| Eu
odeio reveillon. Pra mim, não faz o menor
sentido fazer festa pelo simples motivo de que a Terra completou
mais um giro em torno do sol. Não sei se é porque
estou ficando cada vez mais cri-cri, mas fico meio besta com a
humanidade em peso comemorando não sei o quê, a passagem
de mais um ano, explodindo toneladas de fogos de artifício,
todo mundo rindo à beça igual retardados, como se
isso fosse motivo para comemorar alguma coisa - ainda mais nesta
passagem de ano, quando poucos dias antes tantos milhares de pessoas
haviam morrido vitimadas por um terrível maremoto. Ok, vá lá, talvez
as pessoas celebrem o singelo fato de estarem vivas após
mais um estafante giro de 365 dias de nosso planetinha - ôpa,
366, 2004 foi ano bissexto. Idiota mesmo é o carnaval, mas
deixa quieto.
O que acho mais engraçado nessa coisa de Feliz
Ano Novo e tal são as famosas resoluções, ou seja,
o que muitas pessoas determinam a si próprias o que querem
fazer, quais seus projetos e ações, no ano que se
inicia. É um tal de "esse ano eu vou perder peso", "esse
ano vou arranjar emprego", "esse ano vou ganhar dinheiro", "esse
ano vou comer aquela gostosa". E por aí vai. Todos
querem paz, saúde, arroz e feijão ou lagosta. E aí chega
a meia-noite e estouram a champanha, ou dançam freneticamente
ou enchem a cara. Ou todas essas coisas.
No dia seguinte, a ressaca do primeiro de janeiro
chega, violenta. E apaga 95% das resoluções feitas na noite anterior.
E todos voltamos a nossa vidinha de sempre. Bem, claro, muitos
saem de férias, vão pra praia ou pra qualquer lugar,
e o ano começa mesmo só depois do carnaval aqui no
Brasil. E, inexoravelmente, vamos nos esquecendo daquilo que nos
determinamos a mudar na passagem de ano.
Seria o reveillon mais uma ótima oportunidade de nos enganarmos,
nos iludirmos? Sim, porque eu vivo a minha vida idiota durante
todo o ano, mas perto da passagem de 31 de dezembro para 1º de
janeiro, tcharam! Eu tomo decisões radicais que vão
mudar minha vida para sempre. E quiçá o universo
inteiro, como diria Fernando Pessoa. Num momento de êxtase,
eu determino que vou mudar nisso, nisso e naquilo. E me esqueço
do óbvio: as pessoas nunca mudam. Elas podem melhorar ou
piorar - o que, cá entre nós, já é muita
coisa.
E "melhorar" dá uma idéia diferente de "mudar".
Vamos analisar, por exemplo, a resolução de uma mocinha
meio gorducha, que anseia por um corpo, digamos, mais conivente
com a estética imposta às mulheres pela mídia
em geral: "Eu vou mudar minha alimentação e
meus hábitos e vou perder peso!" Não seria mais
racional pensar "Eu vou melhorar minha alimentação,
vou tentar ser menos sedentária"? Melhorar significa
respeitar os meus limites, ser eu mesmo, exigir de mim apenas o
que eu posso fazer. É ter humildade pra reconhecer que a
vida é feita de erros e acertos, às vezes mais erros
que acertos, e que tropeçar é oportunidade pra levantar
de novo pra cair na frente e levantar depois. As grandes mudanças
ocorrem com pequenas atitudes, que indicam uma melhora na nossa
postura com relação a nós mesmos e ao mundo
que nos cerca.
Estamos preocupados demais em mudar as coisas e
mudar a nós
mesmos, acho que seria melhor nos preocuparmos em melhorar as coisas
e melhorar as nossas atitudes. Já seria uma bela mudança,
não acham? E deveríamos fazer resoluções
todos os dias, não apenas no 1º de janeiro, como se
o dia de ano novo fosse uma data mágica só porque
tá na música mais bacana do U2. Se pensássemos "hoje
serei melhor que ontem e vou fazer menos bobagens do que fiz ontem",
teríamos uma meta concreta para atingirmos. Não é fácil,
porque exige reflexão e maturidade. E muitas pessoas estão
mais interessadas em "curtir os momentos da vida" (e
acabam empurrando-a com a barriga) do que realmente fazer alguma
coisa que seja relevante para com elas mesmas e com as outras pessoas.

Minha resolução de ano novo? Exatamente esta: tentar
me afastar desse tipo de gente. Pessoas que não acrescentam
nada a mim ou aos outros, que só servem pra fazer número
ou roubar oxigênio. Pessoas egoístas, hedonistas,
que não levam a vida a sério e acabam não
tendo respeito pela própria vida - e quem não respeita
a própria vida, não respeita a vida de mais ninguém.
Pergunto, então: pra quê me relacionar com pessoas
assim? Não, não pensem que vou me afastar de alguém
por causa de seu gosto musical (não sou o Rob Fleming...),
isso é bobagem. Simplesmente, amizade é coisa muito
séria, e devemos tomar cuidado com pessoas que não
nos fazem crescer, que não se importem realmente conosco,
pessoas medíocres das quais o mundo está entulhado.
Minha
resolução diária: procurar estar com
pessoas que realmente façam a diferença para mim
e para o mundo - e não ter vergonha de já ter me
enganado ou cometido besteiras. Afinal, conhecer uma outra pessoa é uma
tarefa muito árdua, e muitas vezes a gente se decepciona
porque esperava uma coisa e acaba encontrando outra quando nos
relacionamos com alguém. Mas, como já afirmei acima,
a vida é feita de erros e acertos...
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