"Aos homens não basta saber que
existem, mas para quê existem."
Viktor Frankl em Psicoterapia e Sentido da Vida.
No
próximo sábado, dia 26 de março, uma das figuras
humanas mais extraordinárias do século XX estaria
fazendo aniversário de 100 anos. Estou me referindo a Viktor
Frankl, psiquiatra austríaco. Provavelmente você nunca
ouviu falar deste cara, mas certamente conhece a expressão
"vazio existencial" - foi ele quem a criou nos
idos dos anos cinqüenta. Embora seja um ilustre desconhecido
em nosso país, seu principal livro Em Busca de Um Sentido
(Man's Search for Meaning) vendeu mais de cinco milhões
de cópias apenas nos Estados Unidos e foi considerado, segundo
matéria do New York Times de novembro de 1991, um
dos dez mais influentes livros nos EUA.
Frankl nasceu em Viena. Aos 14 anos, na escola, fez a um professor
uma pergunta que mudaria o curso de sua vida.
"Enquanto estudante de 14 anos no ginásio, eu
fiz algo que era muito incomum na ocasião. Eu tive um professor
de Ciências Naturais que era muito distante, que ensinava
do modo como uma pessoa esperaria que os cientistas o fizessem.
Um dia ele afirmou que a vida é simplesmente um processo
de combustão, nada além de um processo de oxidação.
Levantando repentinamente eu o questionei, 'Mas Professor, então
que sentido a vida têm?'"
Claro que um reducionista/materialista não é capaz
de responder a esta pergunta, porque para ele não existe
nada mais que a matéria. O absurdo é, nas palavras
de Frankl, "promover sua própria incredulidade sob
a aparência de ciência". Quantos sabichões
estufam o peito, orgulhosos de tanto saber, mas cuja arrogância
é ainda maior que a inteligência que possuem. O fato
de a ciência materialista não conseguir uma resposta
para isso, não quer dizer que essa inquietação
não exista. Mais que isso, negar uma resposta para essa pergunta
é negar a própria humanidade do ser humano.
E afinal, qual é o sentido da vida? Frankl sempre buscou
encontrar e extrair um significado de todos os eventos que aconteciam
em sua vida. Oportunidades não faltaram. Formou-se médico
em 1930 e trabalhou em um hospital psiquiátrico em Viena,
sendo responsável por milhares de pacientes suicidas. Perdeu
o melhor amigo executado pelo regime nazista. Judeu, foi prisioneiro
nos campos de concentração nazistas de Auschwitz e
Dachau, onde ficou por quase três anos. Ao ser libertado,
descobriu que havia perdido quase toda sua família: foram
mortos seu pai e sua mãe, além de sua esposa e seu
irmão. Somente sua irmã, que fugiu da Europa antes
da guerra, permanecia viva.
Ao invés de se deixar consumir pelo rancor, a amargura,
o ódio e o ressentimento, Frankl reconstruiu sua vida, pois
tinha objetivos a cumprir - metas traçadas durante sua experiência
nos campos de concentração, onde, nos momentos mais
duros, ele se lembrava de sua esposa e seus familiares, na esperança
de revê-los novamente, e carregava consigo a determinação
de terminar um livro cujo manuscrito havia sido destruído
ao ser preso. Após a sua libertação, ele retomou
o trabalho interrompido e reescreveu
o manuscrito perdido, de onde publicou o livro The Doctor and
the Soul. Em seguida, lançou Man's search for Meaning
(Em Busca de Um Sentido, lançado no Brasil pela
editora Vozes), livro em que narra sua experiência pessoal
nos campos de concentração - e daí retira lições
de fundamental importância para o desenvolvimento de sua teoria
psicoterapêutica: a logoterapia.
Durante o cativeiro, Frankl observou que aqueles que sobreviviam
à violência, aos maus tratos, aos trabalhos forçados
e à fome, quase sempre eram justamente aqueles que conseguiam
encontrar um significado para seu sofrimento e mantinham uma esperança
de saírem com vida dos campos, seja porquê almejavam
reencontrar seus entes queridos ou voltar a trabalhar naquilo que
os realizava. Mesmo aqueles prisioneiros fisicamente mais fortes
e mais saudáveis, se perdessem a esperança e a vontade
de viver, morreriam logo. A determinação de Frankl
em sair do campo para continuar a escrever seu livro e para reencontrar
sua família ajudam a explicar como ele próprio sobreviveu
a condições subumanas de tratamento, aos trabalhos
forçados, à subnutrição - para completar,
conseguiu se reestabelecer de um ataque de febre tifóide
no final da guerra.
Ao contrário de Freud, que dizia que a força motivadora
do ser humano era o "princípio do prazer", e de
Alfred Adler, outro psiquiatra austríaco (autor da expressão
"complexo de inferioridade"), que dizia que a "busca
de superioridade" ("vontade de poder") era o que
determinava as ações dos indivíduos, Frankl
afirmava sem titubear: a sua teoria, a logoterapia, "concentra-se
no sentido da existência humana, bem como na busca por este
sentido". O desejo de encontrar um significado para a
própria vida é o que faz a vida valer a pena. O homem
é livre para escolher seu caminho e encontrar o sentido para
sua existência. A vontade de sentido é o que
move o ser humano.
Frankl diz que o ser humano é livre para assumir uma postura
frente à realidade que o cerca. Todo ser humano é
livre - e ninguém pode tirar do ser humano esta liberdade.
"Até mesmo numa situação onde você
não tem nenhuma liberdade externa, quando as circunstâncias
não lhe oferecem qualquer escolha de ação,
você retém a liberdade para escolher sua atitude ante
uma situação trágica. Você não
se desespera porque esta escolha está sempre com você
até seu último momento de vida." Mas esta
liberdade deve ser precedida pela responsabilidade. "É
por isso que eu recomendei nos EUA que, além da Estátua
da Liberdade na Costa Leste, deveria haver a Estátua da Responsabilidade
na Costa Oeste."
Ou seja: somos livres para assumirmos uma postura frente ao mundo,
mas somos responsáveis por esta escolha. Temos que assumir
então, em conseqüência de nossa liberdade, a responsabilidade
por tais escolhas, com as conseqüências que advêm
de nossas ações. Cabe a cada ser humano perceber e
superar as suas culpas. Se percebemos que a vida realmente tem um
sentido, percebemos também que somos úteis uns aos
outros. "Ser um ser humano é trabalhar por algo
além de si mesmo."
Assim sendo, o sentido da vida pode ser encontrado por uma pessoa
através de três caminhos:
1) o exercício de um trabalho que seja importante, ou a
realização de um feito, uma missão, que dependa
de seus conhecimentos e de sua ação, e que faça
com que a pessoa se sinta responsável pelo que faz;
2) o amor a uma pessoa ou a uma causa, uma idéia, o que
estabelece uma responsabilidade para com a pessoa amada ou à
causa defendida ("O amor é o derradeiro e mais alto
objetivo a que o homem pode aspirar. (...) Captei o sentido do maior
segredo que a poesia humana e o pensamento humano têm a transmitir:
a salvação do homem é através do amor
e no amor");
3) diante de um sofrimento inevitável, assumir uma postura
de buscar um significado e utilidade para a dor, pois através
da experiência cada pessoa pode contribuir para a vida de
outras pessoas.
Frankl foi submetido, junto com outros milhões de pessoas,
à experiência degradante e desumanizante dos campos
de concentração, onde os indivíduos eram reduzidos
a um nível infra-humano, sendo considerados menos ainda que
animais. O prisioneiro era desprovido de todos os seus bens, suas
roupas, seus objetos e até de seus nomes. Mas ainda assim
ele e outros se mantiveram firmes no propósito de sobreviverem
- porque suas vidas tinham um sentido. E, ao assumirem seu sofrimento
com dignidade, Frankl e tantos outros deram ao mundo um inestimável
e vivo testemunho de transcendência. O ser humano existe para
transcender, para ultrapassar limites.
Num mundo assolado pelo consumismo materialista, pela negação
da humanidade do ser humano, pela banalização pura
e simples do prazer (pois, segundo os niilistas, a vida não
tem nenhum significado) e pelo vácuo de sentido experimentado
por milhões e milhões de pessoas que simplesmente
não conseguem encontrar uma utilidade para sua existência,
a voz quase solitária de Viktor Frankl tornou-se referência
para tantas outras pessoas. Sua coragem, determinação,
caráter e despreendimento levaram-no às alturas do
espírito humano, bem acima de Freud, Adler, Skinner, entre
outros pioneiros, dos quais, diga-se de passagem, com elegância
inaudita, ele próprio reconhece as contribuições
e seus méritos. Mas as teorias destes precursores são
incompletas, porque não abarcam o ser humano em sua totalidade,
em sua potencialidade de realizar-se, transcender-se e doar-se.
Finalizo este texto com palavras de Viktor Frankl:
"Dentro de cada um de nós há celeiros cheios
onde nós armazenamos a colheita da nossa vida. O significado
está sempre lá, como celeiros cheios de valiosas experiências.
Quer sejam as ações que fizemos, ou as coisas que
aprendemos, ou o amor que tivemos por alguém, ou o sofrimento
que superamos com coragem e resolução, cada um destes
eventos traz sentido à vida. Realmente, suportar um destino
terrível com dignidade e compaixão pelos outros é
algo extraordinário. Dominar seu destino e usar seu sofrimento
para ajudar os outros é o mais alto de todos os significados
para mim."
Viktor Frakl faleceu em 2 de setembro de 1997, aos 92 anos.
Alguns textos e sites sobre Viktor Frankl e a logoterapia
http://logotherapy.univie.ac.at
http://www.cobra.pages.nom.br/ecp-frankl.html
http://www.oindividuo.com/convidado/olavo1.htm
http://www.outonos.com/textos/evandro20030307.html
http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/6634/
frankl.htm
http://www.logoterapia.com.br |