q

Página principal de Nossos Colunistas
Adicione o ABACAXI ATÔMICO aos seus Favoritos. Faça do ABACAXI ATÔMICO a sua página inicial. Cadastre-se!
Mande o seu recado!
Beagá, 10 de janeiro de 2005 d.C.
 
Resoluções de ano novo
Por Cajabis Cannabis
 

Eu odeio reveillon. Pra mim, não faz o menor sentido fazer festa pelo simples motivo de que a Terra completou mais um giro em torno do sol. Não sei se é porque estou ficando cada vez mais cri-cri, mas fico meio besta com a humanidade em peso comemorando não sei o quê, a passagem de mais um ano, explodindo toneladas de fogos de artifício, todo mundo rindo à beça igual retardados, como se isso fosse motivo para comemorar alguma coisa - ainda mais nesta passagem de ano, quando poucos dias antes tantos milhares de pessoas haviam morrido vitimadas por um terrível maremoto. Ok, vá lá, talvez as pessoas celebrem o singelo fato de estarem vivas após mais um estafante giro de 365 dias de nosso planetinha - ôpa, 366, 2004 foi ano bissexto. Idiota mesmo é o carnaval, mas deixa quieto.

O que acho mais engraçado nessa coisa de Feliz Ano Novo e tal são as famosas resoluções, ou seja, o que muitas pessoas determinam a si próprias o que querem fazer, quais seus projetos e ações, no ano que se inicia. É um tal de "esse ano eu vou perder peso", "esse ano vou arranjar emprego", "esse ano vou ganhar dinheiro", "esse ano vou comer aquela gostosa". E por aí vai. Todos querem paz, saúde, arroz e feijão ou lagosta. E aí chega a meia-noite e estouram a champanha, ou dançam freneticamente ou enchem a cara. Ou todas essas coisas.

No dia seguinte, a ressaca do primeiro de janeiro chega, violenta. E apaga 95% das resoluções feitas na noite anterior. E todos voltamos a nossa vidinha de sempre. Bem, claro, muitos saem de férias, vão pra praia ou pra qualquer lugar, e o ano começa mesmo só depois do carnaval aqui no Brasil. E, inexoravelmente, vamos nos esquecendo daquilo que nos determinamos a mudar na passagem de ano.

Seria o reveillon mais uma ótima oportunidade de nos enganarmos, nos iludirmos? Sim, porque eu vivo a minha vida idiota durante todo o ano, mas perto da passagem de 31 de dezembro para 1º de janeiro, tcharam! Eu tomo decisões radicais que vão mudar minha vida para sempre. E quiçá o universo inteiro, como diria Fernando Pessoa. Num momento de êxtase, eu determino que vou mudar nisso, nisso e naquilo. E me esqueço do óbvio: as pessoas nunca mudam. Elas podem melhorar ou piorar - o que, cá entre nós, já é muita coisa.

E "melhorar" dá uma idéia diferente de "mudar". Vamos analisar, por exemplo, a resolução de uma mocinha meio gorducha, que anseia por um corpo, digamos, mais conivente com a estética imposta às mulheres pela mídia em geral: "Eu vou mudar minha alimentação e meus hábitos e vou perder peso!" Não seria mais racional pensar "Eu vou melhorar minha alimentação, vou tentar ser menos sedentária"? Melhorar significa respeitar os meus limites, ser eu mesmo, exigir de mim apenas o que eu posso fazer. É ter humildade pra reconhecer que a vida é feita de erros e acertos, às vezes mais erros que acertos, e que tropeçar é oportunidade pra levantar de novo pra cair na frente e levantar depois. As grandes mudanças ocorrem com pequenas atitudes, que indicam uma melhora na nossa postura com relação a nós mesmos e ao mundo que nos cerca.

Estamos preocupados demais em mudar as coisas e mudar a nós mesmos, acho que seria melhor nos preocuparmos em melhorar as coisas e melhorar as nossas atitudes. Já seria uma bela mudança, não acham? E deveríamos fazer resoluções todos os dias, não apenas no 1º de janeiro, como se o dia de ano novo fosse uma data mágica só porque tá na música mais bacana do U2. Se pensássemos "hoje serei melhor que ontem e vou fazer menos bobagens do que fiz ontem", teríamos uma meta concreta para atingirmos. Não é fácil, porque exige reflexão e maturidade. E muitas pessoas estão mais interessadas em "curtir os momentos da vida" (e acabam empurrando-a com a barriga) do que realmente fazer alguma coisa que seja relevante para com elas mesmas e com as outras pessoas.

Minha resolução de ano novo? Exatamente esta: tentar me afastar desse tipo de gente. Pessoas que não acrescentam nada a mim ou aos outros, que só servem pra fazer número ou roubar oxigênio. Pessoas egoístas, hedonistas, que não levam a vida a sério e acabam não tendo respeito pela própria vida - e quem não respeita a própria vida, não respeita a vida de mais ninguém. Pergunto, então: pra quê me relacionar com pessoas assim? Não, não pensem que vou me afastar de alguém por causa de seu gosto musical (não sou o Rob Fleming...), isso é bobagem. Simplesmente, amizade é coisa muito séria, e devemos tomar cuidado com pessoas que não nos fazem crescer, que não se importem realmente conosco, pessoas medíocres das quais o mundo está entulhado.

Minha resolução diária: procurar estar com pessoas que realmente façam a diferença para mim e para o mundo - e não ter vergonha de já ter me enganado ou cometido besteiras. Afinal, conhecer uma outra pessoa é uma tarefa muito árdua, e muitas vezes a gente se decepciona porque esperava uma coisa e acaba encontrando outra quando nos relacionamos com alguém. Mas, como já afirmei acima, a vida é feita de erros e acertos...

 
Cajabis Cannabis é professor de história, psicólogo, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

©Todos os direitos reservados
Melhor visualizado com Internet Explorer em 800X600

 
ÚLTIMAS MATÉRIAS
A imbecilidade virtual já tem um nome: Orkut
Os bons, os maus e os mais ou menos
Maratona cinematográfica: é o Indie 2004
Olimpíadas 2004: menos demagogia, por favor
Confusões de um governo sem rumo
Confira textos mais antigos...