| Pois
é, o Bush Junior ganhou mesmo a eleição. Ficamos
todos arrasados, estarrecidos, estupefactos, abalados, aborrecidos
e entristecidos.
Muitos bradaram
aos quatro ventos "ó, como isso pôde acontecer?" Pois é, aconteceu.
E agora, o Atlético está à beira de cair para a Segunda Divisão.
Ó mundo cruel.
Surpreendente
a vitória do Bush? Talvez. Se levarmos em consideração a desastrada
política econômica
desta gestão, é realmente estranho, pra dizer o mínimo. Mas para
compreender melhor, devemos nos lembrar que a classe média americana,
imediatista que só ela, não quer ou não pode enxergar a encrenca
em que os EUA estão metidos, com o dólar cada vez mais desvalorizado
e um déficit público que não pára de crescer. Sou leigo em economia,
mas vale a pena perguntar até quando os títulos públicos norte-americanos
continuarão a ser valorizados e países como Rússia, China e os
do Sudeste Asiático continuarão enchendo o buraco das contas
do governo americano. A situação é, no mínimo, muito delicada.
No
caso da Guerra ao Iraque, não é de se estranhar o apoio de grande
parte da população à intervenção americana na terrinha do Saddam.
Em primeiro lugar, o número de baixas de americanos é relativamente
pequeno.
O poderio militar dos EUA é tão superior que estraçalha, arrebenta,
sem deixar pedra sobre pedra. E sem deixar muita gente do outro
lado viva pra contar a história também - isso é importante, guerra
é guerra. Sendo assim, os americanos não estão preocupados com
o conflito em si, muito menos com as condições dos soldados que
estão lutando por lá. Afinal, salvo as exceções de praxe,
guerra é para os pobres, negros e latinos. Só se estivesse morrendo
muuuuuuuita gente, é que os grupos pacifistas conseguiriam
alguma repercussão na mídia - que, é claro, dá total apoio aos
rapazes que "lutam pela liberdade no Iraque".
E não
podemos nos esquecer da relação Iraque x Al Qaeda, uma bela forçassão
de barra patrocinada pelo governo Bush. Embora
não haja nenhuma prova de tal aliança, muitos americanos foram
induzidos pelos meios de comunicação a acreditar que havia uma
estreita ligação
entre Saddam Hussein e Osama Bin Laden. Ou seja, a Guerra no
Iraque faz parte de algo mais amplo, a guerra contra o terrorismo.
Sem
falar nas posições religiosas fundamentalistas de Bush, isso
realmente o ajudou bastante. Para um eleitorado
eminentemente
conservador,
que foi à comoção quando ficou sabendo que seu presidente, o
Bill Clinton, andou enfiando uns charutos onde não devia, um
defensor ardoroso da "família americana" na presidência é um
verdadeiro achado. Moralista e maniqueísta, o americano não foi
seduzido pelo discurso
oco
e sem carisma de um péssimo candidato democrata, John Kerry.
Daí, preferiram continuar na mesma. Mesmo com a maioria deles,
segundo pesquisas, acreditando que "o país está no rumo errado".
Contradição? Em termos.
A mensagem
das urnas foi clara: ruim com Bush, pior poderia ser com Kerry.
Ele não passa de um banana, Maria vai com as outras, antipático,
boboca, oportunista, representante de um partido que traiu as
suas convicções
liberais
e suas origens e se acovardou frente à avassaladora onda repressora
pós 11 de setembro. Qual voz democrata de expressão se levantou
contra o famigerado Patriot Act (aprovado na Câmara dos Deputados
por 357 votos
a favor e apenas 66 contra e no Senado por 98 a 1, quase unanimidade!),
uma aberração jurídica que restringe as liberdades individuais
na nação que é o berço da liberdade? Ou contra a criminosa e
vergonhosa intervenção militar no Iraque, um país
que - agora
isso está comprovado,
e pelo próprios norte-americanos - não representava ameaça alguma
aos Estados Unidos? Kerry se manteve calado. Ele
e seus colegas cordeirinhos bonzinhos disseram "amém" aos republicanos
maus
e perversos que anseiam por dominar o mundo. E os poderosos da
mídia, nem bons nem maus, mas apenas jornalistas (igualzinho
o Roberto Marinho, olha só!), fizeram o povo americano engolir
todas as justificativas para essas ações. Cadê oposição? Cadê
alternativa à política de Bush? E aí os caras de repente me lançam
um candidato e dizem que está tudo errado... Por que não falaram
isso antes, desde o início? Onde os democratas estiveram
este tempo todo? E fazendo o quê?
Você
engoliria um candidato tão patético quanto John Kerry? Provavelmente
você me responderia "tudo bem, ele não é grandes coisas mesmo,
mas tudo menos o Bush!" Não vejo assim tanta diferença. Os democratas
se transformaram
num
bando
de hipócritas incompetentes, basta lembrar que o governo democrata
anterior a Bush Junior patrocinou um grande corte de investimentos
e gastos públicos em áreas como saúde,
educação e previdência social, além de bombardear
covardemente o Sudão em agosto de 1998 - enquanto a Monica
Lewinsky explicava na justiça, com riqueza de detalhes, o boquete
que pagou pro Bill no gabinete presidencial. Não posso deixar
de mencionar que este ataque ao Sudão, que tinha como objetivo
"atingir
instalações terroristas", na verdade atingiu uma fábrica de remédios,
matando ninguém sabe quantos civis, sem falar na destruição de
grande quantidade de medicamentos num país miserável e assolado
por décadas de guerra civil. A ONU ainda tentou investigar o
incidente, apurar responsabilidades e verificar o número de vítimas,
mas vocês já devem adivinhar o que aconteceu - e até hoje não
sabemos
ao
certo
quantas
pessoas
morreram em mais um "dano colateral" provocado pela truculência
do exército americano. E no final da história, o Bill Clinton
é que é um sujeito legal, porquê ele é cool e
toca sax. Então tá.
Então,
galerinha bonita, não fiquem vocês assim tão tristes, raivosos,
ensandecidos pela vitória de George W. Bush. Agradeçam sim ao
Papai do Céu
por vocês serem brasileiros, apesar de todos os pesares. É verdade
que estamos todos no mesmo barco, essa humanidade maluca, e o
pior é que o Tio Sam é o comandante. Mas pelo menos, se o barco
afundar, não vai ser assim tão nossa culpa. Vamos cuidar então
da nossa vidinha, certo? Afinal de contas, o Lula já tem feito
muitas besteiras por aqui mesmo, e isso já é mais do quê suficiente
para nos preocuparmos. |