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Uma
guerra é motivada principalmente por fatores econômicos - ainda
que as interpretações dos fatos pelos protagonistas do conflito
possam estar equivocadas. O político se guia pelo econômico, o poder
está relacionado com o controle e a posse dos meios de produção
de riquezas. Claro que há uma série de justificativas subjacentes,
principalmente relativas à religião, mas diferenças de pensamento
servem bem mais como um estopim para a deflagração de conflitos
do que propriamente motivos cruciais para a eclosão de um confronto
de maiores proporções.
Não
estou dizendo que somente há interesses econômicos nas guerras,
mas eles são primordiais e, ao meu ver, são os mais importantes.
Mesmo em guerras consideradas como "religiosas", como as Cruzadas
e as guerras entre católicos e protestantes dos séculos XVI e XVII,
os elementos econômicos e políticos se sobressaem. Normalmente,
é curioso que muitas pessoas de boa cultura porém leigas no estudo
da história coloquem a culpa desses conflitos principalmente na
religião, o bode expiatório preferido de pensadores que não têm
o embasamento necessário para proferir tais afirmativas, como Nietzche
e Saramago.
Se
as Cruzadas são conflitos "entre cristãos e mulçumanos", como se
convencionou acreditar, como explicar que, durante cerca de trezentos
anos antes que elas acontecessem, as relações entre os seguidores
de Cristo e os de Maomé fossem relativamente tranqüilas, e os tempos
de convivência pacífica entre eles foram bem mais duradouros do
que as épocas de conflitos? Basta ver o exemplo da Penísula Ibérica,
onde durante muito tempo judeus, cristãos e muçulmanos, sob domínio
mouro (islã), conviviam em relativa harmonia.
Os
conflitos religiosos que varreram a Europa nos séculos XVI e XVII
se dão entre facções e governos que apoiavam ou se posicionaram
contra a Igreja Católica - e essa postura foi determinada por interesses
políticos e econômicos. Para alguns, uma aliança com o poder católico
era conveninte; para outros, um distanciamento de Roma e do papado
era mais do que desejável. Não foi por acaso que os países geograficamente
mais próximos da Itália, onde fica a sede da Igreja Católica, permaneceram
católicos; e os países do norte da Europa, que sempre estiveram
mais distantes do controle da Igreja, estabeleceram igrejas nacionais,
sob estrito controle do Estado - basta lembrar o exemplo clássico
da Inglaterra, onde as perseguições religiosas patrocinadas pelo
reinado de Elizabeth I fizeram o temível Torquemada, inquisidor
espanhol, parecer um aprendiz de carniceiro.
Mas
tanto as perseguições religiosas em várias épocas da história e
esses conflitos mencionados, entre outros, tiveram claras motivações
políticas e econômicas. Hoje em dia, no caso do Oriente Médio,
de um lado temos os terroristas palestinos, a conclamação pela "jihad"
(Guerra Santa) e os discursos inflamados de líderes fundamentalistas
muçulmanos. Pra aumentar a confusão, George W. Bush e os cristãos
americanos agora vêm com discursos do tipo "Deus está do nosso lado"
e tudo o mais. E esses discursos e essa postura fundamentalista
só servem para mascarar a raiz desta invasão norte-americana ao
Iraque e dos outros conflitos do Oriente Médio, notadamente a questão
Palestina.
A religião
é apenas o pavio que faz explodir o barril de pólvora. Se não fosse
ela, haveria outros motivos, outras desculpas e falácias pra se
justificarem guerras, perseguições, conflitos, matanças. Se não
for em nome de Deus, é em nome da pátria, da liberdade, dos direitos
civis, da democracia, das mais sublimes intenções. O conflito árabe-israelense,
por exemplo, não tem nada a ver com religião, é um conflito que
tem suas origens na apropriação de terras da região da Palestina
por colonos sionistas (judeus) a partir da década de 20, mediante
sua compra dos proprietários latifundiários árabes. O resto é papo
furado.
Se
Deus realmente existe, Ele não tem nada a ver com essa panacéia,
e as religiões, que o homem inventou para chegar (ou tentar chegar)
até Ele, são utilizadas por muitos intelectuais para se mascarar
os verdadeiros problemas da humanidade. As religiões, em si, são
pacíficas e pregam o respeito, a tolerância e a paz; seus elementos
fundamentalistas vêm à tona durante crises políticas e econômicas,
e julgá-las a partir desses elementos é um erro de perspectiva.
Culpar as religiões pelas mazelas da humanidade é, além de um tremendo
exagero, uma demonstração de infantilidade intelectual e de uma
imensa ignorância.

No
caso dessa bela guerra arranjada pelo seu Bush, os motivos estão
além do petróleo. Dá uma lida nesse ótimo
artigo do jornalista Pedro Doria, escrito para o site No
Mínimo. Estou pesquisando na internet e nos jornais,
também recomendo a leitura da Carta
Capital (como sempre...) pra quem quiser uma cobertura mais
precisa e isenta sobre a guerra. Ah, antes que eu me esqueça,
o Jornal da Cultura está exibindo reportagens de repórteres
da RTP que estão em Bagdá, cobrindo a guerra. Obrigatório.
A guerra
dos EUA contra o Iraque não se dá apenas por motivos
estratégicos e políticos, mas tem uma forte motivação
econômica, e sob esse ponto de vista a lógica militar
de Bush faz sentido. Vamos continuar essa reflexão nas próximas
colunas, ok? Ainda não tenho uma posição muito
clara a respeito disso, é melhor parar e ler um pouco mais.
O grande problema é que a atualidade do fato torna-o quase
impossível de ser analisado, porque não temos noção
nenhuma de sua magnitude. Precisamos deixar a poeira se assentar
um pouco.
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