| Não,
eu não assisto o Big Brother Brasil. Acho muito
chato. E me assusta, sinceramente, a audiência do programa.
Seja porque parece que as pessoas não têm mesmo coisa
melhor para fazerem à noite durante a semana, seja porque
é deprimente ver uma dúzia de imbecis mantidos sob
clausura e apostar qual deles vai ganhar uma sucessão de
gincanas e permanecer por último na tal casa. O prêmio
por tal façanha? Grana e fama.
Grana
e fama fazem a felicidade de alguém? Por que as pessoas vão
atrás disso? Será que não estão satisfeitas
com a vida que levam? Será que os vencedores das edições
anteriores do Big Brother estão satisfeitos hoje
com a vida que levam após ganharem o concurso que participaram?
Será que isso realmente é relevante para nós,
que estamos do outro lado da tela da televisão? É
de se perguntar: o que eu tenho a ver com aquelas pessoas que estão
presas lá dentro, por que eu tenho que torcer por elas, o
que vou ganhar com isso?
É,
eu estou mesmo assustado. Tentei entender essa fixação
do público pela mediocridade humana, muito bem representada
pelos indivíduos participantes do BBB. Impossível,
para mim, assistir mais que cinco minutos, dia desses. Não
consegui ver o menor sentido naquele espetáculo de boçalidade,
resultado de uma sociedade que se consome em sua própria
antropofagia. Mas eu fico realmente com medo quando vejo os altos
índices de audiência deste programa tão nefasto
à inteligência.
O Big
Brother, porém, é apenas um exemplo adequado.
Com um grau de amoralidade ímpar, a televisão nos
impõe, em geral, um narcisismo irritante e exacerbado, que,
se reflete a sociedade em que vivemos, não deixa de ser um
recado contundente a todos: quanto mais idiota o público,
melhor. Ou você se enquadra neste esquema, ou você está
por fora. Você é excluído. Você não
pensa como os 60 pontos de audiência no IBOPE em dias de paredão.
Porque a massa amorfa já elegeu dinheiro e fama como valores,
como se dinheiro e fama por si valessem alguma coisa. Como se esse
show de banalidades fosse capaz de transcender a angústia
inerente ao ser humano, como se fosse capaz de sufocar os sofrimentos
que nos acompanham durante nossa vida.
A televisão
ligada no choro da menininha com a cara toda furada de piercings
(que modismo imbecil e lamentável!) é um paliativo.
Aliás, os próprios piercings da aborrescente também
o são. Assim como as praças de alimentação
dos sempre lotados shopping centers - porque é assim, não
é mesmo? Se não estamos na frente da tevê, nós,
que estamos reféns da violência e cada vez mais enclausurados
dentro de nós mesmos, podemos ir ao shopping consumir cegamente,
buscando a satisfação imediata, tentando sempre driblar
a melancolia, ignorar a ocasional depressão.
Ou
então podemos arrumar alguma diversão estúpida,
fugaz, alguma balada inútil. Ou podemos trocar de parceiros,
já que trocamos de relógio, de sapato, de roupas,
por que não? Trocamos de canal de televisão com o
controle remoto, por que não trocar de parceiro quando bem
entendermos, quando sentirmos vontade? São paliativos que
obnubilam nossa visão. Quantos excessos não estão
à nossa disposição para tornar-nos cada vez
mais inseguros, impotentes e inúteis? Esses excessos nos
satisfazem rapidamente, porque não permitem que pensemos
sobre a realidade que está em nossa volta. Já os excessos
atendem ao nosso íntimo clamor ("eu não quero
pensar!!!"), e isso nos alivia profundamente. Porque então
seríamos forçados a encarar o que realmente somos,
e a verdade é bastante dolorosa.
O reverendo
Moon é que estava antenado com seu tempo. Ele dizia aos seus
fiéis: "Não pensem! Eu penso pra vocês!",
ou qualquer coisa assim. Pois o que percebo ao meu redor é
um consumismo desenfreado e uma desvalorização do
caráter e da humanidade do ser humano. Você não
vale o que é, nem suas idéias têm valor: você
vale o que tem, o que aparenta e o que os outros pensam que você
tem. Numa sociedade dessas, gente não é gente, as
pessoas são descartáveis, porque seu valor é
extremamente relativo, não é absoluto. Caráter
e integridade não são coisas que se usufruem, são
valores internalizados, fora de moda. Dinheiro e fama, esses sim:
você pode usar as pessoas para obter isso por meio delas,
para proveito próprio. Para isso, não hesitaria em
mandar seu melhor amigo ou parente ou seja lá quem for para
o paredão.
Se
essa é a realidade que a televisão apresenta e contribui
para mantê-la, ainda bem que procuro estar bem distante dela,
o máximo possível. Neste sentido, as melhores idéias
são aquelas que estão "fora da realidade".
Acredito que o ser humano vale muito mais do que o dinheiro que
tem ou a fama que possui e que uma mulher de verdade é mulher
de verdade não pelo seu par de glúteos. Infelizmente,
o mundo se tornou um enorme circo, uma versão estendida do
Big Brother. Se você não participa do programa,
está "fora da realidade" - e é melhor mesmo
se excluir deste show bizarro que é nosso cotidiano.
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