| Sem
muitas delongas, eis aqui minha listinha com os melhores e os piores
filmes que assisti no ano que passou lançados ou simplesmente
exibidos nos cinemas da capital do pão de queijo. É
o terceiro ano que faço essa simpática lista, já
que desde 2002 venho mantendo o saudável hábito de
ir ao cinema pelo menos uma vez por semana - claro, quando as circustâncias
o permitem.
Esta
coluna é dedicada ao grande amigo Pablo Villaça, do
Cinema
em Cena, que é fã do ABACAXI ATÔMICO
mas detesta minhas críticas cinematográficas, ré
ré ré ré ré...
Os
20 Piores
Isso
aí, pra manter a tradição vamos começar
pelos piores. Sempre é mais divertido. Eu gosto de filme
ruim, sabe? Claro, tem uns filmes ruins que são muito chatos
e enfadonhos, mas tem cada filme ruim que é tão ruim,
mas tão ruim que chega a ser bom e aí você dá
boas gargalhadas enquanto assiste.
Claro
que a lista está desfalcada. É o tal negócio:
eu gosto de filme ruim, mas o meu dinheiro não é capim
e meu tempo é deveras precioso pra eu perder tempo com bombas
consagradas tipo Van Helsing, No Pique de Nova Iorque,
As Branquelas (é esse o nome do filme?) entre outras
pérolas. Em compensação, vi muito filme brasileiro
ruim - o pódio da mediocridade este ano, aliás, é
todo nacional, viva nóis! Mas veja bem, isso não quer
dizer que eu tenha uma especial repulsa pelo cinema tupiniquim (antes
que me perguntem, não, eu não vi Cazuza,
estava morrendo de preguiça), isso só comprova que
nós sabemos fazer tantos filmes ruins quanto os americanos
fazem hoje em dia. Olga que o diga.
Vamos
lá, então:
20
O Último Samurai
Depois
de um começo promissor, o filme literalmente despenca na
sua parte final. Daí perde completamente a noção
do ridículo na seqüência clímax. Isso sem
falar no final forçado.
19
Como Se Fosse a Primeira Vez
Outra
idéia até boa desperdiçada. Se você não
for exigente (aliás, se não ligar para finais absurdos
e inverossímeis), corre até o risco de gostar. Mas
o problema maior são as piadinhas escatológicas imbecis
- em certo momento, uma foca vomita em um dos personagens. Coisa
fina.
18
Cold Mountain
Ronc...
ronc... zzz.zzz.z..z.z.z.z.z.z.z.z.z..z...z..z.z..z.zzz ..z.zzz..z.z..z.z.
a.a.a..b..b.a.b..z.z..z.z. ronc... ronc... ronc..... ronc.... ronc
... ...aaa zzz.z.z.z.z.zz.zz.z.zzzz z..z.z.z z.z.z.z..z zzzzz..z.z.z
z.z.z.z.z..z.zz z.z.z..z.z.zz.
17
Nina
Justiça
seja feita, tecnicamente é excepcional, belo trabalho (fotografia,
montagem, etc). Mas o roteiro é um lixo. Os personagens são
uns idiotas, destacando-se a Nina, interpretada por Guta Stresser,
que não passa de uma inútil freqüentadora de
raves ("vivendo a agitada cena eletrônica de São
Paulo", o Indiegesto iria dar gargalhadas nessa). O filme tenta
vender a imagem de que ela está acima das outras pessoas
por ser "uma pessoa extraordinária" (uma vagabunda
que não trabalha, vai pra balada e se afunda nas drogas,
é promíscua e neurótica? O que há de
extraordinário nisso?) e bla bla bla, porque vê o mundo
de outra maneira, bla bla bla. "Sensibilidade agudíssima
e mente fragilizada" o cacete, essa mulher é uma idiota
de pai e mãe, além de mau-caráter. Eu não
caí na conversa fiada deste filme, pretensioso e cabeça.
16
Querido Estranho

Se
fosse para a TV, daria mais certo. Este filme, baseado numa peça
teatral (percebe-se), se parece mais com um episódio tipo
teleteatro que a Globo fazia muito antigamente. Tem Daniel Filho,
Suely Franco, Ana Beatriz Nogueira e Cláudia Netto no elenco,
e eles seguram um pouco as rédeas. Não chega a aborrecer
totalmente, mas é bem fraquinho, não comove, não
emociona. Pra esquecer fácil fácil.
15
Os Esquecidos
Por
falar em esquecer, que coisa hein! Difícil engolir essa palhaçada
estrelada por Julianne Moore. Ela interpreta uma mãe traumatizada
pela morte de seu filho. De repente, não mais que de repente,
todas as pessoas em sua volta, inclusive seu psiquiatra (ixi, pior
ainda) começam a negar que este filho sequer um dia tenha
existido. As coisas começam a ficar ainda mais estranhas
quando todas as lembranças da criança (fotos, vídeos
e etc) desaparecem. Intrigante, né? Pois é. O problema
é que ninguém deve ter sabido como arrumar direito
esse balaio de gatos, daí inventaram uma das soluções
mais estapafúrdias e absurdas que eu já vi...
14
A Sétima Vítima
Pelo
visto, a onda agora do cinema espanhol é babar ovo para o
mercado norte-americano. Com Os Outros pelo menos deu razoavelmente
certo. Esse suspense bobo, repleto de clichês, confuso e sem
graça é falado em inglês e traz Anna Paquin
(a Vampira de X-Men) no elenco.
13
Anaconda 2
Eu
falei que gosto de ver filmes ruins. Este aqui, como comédia,
até funciona. Só tem história mesmo nos cinco
primeiros minutos, quando vão inventar uma desculpa para
colocarem um grupo de cientistas (?) pra lá de um fim de
mundo selvagem no meio da selva a procurar uma flor que só
desabrocha de sete em sete anos (número cabalístico,
hein...). Lá tem umas cobras enormes e ponto final. É
tosqueira total, bem engraçado e garante boas risadas. O
melhor de tudo: é curto (dura cerca de uma hora e meia).
Um bom filme ruim.
12
O Vestido
Filme
nacional filmado por aqui, em Sabará (eita nóis!).
Pena que o filme seja ruim. Até que é tecnicamente
bem realizado, mas a história (adaptada de um poema de Carlos
Drummond de Andrade, que deve ter dado voltas e voltas no túmulo)
é confusa, o final é de um moralismo disfarçado
que irrita profundamente. Na verdade, é tudo muito difícil
de engolir. E Gabriela Duarte ainda consegue irritar bastante no
papel principal. Isso é um elogio? Afinal de contas, normalmente
ela é tão insossa!
11
Em Carne Viva
Outro
interessante fiasco do ano passado, já que foi aguardado
com bastante expectativa por causa das "picantes" cenas
de séquissu com a Meg Ryan. Mas o filme não passa
de um suspense (onde? onde? onde?) para insones com um final "inesperado".
Quem paga mico aqui dessa vez é a própria Meg Ryan
mas, que ela tá uma quarentona enxuta, ah isso ninguém
pode negar. Dá de 10 a zero em muita menina de 20 por aí...
10
Mulheres Perfeitas

Hã...
Interessante é refletir: como a Nicole Kidman (linda, linda,
linda, linda, linda, linda, linda, linda, linda) foi inventar de
embarcar numa canoa tão furada quanto essa? O filme soa completamente
anacrônico: afinal de contas, uma crítica ao machismo
ou ao feminismo? A "revelação" final é
grotesca, porque desnuda um roteiro completamente furado - deve
ter sido escrito por um robô.
9
Alguém Tem Que Ceder
Este
foi um dos filmes que realmente conseguiu me irritar. É um
romance que tenta ser comédia, mas não é engraçado
ou especialmente interessante. O final força a barra para
que tudo termine bem, com todos felizes, mas é completamente
sem graça. Dessa vez, nota zero pra Jack Nicholson e Diane
Keaton, afinal atores como eles têm um nome a zelar e deveriam
escolher seus projetos com mais cuidado.
8
Benjamim
Desastrosa
adaptação de romance do Chico Buarque. Pra ser justo,
louve-se o Paulo José, que é um grande ator. Fora
isso, me ajuda. Cléo Pires é linda de morrer e só.
O final não se justifica, é ilógico (porque
a personagem de Cléo Pires não interfere?), chegando
a ser constrangedor, enquanto a idéia é que fosse
carregado de dramaticidade. Isso sem falar em bizarrices desnecessárias,
como o Wando cantando numa gincana. Porra, pagar ingresso pra assistir
um filme e ver o Wando cantar numa gincana numa cena totalmente
desnecessária é demais pra mim (e o show de horrores
continua, uma das tarefas da tal gincana era levar ao palco uma
menina de doze anos grávida). Vá pra putaqueopariu.
7
Rei Arthur
Argh,
está esquentando... O filme se baseia em pesquisas históricas
(hein? hein? hein? hein?), mas comete anacronismos - a meu ver,
um deles notável para os especialistas é atribuir
à igreja de Roma um poder que ela certamente não tinha
na época (o filme se passa no século V). Bom, isso
é apenas um detalhe. Ao tentar dar relevo histórico
a um personagem sobre o qual conhecemos muito pouco e está
envolto em lendas e mitos, o filme mete os pés pelas mãos.
A história do filme é desinteressante, os personagens
não são marcantes, não há nenhum pelo
qual o espectador se sinta atraído ou se interesse por ele
em especial. Entretanto, o pior de tudo mesmo é o final piegas,
com direito à chuva de flores e mais uma baboseirada danada.
6
O Sorriso de Mona Lisa
Aqui
nesta bomba, Julia Roberts é uma professora de artes numa
escola feminina conservadora dos anos 50. Ela é liberada,
sexualmente avançada (seja lá o que isso queira dizer)
e vai instigar suas pupilas a se tornarem mulheres independentes.
Roteiro pavoroso, as histórias dela e das personagens secundárias
não têm sentido algum. Duro de agüentar... O final
"emocionante" é simplesmente horroroso. Todo mundo
falou que é uma espécie de Sociedade dos Poetas
Mortos de saias, só que há uma diferença
fundamental: Sociedade... é bom, já este
filme é péssimo.
5
Na Companhia do Medo
Este
foi o ano da Halle Berry. Duvida? Aqui, ela faz uma psiquiatra atormentada,
daí passa a atormentar os incautos que pagaram pra assistir
a isto. Lastimável.
4
Mulher-Gato

Fala
sério!!!!!!
3
Olga
Medalha
de bronze para o Brasil-sil-sil! O bordão "Eu estou
grávida de Luís... Carlos... Prestes!!!" esteve
na moda por aí, segundo alguns noticiaram. O detalhe é
que esta cena era pra ser dramática e virou motivo de chacota.
Preciso falar mais?
2
A Cartomante
Um
dos filmes mais espetaculares dos últimos anos. Espetacularmente
ruim, bem entendido. Mas este é o clássico "tão
ruim tão ruim mas tããããão
ruim que chega a ser bom". A Giovana Antonelli de sutiã
e calcinha é uma visão esplendorosa, mas tinha que
ter tirado o resto! E que história é essa da Debora
Secco toda vestidinha? Que moralidade é essa??? Isso é
cinema nacional, pô!!! Cadê a mulherada gostosa pelada???
Enfim, a "revelação surpreendente" que o
filme nos faz é uma das coisas mais bizarras que vi nos últimos
tempos, arranca gargalhadas de tão absurda. Não podemos
nos esquecer, é claro, da atuação da Silvia
Pfeiffer (onde é que ela arrumou este sobrenome, meu Deus?).
Ela é realmente uma atriz versátil: estando feliz
da vida ou com prisão de ventre faz sempre a mesma cara.
Segundo lugar com louvor.
1
Filme de Amor

Julio
Bressane em sua maior forma. Ou seja: fazendo filmes péssimos.
Este daqui é simplesmente abominável, insuportável.
Conta a história (tem história?) de duas mocréias
e um babaca que passam o fim de semana trancados num apartamento
trepando e tergiversando sobre temas os mais variados, inclusive
o amor (ah, o amor!!!). No meio disso, bizarrices como usar o ferro
de passar roupa pra passar o bife (o apartamento é uma pocilga,
mas não tinha nem um batedor de carne não?), uma representação
mal ajambrada de Moby Dick (o que Moby Dick tem
a ver com putaria eu ainda não fui capaz de abstrair), ou
ainda um close de um pênis ejaculando em câmera lenta
(obviamente inspirado em Matrix). Pelo menos esta pérola
pode se orgulhar de ter sido vaiada em Cannes. E você pode
refletir um pouco: nem os franceses agüentaram isso! Os franceses!!!!
Os
20 Melhores
Sobrevivemos,
passamos incólumes a estas 20 bombas! Sim, é uma façanha.
Mas antes do listão dos melhores, tenho que fazer o mea culpa,
afinal perdi três filmes que não deveria ter perdido
quando de suas exibições. São eles: Anti-Herói
Americano, Na Captura dos Friedmans e Kill Bill
Vol. 2 - este último ficou apenas três semanas
em cartaz aqui na roça, e eu estava viajando (recusei o convite
da Menina Enciclopédia pra assistir o filme com ela em São
Paulo, "quando eu chegar em BH eu assisto, estou viajando,
quero passear"...). Pois é, me dei mal.
Ah,
quero comentar algumas ausências propositais. São filmes
bons, mas não entraram no top 20 por um julgamento puramente
subjetivo:
Dogville
é particularmente interessante, passa raspando na lista,
é um bom filme, mas não achei nada de fenomenal como
todo mundo achou. Em primeiro lugar, é um filme pretensioso
e babaca - feito em estúdios e sem cenários, que bobagem...
Em segundo lugar, é uma boa metáfora sobre a imigração
nos Estados Unidos, nada mais do que isso. Pra mim, é uma
filosofia barata sobre a condição humana - o ser humano
é mau!!! Meu Deus, que descoberta fascinante do Lars Von
Trier. É uma moral de adolescente, uma história boba
e superestimada com uma personagem principal tão retardada
(e difícil de aceitar) como a Selma de Dançando
no Escuro. Ademais, três horas de teatro filmado é
de lascar - a primeira meia hora do filme é simplesmente
insuportável. Eis que aparece a Nicole Kidman, simplesmente
maravilhosa... Daí o filme começa a pegar no tranco.
Escola
de Rock é muito simpático e divertido. Aliás,
Homem-Aranha 2 também. Só isso. Encontros
e Desencontros é um filme agradável, gostoso
de se assistir, bonito, termina com "Just Like Honey",
do Jesus and Mary Chain, mas perde muito tempo com um inútil
Karaokê, além de abusar do inverossímel e de
piadas batidas (publicitário e médico japoneses que
não sabem falar inglês? Ah! Conta outra, mané!!!).
Outro ausente na lista é O Show Não Pode Parar,
ótimo documentário exibido somente no Indie
2004, que é inegavelmente muito bom, mas só deve
interessar a um público mais específico - os cinéfilos
de plantão. Falando em documentário, Fahrenheit
11 de Setembro até entraria na lista se o Bush não
tivesse sido reeleito. Ou seja: o próprio resultado das eleições
mostra que Michael Moore apenas pregou para os já convertidos.
Outro
que está ausente, mas este está ausente porque não
é bom mesmo, é Peixe Grande e Suas Histórias
Maravilhosas, um filme apenas razoável (razoável
mesmo!), onde o Tim Burton faz o que mais sabe fazer: escorregar
na hora de contar história. Assistível e só.
Não
foi fácil, devo confessar, fazer a lista dos melhores, foi
mais difícil que a dos piores. A qualidade das películas
de 2004 melhorou em relação a 2003. Então,
let's go!
20
Histórias Mínimas
Pérola
vinda da Argentina. Simples, terno, honesto e sensível. Personagens
cativantes. Você sai até mais leve do cinema.
19
21 Gramas
A força
do filme está no seu elenco. Benicio Del Toro e
Naomi Watts seguram o filme no braço. E repito novamente:
Sean Penn deveria ter ganho o Oscar por sua interpretação
neste filme, não pelo superestimado Sobre Meninos e Lobos.
18
Elefante
Tá
bem, essa metáfora do Gus Van Sant é dose pra... elefante.
Mas o filme é bom, não dá espaço pra
explicações fáceis no que ambiciona mostrar,
é tecnicamente competente com belos movimentos de câmera
e induz o espectador a pensar, a refletir sobre as tragédias
de nosso cotidiano. E só de fazer o público pensar,
o filme já merece estar na lista.
17
Meninos de Deus
Exibido
somente no Indie (essa não!), este é um filme obrigatório
sobre adolescentes. Ao menos, é o melhor que já assisti.
Engraçado, divertido, mas sério e provocador. Curiosidade:
não teve a repercussão merecida, mesmo tendo Jodie
Foster no elenco.
16
Contra Todos

Bom
filme nacional! Surpreendente, com ótimas atuações,
é uma feliz estréia na direção de Roberto
Moreira (que também escreveu o roteiro). O filme tem como
pano de fundo a zona leste de São Paulo (aê, Menina
Enciclopédia!) e seus personagens principais, que formam
uma família marcada pelas contradições e pela
violência. História bem bolada, que foge aos padrões,
clichês e moralismos.
15
Moça Com Brinco de Pérola
Talvez
o filme mais "bonito" de 2004, é indispensável
para os fãs de arte. Aqui, Scarlett Johansson faz uma jovem
camponesa que vai trabalhar como empregada na casa do renomado pintor
holandês Johannes Vermeer. O filme é uma ficção
sobre a origem (desconhecida) do mais famoso quadro deste pintor,
que tem justamente o nome de Moça Com Brinco de Pérola.
Com uma bela reconstituição de época (a direção
de arte e a fotografia são impecáveis, já valem
o filme) e ótimos atores (Scarlett Johansson é de
uma ternura arrebatadora), é um filme apaixonante.
14
Papai Noel Às Avessas
Olha,
se não fosse o final, estaria na primeira posição.
PRIMEIRA POSIÇÃO, entendeu? Porque é engraçado,
irreverente, bem sacado, anti-natal, tosco até não
poder mais. Mesmo com o final meio decepcionante (aaaaaaahhhhhhhh...),
é anárquico e divertido. Billy Bob Thornton já
havia brilhado em A Última Ceia e O Homem Que
Não Estava Lá, este último dirigido pelos
irmãos Coen, os produtores executivos e autores do argumento
de Papai Noel Às Avessas. Aqui, este ótimo
ator mata a pau fazendo um Papai Noel ladrão, bebum, tarado
e desbocado. Uma sensacional crítica ao consumismo natalino.
13
Kill Bill Vol. 1
Diversão
garantida. Pode não ser essencialmente criativo, é
apenas um catalisador da cultura trash-pop, mas garante ótimas
gargalhadas. E a Uma Thurman é realmente uma belezura.
12
O Abraço Partido
Outro
filme arrrrrrrentino, com personagens simplesmente fabulosos. Tendo
como pano de fundo uma galeria de lojas do centro de Buenos Aires,
a história foca o jovem judeu Ariel, que está na merda
como grande parte da juventude argentina. Ajuda na loja de lingeries
de sua mãe depois de ter largado a faculdade, tem um rolo
com uma das funcionárias da galeria, sonha em conseguir cidadania
polonesa e fugir da crise para procurar emprego na Europa. Sarcástico,
o cara ainda faz piadas (algumas muito engraçadas...) sobre
tudo isso. No meio disso, mantém uma eterna dúvida
sobre os motivos que levaram seu pai a abandonar a família
e ir lutar na Guerra do Yom Kippur, em Israel no começo dos
anos 70. A cena final é simplesmente maravilhosa. Em suma:
tem uma pitada de humor (às vezes negro), é comovente,
é inteligente... É brilhante.
11
Suspiro
Este
só passou no Indie e é o filme chinês mais surpreendente
que já vi. Dirigido por Feng Xiaogang (queeeeeeem???), conta
a história de um escritor de novelas casado e pai de uma
filha que se apaixona perdidamente por sua nova secretária,
uma garota linda e mais nova, e entra em um grande conflito pessoal
ao decidir abandonar sua família para ficar com sua nova
paixão. Não é um dramalhão qualquer:
o filme trata os sentimentos de todos os envolvidos com muita dignidade,
sem fazer julgamentos ou pregações moralistas. E isso
tendo como pano de fundo uma sociedade extremamente conservadora
e repressora, onde os costumes são muito arraigados. Se puder
conferir, não hesite.
10
As Bicicletas de Belleville
Desenho
animado encantador, praticamente sem diálogos. É pra
adultos e crianças maiores. Tem o toque mais sentimental
na relação da avó com o neto, mas o filme passa
longe do sentimentalismo barato, e acaba se tornando uma aventura
empolgante e divertida.
9
Stand-by
Surpreendente
e ousado filme francês cuja história se passa inteiramente
num aeroporto, de onde a personagem principal não quer sair
mais depois de levar um baita fora do marido. Chega à beira
do surreal, mas tem uma idéia curiosa e realização
impecável. Merece ser conhecido (mas você só
vai assistir se comprar o DVD francês, o filme é tão
obscuro que só ficou por lá!).
8
Num Céu Azul Escuro
O Pearl
Harbor que deu certo! Este empolgante triângulo amoroso no
meio da Segunda Guerra foge dos padrões americanos de filmes
de guerra - o filme é da República Tcheca, o que explica
o olhar mais contido e melancólico sobre as tragédias,
a destruição material, os massacres. Mas o maior mérito
do filme é resgatar a história dos esquecidos pilotos
tchecos que lutaram contra o nazismo durante a ocupação
de seu país. E não tem desculpa, esse filme só
foi exibido no Indie mas já foi lançado em DVD! Trate
de assistir!
7
Edukators
Pois
é, pra quem não sabia, existem alemães que
fazem filmes legais. Antes de mais nada, ao contrário de
certos idiotas que não captaram a mensagem, os personagens
de Edukators não estão "certos"
ou "errados", eles estão sim inconformados e agem
- certos ou não, eles agem a partir de uma mistura de desespero
(pela falta de perspectivas sociais e alternativas políticas),
idealismo e coragem. Interessa menos as idéias do personagem
Jan, às vezes equivocadas, simplistas e inconsistentes, mas
a sua coerência e, principalmente, de onde vem a sua insatisfação.
E se "Os Educadores" não conseguem encontrar soluções
viáveis para os problemas do mundo de hoje, pelo menos fazem
perguntas instigantes e observações corretas. Por
isso é que eles devem ser ouvidos, por isso é que
este filme deve ser visto.
6
Diários de Motocicleta

O melhor
filme de Walter Salles. É um mergulho na América Latina
na pessoa idealizada de Che Guevara. Na verdade, o filme acompanha
o que seria a gestação de um mito. Julgar Che pelo
que fez depois, se foi ou não correta sua decisão
de pegar em armas e fazer a revolução, isso, para
julgar este filme, é irrelevante. O mito é realmente
bem maior que o personagem. O filme não teria como escapar
disso (e não precisava, mesmo).
5
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Absurdamente
esnobado pela "Academia", é um filme extraordinariamente
criativo, com uma belíssima história e um show de
Jim Carrey no papel de Joel, um rapaz apaixonado pela ex-namorada
Clementine (Kate Winslet, ela pelo menos foi indicada ao Oscar de
Melhor Atriz). Ela se submete a um tratamento para retirar de sua
mente todos os momentos vividos com Joel, para esquecê-lo
definitivamente. Ao saber disso, Joel resolve se submeter ao mesmo
tratamento por não ver mais esperanças em reatar o
romance com Clementine e não ver outra alternativa para superar
este relacionamento e seguir em frente. Mas é possível
apagar da mente uma experiência? O que é nossa identidade
enquanto seres humanos senão o nosso passado, o que nos fez
chegar até onde estamos? Seria possível manipular
nossa memória para, conseqüentemente, manipularmos nossos
sentimentos a nosso bel prazer? É possível crescer
e amadurecer sem sofrimento?
4
Adeus, Lênin!
Num
pequeno apartamento, a anacrônica República Democrática
Alemã sobrevive graças à tenacidade de um rapaz
que faz de tudo para proteger a mãe, militante comunista
apaixonada, que tem um coração fraco e está
se recuperando depois de meses em coma. Ela não pode saber
de maneira alguma da frustração de seus ideais socialistas,
da queda do muro de Berlim e do avanço do capitalismo sobre
sua combalida nação. Extraordinário filme alemão
de Wolfgang Becker, com uma história divertida e singela.
E descreve a Alemanha Oriental na época da queda do muro
de Berlim, o que não deixa de ser uma curiosidade. Atenção!
O ator Daniel Bruhl também faz parte do elenco de Edukators,
mas o diretor deste último é outro, chama-se Hans
Weingartner. Certo?
3
Narradores de Javé
Disparado
o melhor filme nacional de 2004, é o anti-Olga.
Humilde, despretensioso, inteligente, divertido. Elenco notável,
onde se destaca o impagável José Dumont. É
um filme que mostra o valor da história oral, das narrativas
e tradições de um povo, e o quanto as narrativas históricas
dependem daqueles que contam os acontecimentos. Repare no aviso
escrito na entrada do casebre onde vive (ou sobrevive, dependendo
do ponto de vista...) o trapaceiro Antônio Biá: "Proibida
a entrada de analfabetos".
2
Os Incríveis
Simplesmente...
Incrível. Uma curiosidade: já vi texto aí pela
internet falando que "o desenho animado Os Incríveis
é propaganda sofisticada e brutal do novo conservadorismo
americano...", mas eu sinceramente não vejo por aí.
Sabe por quê? O ideal do americano médio, trabalhador
e tal, permeia o cinema americano desde que o cinema é cinema,
e Frank Capra era um mestre em trabalhar com isso. O Sr. Incrível
é um super-herói dentro desta visão do "american
way of life", e ela reflete uma velha tradição
dos americanos em louvar este determinado estilo de vida. É
um conservadorismo tradicional, um ideal americano: o anônimo
que é capaz de realizar atos inimagináveis - ou incríveis.
Na verdade, diz respeito à autonomia do indíviduo,
a sua capacidade de transformar a história e o mundo. Os
americanos são realmente assim, e, creio eu, isso não
está diretamente ligado a este movimento direitista pró-Bush.
Mas posso estar errado... Enfim, leia
o texto e discorde ou concorde. E assista o filme, que é
pra lá de divertido, empolgante...
1
Geração Roubada

O grande
filme do ano veio da Austrália e trata de uma das maiores
atrocidades do século 20: a destruição sistemática
das populações aborígines australianas. É
a história verídica das irmãs Molly, de 14
anos, Daisy, de 10, e sua prima, Gracie, (8 anos), arrancadas do
convívio familiar em 1931 a mando do governo e internadas
em um "centro educacional", onde seriam devidamente ocidentalizadas
e cristianizadas, para apagar a sua cultura "bárbara"
e seu passado. As meninas acabam fugindo do centro e iniciam um
desesperado retorno ao lar, mas para voltarem a Jigalong, sua terra
natal, teriam que andar mais de 2500 km através do deserto!
O filme narra essa verdadeira odisséia: três verdadeiras
heroínas, sem comida ou água e a pé, realizam
este trajeto tendo apenas como orientação a "rabbit-proof
fence", uma enorme cerca que impedia o trânsito de coelhos
entre diferentes regiões do país. O sofrimento do
povo aborígene foi uma daquelas grandes tragédias
que quase ninguém ficou sabendo: as leis segregacionistas
só foram abolidas em 1972, e o estrago já havia sido
feito (essa geração de crianças aborígenes
separadas dos pais e das famílias para serem enviadas a esses
campos de reeducação foi chamada de "geração
roubada", de onde vem o nome do filme). Ao final, num momento
comovente, o filme traz as verdadeiras personagens, hoje idosas,
contando em seu idioma aborígene os eventos posteriores aos
narrados pelo filme. Fotografia deslumbrante, atuações
fantásticas - inclusive a de Kenneth Branagh, que faz o bem
intencionado Neville, a autoridade do governo responsável
pelos "campos de educação", homem que acredita
realmente no que faz e é uma das inumeráveis provas
vivas de que o caminho do inferno está pavimentado com boas
intenções. Mas são os atores aborígenes
que dão um verdaeiro show: as meninas, chamadas Everlyn Sampi,
Tianna Sansbury e Laura Monaghan, e o implacável perseguidor
Moodoo, o ator David Gulpilil. Um filme que faz uma denúncia
corajosa de uma das políticas segregacionistas mais cruéis,
violentas e absurdas dos tempos recentes. E isso aconteceu logo
na Austrália, um país tão civilizado!...
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