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Beagá, 20 de dezembro de 2004 d.C.
 
A imbecilidade virtual já tem um nome: Orkut
Por Cajabis Cannabis
 

O Orkut é, indubitavelmente, a mais recente praga da internet. Aquilo é realmente um saco, um exagero de pessoas, comunidades, assuntos, posts e o diabo a quatro, com muita babaquice e pouca coisa realmente relevante e interessante. E você clica em uma comunidade, daí vê outras comunidades "relacionadas", vai clicando, clicando, clicando e, quando vê, já se passaram três ou quatro preciosas horas da sua vida, ou talvez até mais.

O que será que as pessoas procuram no Orkut? Afinal de contas, eu não consigo enxergar nesta... gigantesca comunidade virtual (eu nem sei definir o que é Orkut) nada além de excessos. Excesso de pessoas, excesso de informações, excesso de futilidades. São várias e várias comunidades que não têm o menor sentido em existir, com discussões totalmente irrelevantes. Está certo que algumas pessoas utilizam o Orkut para fins profissionais, você pode manter sua página com um currículo, descrever suas habilidades e pretensões ou algo parecido, daí quem sabe o Roberto Justus não estaria por coincidência navegando pelo site e daria de cara com sua página, ficaria embasbacado com toda sua experiência e capacidade profissional e te contrataria para ganhar um salário de 200 mil dólares por ano. Mas, na maioria absoluta das vezes, o que vemos no Orkut são personagens patéticos que certamente nada vão acrescentar em nossas vidas.

Isso sem falar no que há de mais grotesco, como as "simpáticas" comunidades "Eu odeio negros", "Odeio baianos", "Odeio homossexuais", de culto a Adolf Hitler e neonazistas, entre outras pérolas. É o preço que temos a pagar pela liberdade de expressão, ou seja: um bando de dementes oligofrênicos vomitando preconceitos, ódios infundados e muita porrada online, pra todos os lados. Engraçado: mesmo dentro de casa ou no cybercafé, quando nos supomos seguros da violência das ruas, somos também coagidos por mensagens preconceituosas, ameaçadoras, desagregadoras.

Será que o Orkut simplesmente leva para o virtual o que já vemos no mundo real, aquele palpável que está a nossa frente? Dá pra se pensar nisso. Hoje em dia estamos tão acostumados com o exagero, a enorme quantidade de coisas, o excesso de estímulos que nos chegam de todos os lados, e a imbecilidade institucionalizada nas pessoas que estão ao nosso redor, nas revistas, na TV, na imprensa em geral, na música e no cinema, nas artes... Então, olhando por esta ótica, o Orkut nada mais é do que a transposição da angústia que estamos vivendo aqui fora para dentro da teia cibernética. No Orkut, podemos falsear, selecionar, deletar, mentir com maior desenvoltura, pois estamos protegidos atrás de uma tela de computador.

Uma das coisas que mais me irrita no Orkut é aquela coisa ridícula de você ficar ranqueando seus amigos, como se amizade fosse algo a ser quantificado. Mais "amigos" cadastrados significam mais prestígio no site - faltou só quantificar a babaquice de quem inventou essa pérola. Quer dizer, até os sentimentos podem ser quantificados. O que interessa é a quantidade de amigos, não o que eles realmente significam pra você, a qualidade. Estamos tão cheios das coisas que a vida está cheia de um imenso vazio. Estamos tão cheios de "amigos" que são tantos que enchem o saco. Estamos tão cheios de estímulos que eles nos estimulam a não fazer nada. O Orkut passa para o mundo virtual toda a precariedade do pensamento (ou a falta de pensamento) que marca nossos dias.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, psicólogo, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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