqüentam a Igreja regularmente, amam muito o papa... Mas mantém relações sexuais fora do casamento. Como muitos casais de namorados que se dizem católicos, transam e recebem a comunhão na missa. Não é questão de entrar aqui no mérito se estão certos ou errados, mas estou aqui apresentando fatos concretos para sustentar a minha opinião de que não é o conservadorismo moral da Igreja que vem afastando seus fiéis. É o fato de o catolicismo ser uma religião de prática comunitária, repleta de símbolos, que necessita de sacerdotes, ao contrário das igrejas evangélicas e pentecostais, que são eminentemente individualistas, pragmáticas em seus cultos e com pastores que se reproduzem com incrível facilidade.

A situação do catolicismo é complicada. João Paulo II não foi um papa tão conservador assim em se tratando de costumes. Ele apenas refletiu uma necessidade de auto-afirmação de uma instituição de 2000 anos numa época de total relativismo moral. Por que a mídia raramente divulga (quando divulga) que a Igreja aceita métodos anticontraceptivos naturais e de eficiência comprovada pela Organização Mundial de Saúde? Daí, eu tenho que engolir jornalistas dizendo que a Igreja só permite relações sexuais para a procriação.

A Igreja Católica não pode e nem deve entrar em "competição" com as outras religiões, simplesmente para deter a evasão de seus fiéis. Ou então, se transformaria num supermercado da fé, oferecendo vários "produtos" na forma de ensinamentos para consumidores que escolheriam nas prateleiras esse ou aquele, o que lhes fosse conveniente. Segundo os evangelhos, Jesus não fazia concessões sobre aquilo que ensinava, mesmo que isso significasse (como realmente aconteceu) uma enorme e significativa evasão por parte de seus discípulos. Se a Igreja Católica se diz seguidora de Cristo, aí vai minha pergunta: quais as concessões ela pode fazer?

Claro que a Igreja tem que saber o que está acontecendo no mundo de hoje, mas ela tem que ser, ao mesmo tempo, uma instituição conservadora. Como permanecer nesse equilíbrio sem perder sua identidade e sem pender para o lado do relativismo moral? Este foi o desafio que João Paulo II enfrentou - e se saiu muitíssimo bem.

O que João Paulo II levou de pancada em seu pontificado não foi mole. Num extremo, os liberais queriam que ele passasse um corretivo líqüido na Bíblia e na catequese da Igreja para aceitar o sacerdócio feminino, o aborto, o divórcio, o homossexualismo. João XXIII, adorado por uma penca de gente que acha que ele foi "liberal", condenou o homossexualismo e ninguém fala nada sobre isso; Paulo VI foi quem condenou os métodos anticoncepcionais artificiais; a primeira catequese católica, datada do século I, chamada Didaqué, condena especificamente o aborto; não há notícias, em qualquer momento da história da Igreja, de mulheres sendo ordenadas sacerdotisas (embora tenham sido diaconisas, o que é diferente). E essas mentes iluminadas querem que o papa mude isso com uma canetada só, e por quê? Porque tem que mudar, a Igreja tem que "adequar aos novos tempos", senão vai ficar ultrapassada, anacrônica... Vão ser burros assim lá na faculdade de jornalismo, pqp.

Esses liberais se esquecem por ignorância, estupidez ou safadeza mesmo, que de setores da direita do catolicismo o seu Karol também levou muita cacetada. Os atos ecumênicos com líderes de outras religiões foram duramente criticados pelas alas mais conservadores da Igreja, a turminha do Mel Gibson que não aceita o Concílio Vaticano II. O pedido público de perdão do papa pelos erros passados cometidos pelos católicos foi considerado por estes grupos como uma humilhação inaceitável. E os escândalos de pedofilia na Igreja dos Estados Unidos provocaram críticas dos dois lados: conservadores acusaram o papa de proteger "padres homossexuais que infestavam os seminários", enquanto muitos liberais insistiam que o papa deveria ter punido os agressores com a excomunhão.

A verdade é que Karol Wojtyla assumiu o papado num período conturbado, pós Concílio Vaticano II, e usou de seu poder para manter a unidade da Igreja, que está acima de interesses pessoais e ideológicos de uns e outros. Centralizou o poder em suas mãos e concentrou decisões na cúria romana, os cardeais que estão ali ao redor dele dando palpites. Certo, muitas vezes palpites errados, mas o papa fez isso com a convicção de que, sem autoridade, não tem como a Igreja sobreviver a uma fragmentação ideológica. E ele assumiu pra si essa responsabilidade, de ser essa autoridade, com todos os riscos que essa atitude lhe traria.

João Paulo II foi macho. Ele errou sim, foi uma sacanagem terem dividido a arquidiocese de São Paulo para diminuir o poder de Dom Paulo Evaristo Arns, mas seus acertos foram bem superiores aos erros. Houve uma centralização excessiva da tomada de decisões dentro da Igreja sim, mas isso garantiu a força do catolicismo e sua unidade. Ele não hesitou em peitar os conservadores e desagradar àqueles que pensam que só os católicos vão entrar no céu com seu diálogo inter-religioso e seu ecumenismo com as outras igrejas cristãs. Por outro lado, nadou contra a corrente liberal com sua moral sexual conservadora, mas - caramba! - essa é a moral de 2000 anos de Igreja. Queriam o quê? Um papa porra louca vestindo camiseta do The Doors, com uma louraça sentada em seu colo e fumando um baseado?

Ele personalizou a autoridade dentro da Igreja e, num mundo onde você tem que ser "livre" a qualquer custo, representou uma referência moral. Isso é indiscutível. A dor de cotovelo de muita gente se resume ao fato de que ele foi uma personalidade admirável, concordando ou não com suas idéias. Não foi ele quem derrubou o comunismo, mas ninguém mais que ele próprio deu umas fortes pancadas na parede do muro de Berlim (chorem, viúvas vermelhas). Não abriu as pernas pro Bush e condenou de forma veemente a guerra quando nenhum líder do ocidente teve a coragem de dizer que a invasão do Iraque era inaceitável e injustificável. Era quase um pregador no deserto na política internacional ao criticar o neoliberalismo e a concentração de renda, enquanto tantos políticos traíam os compromissos assumidos com seus eleitores e implantavam essas políticas absurdas em seus respectivos países. E mesmo doente e bastante debilitado, ainda insistia em viajar e discutir política, como quando esteve com Fidel Castro e condenou o bloqueio econômico norte-americano, ou no Oriente Médio ao insistir para que palestinos e israelenses retomassem o diálogo, ou ainda ao tentar reconciliar-se com os cristãos ortodoxos gregos, que nunca se esqueceram da traição dos católicos acontecida há mais de 800 anos, quando os cruzados tomaram Constantinopla. Não é por acaso que o governo norte-americano tenta mexer seus pauzinhos para que o próximo papa seja o mais neutro possível em questões de política internacional.

E agora vão me falar de "conservadorismo na moral sexual"? Tenham dó. A Igreja está errada se tentar impor seus valores a uma sociedade laica, mas tem todo o direito de expressar seus ensinamentos e seu posicionamento e de impor essas normas a seus fiéis. Não estão satisfeitos? Saiam, já vão tarde. Afinal, todos nós temos liberdade para seguir uma religião ou não. O problema mesmo é que falta inteligência pra muita gente perceber isso.

Karol Wojtyla foi uma personalidade extraordinária, um político audacioso e inteligente, que remou contra a maré liberalizante do seu tempo e enfrentou os ultraconservadores, provando ter uma grande força de caráter e uma firmeza inaudita em suas convicções pessoais. Foi fiel e verdadeiro àquilo que sempre acreditou e à missão a qual lhe foi confiada. E, no vácuo ideológico dos dias atuais, onde faltam lideranças, idéias e demonstrações de coerência, o papa foi esse referencial. Ele vai fazer falta não somente para a Igreja Católica, mas para todo o mundo.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, psicólogo, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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