| 2005
vai ser um ano rock? Sei lá. Não me parece que estão
acontecendo tantas coisas relevantes assim no cenário da
música ou mesmo da cultura. É complicado encontrar
alguma real "novidade" quando o que se vê por aí
são bandas tentando ser o Radiohead do novo milênio,
enquanto que outras se arrastam como brontossauros teimosos em não
se extingüirem. O Libertines tem sido nos últimos meses
o que o Strokes foi há pouco tempo, e logo logo também
será superado.
E no
cinema? Bem, no caso do cinema nacional o ano já começou
mal, com o competente Jorge Furtado metendo o pé na jaca
com o fraquíssimo Meu Tio Matou Um Cara. E lá
fora Scorsese, que um dia foi contestador (Caminhos Perigosos,
Taxi Driver), acaba de lançar uma biografia ao que
tudo indica chapa branca de Howard Hughes (O Aviador),
que deve chegar mês que vem ao Brasil - a começar tendo
Leonardo DiCaprio no papel principal. Será que o filme vai
revelar que o milionário americano era racista e anti-semita?
Pelo nome, vai apenas tratá-lo como um herói, visionário
e bla-bla-bla. E nem preciso lembrar que em maio estréia
o terceiro episódio de Star Wars, para jogar toda
a saga na lata de lixo.
Falando
em biografia chapa branca, alguém aí já leu
o maravilhoso livro do Pedro Bial sobre o Roberto Marinho? Não?
Ah... Deixa quieto. Da máquina de escrever para o palco do
Big Brother é um caminho curto, né? Eu também
não li, é que o livro deve ser realmente... maravilhoso.
Vamos
falar de coisas "mais sérias". Esta semana, o presidente
Bush Júnior vai ser empossado para continuar seu belo trabalho
à frente da nação mais poderosa do mundo. Serão
mais quatro anos de muita arrogância, prepotência e
gastança, com o déficit público americano atingindo
as nuvens. Isso, sem mencionar as restrições às
liberdades individuais, que tendem a aumentar, na nação
que é a mãe da liberdade e da democracia contemporânea.
E o
Iraque? Começa o ano na mais completa anarquia, com os Estados
Unidos claramente propensos a abandonar o país à própria
sorte - o que significa que vem por aí uma sangrenta e devastadora
guerra civil. A situação atual já é
complicadíssima, e os americanos não estão
dando conta de botar ordem na casa. Solução? Fugir
como covardes. A reconstrução do país e a produção
do petróleo estão inviabilizadas pela ação
dos inúmeros grupos de resistência à ocupação
americana, e o que era pra ser uma mina de ouro, ops, de petróleo
para as empresas ianques, se tornou uma tremenda dor de cabeça
para os republicanos - e só não custou a reeleição
de Bush (ou eleição, depende do ponto de vista...)
porque seu oponente era um bocó que não deveria nem
mesmo ser levado a sério.
Em
2005, parece que o Afeganistão vai bater um novo recorde
na produção de ópio. E as eleições
(pra inglês ver) legitimaram um governo que não manda
para além da capital do país. Como todo mundo já
esqueceu do Bin Laden (pelo menos até que ele volte a aprontar
alguma), por tabela se esqueceram daquele fim de mundo, e de sua
população pobre, doente, faminta e mutilada por anos
e anos de guerra. O Afeganistão está retalhado e dividido
entre vários "Senhores da Guerra", que mantém
seu poder graças à venda de drogas. Grosso modo, é
uma estrutura de poder feudal em pleno século 21.
Na
Europa, a direita avança, Berlusconi torna a Itália
motivo de chacota, Le Pen na França fala bem dos nazistas
e torcedores espanhóis entoam gritos racistas. Na Europa
do Leste, aumenta o tráfico de mulheres, milhares são
forçadas a serem escravas sexuais e se prostituem em diversos
países "civilizados". A opinião pública
ignora o problema. Na Rússia, a corrupção impede
que a polícia e as autoridades tomem qualquer atitude a respeito.
Talvez nunca tantas pessoas ficaram tão ricas a custa de
tanto sofrimento para tantas outras pessoas.
Enquanto
isso, o ano começa com o governo brasileiro seguindo a mesma
política econômica que nos levará a lugar nenhum
após um ano de crescimento econômico "acasional"
- que não tem nada de sustentável. Mantendo essa política
de juros, fica claro que este governo não tem um projeto
sério e realista de desenvolvimento para o Brasil. Governa
com aquele jeitinho brasileiro de empurrar os problemas com a barriga,
adiar decisões realmente importantes, ignorar as nossas estruturas
políticas arcaicas.
2005
começa sob os escombros da enorme tragédia que foi
o maremoto na Ásia e o ser humano continua vivendo da mesma
forma que antes... Cenários desoladores, realidades sem esperança,
becos sem saída. Pior que a catástrofe da natureza,
é a impassibilidade humana. Bem, eu acho que, pelo menos
para a maioria absoluta da humanidade, 2005 não será
um ano rock.
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