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Beagá, 13 de dezembro de 2004 d.C.
 
Os bons, os maus e os mais ou menos
Por Cajabis Cannabis
 

Pois é, o Bush Junior ganhou mesmo a eleição. Ficamos todos arrasados, estarrecidos, estupefactos, abalados, aborrecidos e entristecidos. Muitos bradaram aos quatro ventos "ó, como isso pôde acontecer?" Pois é, aconteceu. E agora, o Atlético está à beira de cair para a Segunda Divisão. Ó mundo cruel.

Surpreendente a vitória do Bush? Talvez. Se levarmos em consideração a desastrada política econômica desta gestão, é realmente estranho, pra dizer o mínimo. Mas para compreender melhor, devemos nos lembrar que a classe média americana, imediatista que só ela, não quer ou não pode enxergar a encrenca em que os EUA estão metidos, com o dólar cada vez mais desvalorizado e um déficit público que não pára de crescer. Sou leigo em economia, mas vale a pena perguntar até quando os títulos públicos norte-americanos continuarão a ser valorizados e países como Rússia, China e os do Sudeste Asiático continuarão enchendo o buraco das contas do governo americano. A situação é, no mínimo, muito delicada.

No caso da Guerra ao Iraque, não é de se estranhar o apoio de grande parte da população à intervenção americana na terrinha do Saddam. Em primeiro lugar, o número de baixas de americanos é relativamente pequeno. O poderio militar dos EUA é tão superior que estraçalha, arrebenta, sem deixar pedra sobre pedra. E sem deixar muita gente do outro lado viva pra contar a história também - isso é importante, guerra é guerra. Sendo assim, os americanos não estão preocupados com o conflito em si, muito menos com as condições dos soldados que estão lutando por lá. Afinal, salvo as exceções de praxe, guerra é para os pobres, negros e latinos. Só se estivesse morrendo muuuuuuuita gente, é que os grupos pacifistas conseguiriam alguma repercussão na mídia - que, é claro, dá total apoio aos rapazes que "lutam pela liberdade no Iraque".

E não podemos nos esquecer da relação Iraque x Al Qaeda, uma bela forçassão de barra patrocinada pelo governo Bush. Embora não haja nenhuma prova de tal aliança, muitos americanos foram induzidos pelos meios de comunicação a acreditar que havia uma estreita ligação entre Saddam Hussein e Osama Bin Laden. Ou seja, a Guerra no Iraque faz parte de algo mais amplo, a guerra contra o terrorismo.

Sem falar nas posições religiosas fundamentalistas de Bush, isso realmente o ajudou bastante. Para um eleitorado eminentemente conservador, que foi à comoção quando ficou sabendo que seu presidente, o Bill Clinton, andou enfiando uns charutos onde não devia, um defensor ardoroso da "família americana" na presidência é um verdadeiro achado. Moralista e maniqueísta, o americano não foi seduzido pelo discurso oco e sem carisma de um péssimo candidato democrata, John Kerry. Daí, preferiram continuar na mesma. Mesmo com a maioria deles, segundo pesquisas, acreditando que "o país está no rumo errado". Contradição? Em termos.

A mensagem das urnas foi clara: ruim com Bush, pior poderia ser com Kerry. Ele não passa de um banana, Maria vai com as outras, antipático, boboca, oportunista, representante de um partido que traiu as suas convicções liberais e suas origens e se acovardou frente à avassaladora onda repressora pós 11 de setembro. Qual voz democrata de expressão se levantou contra o famigerado Patriot Act (aprovado na Câmara dos Deputados por 357 votos a favor e apenas 66 contra e no Senado por 98 a 1, quase unanimidade!), uma aberração jurídica que restringe as liberdades individuais na nação que é o berço da liberdade? Ou contra a criminosa e vergonhosa intervenção militar no Iraque, um país que - agora isso está comprovado, e pelo próprios norte-americanos - não representava ameaça alguma aos Estados Unidos? Kerry se manteve calado. Ele e seus colegas cordeirinhos bonzinhos disseram "amém" aos republicanos maus e perversos que anseiam por dominar o mundo. E os poderosos da mídia, nem bons nem maus, mas apenas jornalistas (igualzinho o Roberto Marinho, olha só!), fizeram o povo americano engolir todas as justificativas para essas ações. Cadê oposição? Cadê alternativa à política de Bush? E aí os caras de repente me lançam um candidato e dizem que está tudo errado... Por que não falaram isso antes, desde o início? Onde os democratas estiveram este tempo todo? E fazendo o quê?

Você engoliria um candidato tão patético quanto John Kerry? Provavelmente você me responderia "tudo bem, ele não é grandes coisas mesmo, mas tudo menos o Bush!" Não vejo assim tanta diferença. Os democratas se transformaram num bando de hipócritas incompetentes, basta lembrar que o governo democrata anterior a Bush Junior patrocinou um grande corte de investimentos e gastos públicos em áreas como saúde, educação e previdência social, além de bombardear covardemente o Sudão em agosto de 1998 - enquanto a Monica Lewinsky explicava na justiça, com riqueza de detalhes, o boquete que pagou pro Bill no gabinete presidencial. Não posso deixar de mencionar que este ataque ao Sudão, que tinha como objetivo "atingir instalações terroristas", na verdade atingiu uma fábrica de remédios, matando ninguém sabe quantos civis, sem falar na destruição de grande quantidade de medicamentos num país miserável e assolado por décadas de guerra civil. A ONU ainda tentou investigar o incidente, apurar responsabilidades e verificar o número de vítimas, mas vocês já devem adivinhar o que aconteceu - e até hoje não sabemos ao certo quantas pessoas morreram em mais um "dano colateral" provocado pela truculência do exército americano. E no final da história, o Bill Clinton é que é um sujeito legal, porquê ele é cool e toca sax. Então tá.

Então, galerinha bonita, não fiquem vocês assim tão tristes, raivosos, ensandecidos pela vitória de George W. Bush. Agradeçam sim ao Papai do Céu por vocês serem brasileiros, apesar de todos os pesares. É verdade que estamos todos no mesmo barco, essa humanidade maluca, e o pior é que o Tio Sam é o comandante. Mas pelo menos, se o barco afundar, não vai ser assim tão nossa culpa. Vamos cuidar então da nossa vidinha, certo? Afinal de contas, o Lula já tem feito muitas besteiras por aqui mesmo, e isso já é mais do quê suficiente para nos preocuparmos.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, psicólogo, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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