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Beagá, 17 de janeiro de 2005 d.C.
 
2005
Por Cajabis Cannabis
 

2005 vai ser um ano rock? Sei lá. Não me parece que estão acontecendo tantas coisas relevantes assim no cenário da música ou mesmo da cultura. É complicado encontrar alguma real "novidade" quando o que se vê por aí são bandas tentando ser o Radiohead do novo milênio, enquanto que outras se arrastam como brontossauros teimosos em não se extingüirem. O Libertines tem sido nos últimos meses o que o Strokes foi há pouco tempo, e logo logo também será superado.

E no cinema? Bem, no caso do cinema nacional o ano já começou mal, com o competente Jorge Furtado metendo o pé na jaca com o fraquíssimo Meu Tio Matou Um Cara. E lá fora Scorsese, que um dia foi contestador (Caminhos Perigosos, Taxi Driver), acaba de lançar uma biografia ao que tudo indica chapa branca de Howard Hughes (O Aviador), que deve chegar mês que vem ao Brasil - a começar tendo Leonardo DiCaprio no papel principal. Será que o filme vai revelar que o milionário americano era racista e anti-semita? Pelo nome, vai apenas tratá-lo como um herói, visionário e bla-bla-bla. E nem preciso lembrar que em maio estréia o terceiro episódio de Star Wars, para jogar toda a saga na lata de lixo.

Falando em biografia chapa branca, alguém aí já leu o maravilhoso livro do Pedro Bial sobre o Roberto Marinho? Não? Ah... Deixa quieto. Da máquina de escrever para o palco do Big Brother é um caminho curto, né? Eu também não li, é que o livro deve ser realmente... maravilhoso.

Vamos falar de coisas "mais sérias". Esta semana, o presidente Bush Júnior vai ser empossado para continuar seu belo trabalho à frente da nação mais poderosa do mundo. Serão mais quatro anos de muita arrogância, prepotência e gastança, com o déficit público americano atingindo as nuvens. Isso, sem mencionar as restrições às liberdades individuais, que tendem a aumentar, na nação que é a mãe da liberdade e da democracia contemporânea.

E o Iraque? Começa o ano na mais completa anarquia, com os Estados Unidos claramente propensos a abandonar o país à própria sorte - o que significa que vem por aí uma sangrenta e devastadora guerra civil. A situação atual já é complicadíssima, e os americanos não estão dando conta de botar ordem na casa. Solução? Fugir como covardes. A reconstrução do país e a produção do petróleo estão inviabilizadas pela ação dos inúmeros grupos de resistência à ocupação americana, e o que era pra ser uma mina de ouro, ops, de petróleo para as empresas ianques, se tornou uma tremenda dor de cabeça para os republicanos - e só não custou a reeleição de Bush (ou eleição, depende do ponto de vista...) porque seu oponente era um bocó que não deveria nem mesmo ser levado a sério.

Em 2005, parece que o Afeganistão vai bater um novo recorde na produção de ópio. E as eleições (pra inglês ver) legitimaram um governo que não manda para além da capital do país. Como todo mundo já esqueceu do Bin Laden (pelo menos até que ele volte a aprontar alguma), por tabela se esqueceram daquele fim de mundo, e de sua população pobre, doente, faminta e mutilada por anos e anos de guerra. O Afeganistão está retalhado e dividido entre vários "Senhores da Guerra", que mantém seu poder graças à venda de drogas. Grosso modo, é uma estrutura de poder feudal em pleno século 21.

Na Europa, a direita avança, Berlusconi torna a Itália motivo de chacota, Le Pen na França fala bem dos nazistas e torcedores espanhóis entoam gritos racistas. Na Europa do Leste, aumenta o tráfico de mulheres, milhares são forçadas a serem escravas sexuais e se prostituem em diversos países "civilizados". A opinião pública ignora o problema. Na Rússia, a corrupção impede que a polícia e as autoridades tomem qualquer atitude a respeito. Talvez nunca tantas pessoas ficaram tão ricas a custa de tanto sofrimento para tantas outras pessoas.

Enquanto isso, o ano começa com o governo brasileiro seguindo a mesma política econômica que nos levará a lugar nenhum após um ano de crescimento econômico "acasional" - que não tem nada de sustentável. Mantendo essa política de juros, fica claro que este governo não tem um projeto sério e realista de desenvolvimento para o Brasil. Governa com aquele jeitinho brasileiro de empurrar os problemas com a barriga, adiar decisões realmente importantes, ignorar as nossas estruturas políticas arcaicas.

2005 começa sob os escombros da enorme tragédia que foi o maremoto na Ásia e o ser humano continua vivendo da mesma forma que antes... Cenários desoladores, realidades sem esperança, becos sem saída. Pior que a catástrofe da natureza, é a impassibilidade humana. Bem, eu acho que, pelo menos para a maioria absoluta da humanidade, 2005 não será um ano rock.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, psicólogo, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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