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Beagá, 20 de setembro de 2004 d.C.
 
Maratona cinematográfica: é o Indie 2004
Por Cajabis Cannabis
 

Entre os dias 08 e 16 de setembro aconteceu aqui na capital do pão de queijo a quarta edição do Indie - Mostra de Cinema Mundial, com a exibição de 113 filmes no Usina Unibanco de Cinema e no Savassi Cineclube, em sessões gratuitas. Como no ano passado, estou aqui fazendo a minha resenha sobre os filmes que assisti - dessa vez, quatro a mais que no ano passado. O evento é realizado pela Zeta Filmes - e o agradecimento deste ano vai para a Daniella Azzi, que me descolou algumas cortesias para que eu pudesse acompanhar o festival com uma maior abrangência, digamos.

Até que as filas deste ano estiveram menores que as do ano passado. Foi tudo mais tranqüilo na hora de pegar os ingressos, os mais concorridos eram os da retrospectiva do Pedro Almodóvar. Não tem jeito, o espanhol é realmente o queridinho dos cabeças. Tive o prazer de conversar com o diretor Carlos Reichenbach, após a exibição de Garotas do ABC (ele esteve presente na exibição), um sujeito extremamente acessível, muito simpático e cortês. Tomara que o filme faça sucesso.

E as salas do Usina (especialmente a 2) continuam horríveis. Entra ano, sai ano... Bem, diz o ditado que a cavalo dado não se olham os dentes, então deixa quieto. Anyway, vamos todos louvar a iniciativa da Zeta Filmes e torcer para que o Indie se consolide ainda mais como evento de grande importância para o cinema em Berizonte. Foram dias muito agradáveis, vi ótimos filmes e o festival se encerra com um gostinho agradável de "ano que vem tem mais"... Tomara que seja ainda melhor.

Agora, pequeninos comentários sobre os filmes que assisti na mostra. Lembrando as tradicionais cotações...

Bonequinho indo embora do cinema
Bonequinho dormindo
Bonequinho assistindo o filme
Bonequinho aplaudindo
Bonequinho aplaudindo de pé

Quarta, 08/09

Histórias Mínimas, de Carlos Sorin (Argentina, 2002)
Belo filme argentino, entrou esta semana em cartaz aqui na roça. São três histórias de três humildes personagens que estão viajando pela Patagônia. Histórias simples, sentimentos sublimes. Extremamente delicado, sabe explorar muito bem situações que poderiam se tornar jocosas e ridículas. Muito bem realizado, mostra a força do cinema argentino.

Cores dos Cegos, de Huo Jianqi (China, 1998)
Filme fraquinho, fraquinho sobre uma moça cega que é descoberta por um treinador de atletas deficientes. Claro que ele se apaixona por ela, o problema é que ele tem uma namorada pra lá de ciumenta. E tem mais dois carinhas na história que estão muito interessados na garota - poderosa a menina, hein! Pois é. Às vezes assumindo um tom meio de documentário, o filme conta com participações de atletas portadores de deficiência chineses, o que não deixa de ser uma curiosidade. Mas a historinha é bem sem graça.

Maus Hábitos, de Pedro Almodóvar (Espanha, 1983)
Almodóvar em início de carreira (este é seu terceiro longa) já mostra muita irreverência. E atrevimento. Falta-lhe a maturidade, que vai adquirir certamente mais tarde. O melhor do filme é a freira malucona que toma umas bolinhas e fica completamente psicodélica.

O Show Não Pode Parar, de Nanette Burnstein e Brett Morgan (EUA, 2002)
Excelente pedida para cinéfilos, este documentário conta a história de Robert Evans, um dos produtores mais poderosos do cinema americano nos anos 60 e 70. Pra quem não sabe, ele foi o produtor de O Poderoso Chefão, O Bebê de Rosemary, Chinatown e Love Story. Só os mais importantes filmes deste período, nada mais. Está disponível em DVD, se você é fã da sétima arte, não pode perder de jeito nenhum. E mesmo que você não conheça muito sobre cinema mas goste de documentários, é uma boa pedida, afinal a vida tumultuada do sujeito já daria um ótimo filme.

Quinta, 09/09

Meninos de Deus, de Peter Care (EUA, 2002)
Absurdamente não entrou em circuito comercial aqui na roça, este filmaço produzido pela Jodie Foster (e ela está no elenco, no papel da freira carrasca) é indispensável para fãs de quadrinhos em geral (atenção, Katchiannya Cunha!). São as aventuras de quatro garotos que estudam em uma tradicional escola do interior e passam o tempo desenhando, bebendo, fazendo bagunça pela cidade. O filme lembra as comédias e filmes para adolescentes dos anos 80, mas toca em assuntos muito sérios, como incesto, por exemplo. E não tem final feliz. Vale uma conferida.

Falando de Sexo, de John McNaughton (EUA, 2001)
Curioso filme com elenco interessante: James Spader, Melora Walters e Bill Murray. É uma comédia às vezes engraçada, às vezes não, com uma historinha bem inverossímel. Os psicólogos vão gostar, vá lá. Spader faz um terapeuta especialista em depressão que se envolve com uma paciente indicada por uma colega que trabalha com terapias para casais. A psicóloga descobre, fica irada e induz a paciente a abrir um processo contra ele. E vira tudo uma confusão dos diabos. As cenas do depoimento da paciente para o processo são hilárias, o resto do filme é o tradicional "mais ou menos"...

Osama, de Siddiq Barmak (Afeganistão, Japão, Irlanda, 2003)
Ainda inédito aqui na roça, é o primeiro filme feito no Afeganistão pós-Taleban. Contando com atores excepcionais (todos amadores!) e um orçamento ínfimo (cerca de 50 mil dólares), é muito bem realizado, sem dúvida. Tem seus méritos e a atriz que faz a menina (o nome dela é Marina Golbahari) é realmente extraordinária. Mas eu, pessoalmente, esperava mais. A história da garota que tem que se fingir de menino para poder trabalhar e ajudar a mãe e a avó é bastante similar a Baran, sem o mesmo resultado (além de o roteiro, ao meu ver, ter um "furo" que compromete uma resolução satisfatória para a trama). De qualquer maneira, é um filme corajoso, que tem grandes momentos ao mostrar a violência das ações opressoras do nefasto Taleban (vide a seqüência dos julgamentos sumários) e por isso merece ser visto.

Sexta, 10/09

Respiro, de Emanuele Crialese (Itália, França, 2001)
Filme meio legal e meio besta. A bela personagem principal do filme é meio pirada, e fica aprontando das suas em uma pequena vila na Sicília. E quem agüenta o rojão é seu marido, pescador, e os três filhos. Filme bonito de se ver, fácil de se esquecer - a não ser a bela seqüência final, que também não tem muita serventia, mas plasticamente é lindíssima. Ainda não estreou por aqui.

Carteiros das Montanhas, de Huo Jianqi (China, 1998)
Ah... Bem, este filme é daqueles "bonito, mas..." É bonito, mas é lento... lento... lento... Conta a história de um carteiro novato de uma aldeia nos confins da China que está substituindo seu pai na profissão e faz sua primeira viagem a serviço acompanhado por ele. Fazendo sua última viagem antes de se aposentar, o pai tenta passar ao filho a sua experiência após anos nesta atividade. Vale pelas belíssimas paisagens - e mesmo a história não deixa de ser bonita.

O Amigo Americano, de Wim Wenders (Alemanha Oc., França, 1977)
Filme pra lá de chato do Wim Wenders, confusa adaptação do livro Ripley´s Game, de Patricia Highsmith - o personagem é o Tom Ripley, protagonizado pelo Dennis Hopper. O filme é chatíssimo, sem ação, com personagens excessivamente frios e uma direção pouco inspirada. Uma pequena bomba.

Sombra Mágica, de Ann Hu (China, 2000)
Uma singela homenagem aos primórdios do cinema chinês, misturando fatos reais e ficção. Uma bela história num filme divertido. Tem algumas imagens reais de arquivo de filmes da virada do século 19 para o 20, o que o torna ainda mais interessante.

Sábado, 11/09

Wilco - I am Triying To Break Your Heart, de Sam Jones (EUA, 2001)
O grande momento do festival - pra mim, claro. Eu sou um grande fã do Wilco (que novidade) e estava ansioso para assistir este filme, inédito no Brasil - nem foi lançado em vídeo, DVD, nada... Valeu a pena. Indispensável para os fãs, é um bom documentário que mostra os bastidores da gravação do quarto disco da banda, Yankee Hotel Foxtrot, os desentendimentos que levaram à saída de Jay Bennett do grupo e os problemas com a gravadora Reprise, que se recusou a lançar o álbum. E não posso esquecer, há também trechos de shows (o Wilco é uma banda que surpreende ao vivo). Para quem gosta de boa música e não conhece o trabalho dos caras, pode ser válido. Afinal de contas, o filme é tudo, menos chato.

Domingo, 12/09

O Céu de Lisboa, de Wim Wenders (EUA, 2001)
Definitivamente, eu joguei pedra na cruz. Horripilante filme com a participação do Madredeus... Argh... É chato pra caramba. A Teresa Salgueiro é muito simpática e muito charmosa. Mas Madredeus é um porre. E a história simplesmente não existe... Tenta ser ficção, documentário... Muito bla bla bla, papo cabeça sem pé nem cabeça. Uma bomba portuguesa, com certeza. Depois dessa, tinha mais era que voltar pra casa e ir dormir...

Segunda, 13/09

Verão Negro - Falsa Acusação, de Kei Kumai (Japão, 2001)
Filme japonês que retrata a história de um homem acusado injustamente de provocar um vazamento de gás sarin na cidade de Matsumoto, que deixou sete pessoas mortas. As investigações da polícia são capciosas e a mídia acaba embarcando no sensacionalismo. Filme com narrativa envolvente, que questiona os métodos dos jornalistas e da cobertura televisiva desses fatos. Obrigatório para os profissionais de imprensa - lembram-se do escândalo da Escola de Base, em São Paulo?

A Lei do Desejo, de Pedro Almodóvar (Espanha, 1987)
Meia-boca. Quanto mais assisto a filmes seus, mais me convenço de que Almodóvar é, realmente, o diretor mais superestimado da atualidade. Os cabeças de plantão deliram e fazem fila pra ver (não necessariamente nessa ordem). Como curiosidade, tem o Antonio Banderas em cenas pra lá de comprometedoras. Ele é um rapaz que se apaixona loucamente por um escritor que não quer saber de compromissos. Sua irmã, Tina, é um transexual e é o personagem que está no meio do conflito entre os dois. Assistível, às vezes engraçado, às vezes dispensável.

Stand-By, de Roch Stephanik (França, 2000)
Filme francês cuja história se passa quase que inteiramente em um aeroporto. A trama é a seguinte: um casal aguarda o embarque para Buenos Aires, para onde eles deverão se mudar. Mas eis que, surpreendentemente, o marido dá um belo fora na esposa, Helene, justamente ali, na lanchonete do aeroporto, antes do avião decolar. Ele então viaja sozinho e deixa a mulher em estado de choque. Ela pira e não consegue sair do aeroporto, passa a viver lá mesmo - há uma certa semelhança com O Terminal, do Spielberg. Tem uma trama pouco promissora, pega no tranco aos poucos... Mas é surpreendente, inteligente, muito bem escrito - a construção da personalidade dos personagens é muito bem feita. Imperdível, excepcional. Será que um dia entra em cartaz no Brasil? Acho que não.

Minoes, de Vincent Bal (Holanda, 2001)
Uma fábula, uma historinha bobinha e engraçada, para assistir com crianças. Aliás, o filme é infantil... Só não avisam na sinopse. Bem, a história é de uma gata que bebe um líquido misterioso e se transforma em mulher. Muito gata, aliás. Tem o mocinho pateta (claro que a gata vai gostar do mocinho, né), a menina esperta e o vilão malvado. A despeito das limitações de seu roteiro, é um divertimento delicioso, pra sair do cinema feliz.

Quarta, 15/09

Num Céu Azul Escuro, de Jan Sverák (República Tcheca, Inglaterra, Itália, 2001)
Espetacular filme de guerra da República Tcheca. É um filme sobre a 2ª Guerra envolvente, cativante, com momentos engraçados, tristes, tocantes. Tem de tudo, ação, romance, drama... E um roteiro impecável. Ainda por cima, resgata uma história pouco lembrada: os pilotos da Força Aérea da Tchecoslováquia que fogem para a Inglaterra quando da invasão de seu país pela Alemanha de Hitler. Com a eclosão da guerra, eles lutarão ao lado dos aliados. Pra quem gosta dessa parte da história, é bom lembrar que a visão que os europeus têm da guerra é completamente diferente da visão norte-americana, a qual estamos mais acostumados graças a superproduções como O Resgate do Soldado Ryan. E isso torna este filme ainda mais obrigatório.

O Quarto dos Oficiais, de François Dupeyron (França, 2001)
Drama cuja história se desenrola na época da 1ª Guerra Mundial. Logo no princípio da guerra, o tenente Adrien tem o rosto completamente dilacerado pela explosão de uma bomba. O filme, que retrata toda a trajetória de seu terrível sofrimento, é um manifesto claro contra todas as guerras. As questões existenciais do personagem e de seus companheiros de hospital (também mutilados ou deformados) ganham maior dramaticidade e ainda mais força. Embora seja talvez um pouco longo demais e às vezes não consiga manter o ritmo, é um belo filme, tocante, sem nunca apelar para o sentimentalismo barato e está longe de virar uma novela mexicana - o que aconteceria certamente se o Jayme Monjardim fosse o diretor do filme, por exemplo.

Hotel de 1 Milhão de Dólares, de Wim Wenders
(Alemanha, Inglaterra, EUA, 2000)
Co-produzido e estrelado por Mel Gibson. Este filme até que é interessante, tem seus bons momentos e uma bela seqüência final, mas são tantas viagens e tanto papo furado que fica meio difícil acompanhá-lo. O problema é que os personagens são todos pirados, o diretor é pirado, mas quem escreveu a história, o Bono Vox (sim, ele mesmo), de pirado não tem nada. Pior ainda, fica fazendo de conta que é pirado. Não dá muito certo, né?

Quinta, 16/09

Kedma, de Amos Gitai (França, Israel, Itália, 2002)
Não chegou a estrear aqui na roça - e, pelo visto, nem será exibido. O filme trata do violento parto do Estado de Israel, as contradições entre o ideal e a esperança sionista e a dura e trágica realidade vivida por árabes e israelenses. Não precisava ser tão lento: o estilo do diretor quase irrita, com planos seqüência longos, longos mesmo, sem cortes - fazer a montagem do filme é que deve ter sido uma baba. Chega a ser até meio teatral, o filme pode ser dividido em atos. Mas os discursos de dois personagens do filme (um velho árabe e o recém chegado israelense) valem, além das boas cenas de combate, muito bem filmadas. Bom filme.

Suspiro, de Feng Xiaogang (China, 2000)
Drama familiar chinês perfeito, uma aula de cinema. Simples e direto, conta a história de um escritor de novelas casado, que vive uma vida confortável e tranqüila com a esposa e a filha pequena. Um belo dia, aparece uma outra na jogada... É uma moça (linda), bem mais jovem que sua esposa, contratada pelo seu patrão para ser sua secretária. O envolvimento entre os dois torna-se inevitável. Mas o filme sai do que seria o lugar comum e mostra o conflito de consciência dos personagens, o sofrimento que as suas escolhas podem acarretar a eles, evitando maniqueísmos, soluções fáceis e julgamentos moralistas. Lírico e delicado, se tiver a oportunidade de assisti-lo, não perca de jeito nenhum.

Brother, de Takeshi Kitano
(EUA, Inglaterra, Japão, 2000)
A visão oriental da máfia - ao invés de ser o Don Corleone comendo spaghetti e bebendo vinho enquanto manda encher o inimigo de chumbo, é um cara da Yakuza comendo sushi e mandando um subalterno vacilão cortar fora o mindinho. Muito tiro e muito clichê num filme de altos e baixos. Mas entre tantos mortos, feridos e mutilados, valeu. E o diretor Takeshi Kitano (que depois faria o superestimado Dolls) aqui encabeça o elenco - e está impagável como o gângster caladão que foge do Japão para Los Angeles. Se você curte o gênero, pode arriscar.

Garotas do ABC, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 2004)
A região operária do ABC paulista é retratada aqui, através principalmente de um grupo de operárias de uma tecelagem. É uma produção que tem seus problemas: interpretações irregulares, personagens estereotipados e pouco desenvolvidos - mas, pelo menos no caso dos vilões, isso funciona, já que o objetivo do diretor (e nisso ele acerta em cheio) é ridiculariza-los ao máximo, rotulando-os. O filme se torna bastante interessante ao abordar a xenofobia através do bando de neo-integralistas chefiados pelo advogado (boa sacada!) Salesiano, um cara que só sabe recitar discursos do Plínio Salgado e ouvir Wagner - pra quem não sabe, o compositor favorito de Hitler. As situações forçadas e inverossímeis (como a briga no Clube Democrático) mostram que o roteiro é claudicante. O filme às vezes derrapa, mas cumpre o seu papel e tem algo que a maioria dos filmes brasileiros atuais não tem: honestidade. E o Selton Mello realmente é o grande destaque do elenco, é um dos melhores atores do cinema brasileiro atual. É um filme que merece ser visto e precisa ser analisado de forma mais aprofundada, com certeza. De qualquer maneira, encerramento digno que valorizou (e muito) essa mostra.

Site oficial: www.zetafilmes.com.br/indie.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, psicólogo, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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