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Beagá, 31 de janeiro de 2005 d.C.
 
O show bizarro
Por Cajabis Cannabis
 

Não, eu não assisto o Big Brother Brasil. Acho muito chato. E me assusta, sinceramente, a audiência do programa. Seja porque parece que as pessoas não têm mesmo coisa melhor para fazerem à noite durante a semana, seja porque é deprimente ver uma dúzia de imbecis mantidos sob clausura e apostar qual deles vai ganhar uma sucessão de gincanas e permanecer por último na tal casa. O prêmio por tal façanha? Grana e fama.

Grana e fama fazem a felicidade de alguém? Por que as pessoas vão atrás disso? Será que não estão satisfeitas com a vida que levam? Será que os vencedores das edições anteriores do Big Brother estão satisfeitos hoje com a vida que levam após ganharem o concurso que participaram? Será que isso realmente é relevante para nós, que estamos do outro lado da tela da televisão? É de se perguntar: o que eu tenho a ver com aquelas pessoas que estão presas lá dentro, por que eu tenho que torcer por elas, o que vou ganhar com isso?

É, eu estou mesmo assustado. Tentei entender essa fixação do público pela mediocridade humana, muito bem representada pelos indivíduos participantes do BBB. Impossível, para mim, assistir mais que cinco minutos, dia desses. Não consegui ver o menor sentido naquele espetáculo de boçalidade, resultado de uma sociedade que se consome em sua própria antropofagia. Mas eu fico realmente com medo quando vejo os altos índices de audiência deste programa tão nefasto à inteligência.

O Big Brother, porém, é apenas um exemplo adequado. Com um grau de amoralidade ímpar, a televisão nos impõe, em geral, um narcisismo irritante e exacerbado, que, se reflete a sociedade em que vivemos, não deixa de ser um recado contundente a todos: quanto mais idiota o público, melhor. Ou você se enquadra neste esquema, ou você está por fora. Você é excluído. Você não pensa como os 60 pontos de audiência no IBOPE em dias de paredão. Porque a massa amorfa já elegeu dinheiro e fama como valores, como se dinheiro e fama por si valessem alguma coisa. Como se esse show de banalidades fosse capaz de transcender a angústia inerente ao ser humano, como se fosse capaz de sufocar os sofrimentos que nos acompanham durante nossa vida.

A televisão ligada no choro da menininha com a cara toda furada de piercings (que modismo imbecil e lamentável!) é um paliativo. Aliás, os próprios piercings da aborrescente também o são. Assim como as praças de alimentação dos sempre lotados shopping centers - porque é assim, não é mesmo? Se não estamos na frente da tevê, nós, que estamos reféns da violência e cada vez mais enclausurados dentro de nós mesmos, podemos ir ao shopping consumir cegamente, buscando a satisfação imediata, tentando sempre driblar a melancolia, ignorar a ocasional depressão.

Ou então podemos arrumar alguma diversão estúpida, fugaz, alguma balada inútil. Ou podemos trocar de parceiros, já que trocamos de relógio, de sapato, de roupas, por que não? Trocamos de canal de televisão com o controle remoto, por que não trocar de parceiro quando bem entendermos, quando sentirmos vontade? São paliativos que obnubilam nossa visão. Quantos excessos não estão à nossa disposição para tornar-nos cada vez mais inseguros, impotentes e inúteis? Esses excessos nos satisfazem rapidamente, porque não permitem que pensemos sobre a realidade que está em nossa volta. Já os excessos atendem ao nosso íntimo clamor ("eu não quero pensar!!!"), e isso nos alivia profundamente. Porque então seríamos forçados a encarar o que realmente somos, e a verdade é bastante dolorosa.

O reverendo Moon é que estava antenado com seu tempo. Ele dizia aos seus fiéis: "Não pensem! Eu penso pra vocês!", ou qualquer coisa assim. Pois o que percebo ao meu redor é um consumismo desenfreado e uma desvalorização do caráter e da humanidade do ser humano. Você não vale o que é, nem suas idéias têm valor: você vale o que tem, o que aparenta e o que os outros pensam que você tem. Numa sociedade dessas, gente não é gente, as pessoas são descartáveis, porque seu valor é extremamente relativo, não é absoluto. Caráter e integridade não são coisas que se usufruem, são valores internalizados, fora de moda. Dinheiro e fama, esses sim: você pode usar as pessoas para obter isso por meio delas, para proveito próprio. Para isso, não hesitaria em mandar seu melhor amigo ou parente ou seja lá quem for para o paredão.

Se essa é a realidade que a televisão apresenta e contribui para mantê-la, ainda bem que procuro estar bem distante dela, o máximo possível. Neste sentido, as melhores idéias são aquelas que estão "fora da realidade". Acredito que o ser humano vale muito mais do que o dinheiro que tem ou a fama que possui e que uma mulher de verdade é mulher de verdade não pelo seu par de glúteos. Infelizmente, o mundo se tornou um enorme circo, uma versão estendida do Big Brother. Se você não participa do programa, está "fora da realidade" - e é melhor mesmo se excluir deste show bizarro que é nosso cotidiano.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, psicólogo, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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