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Beagá, 31 de março de 2003 d.C.

 
Não coloquem Deus no meio!
Por Cajabis Cannabis
 

Uma guerra é motivada principalmente por fatores econômicos - ainda que as interpretações dos fatos pelos protagonistas do conflito possam estar equivocadas. O político se guia pelo econômico, o poder está relacionado com o controle e a posse dos meios de produção de riquezas. Claro que há uma série de justificativas subjacentes, principalmente relativas à religião, mas diferenças de pensamento servem bem mais como um estopim para a deflagração de conflitos do que propriamente motivos cruciais para a eclosão de um confronto de maiores proporções.

Não estou dizendo que somente há interesses econômicos nas guerras, mas eles são primordiais e, ao meu ver, são os mais importantes. Mesmo em guerras consideradas como "religiosas", como as Cruzadas e as guerras entre católicos e protestantes dos séculos XVI e XVII, os elementos econômicos e políticos se sobressaem. Normalmente, é curioso que muitas pessoas de boa cultura porém leigas no estudo da história coloquem a culpa desses conflitos principalmente na religião, o bode expiatório preferido de pensadores que não têm o embasamento necessário para proferir tais afirmativas, como Nietzche e Saramago.

Se as Cruzadas são conflitos "entre cristãos e mulçumanos", como se convencionou acreditar, como explicar que, durante cerca de trezentos anos antes que elas acontecessem, as relações entre os seguidores de Cristo e os de Maomé fossem relativamente tranqüilas, e os tempos de convivência pacífica entre eles foram bem mais duradouros do que as épocas de conflitos? Basta ver o exemplo da Penísula Ibérica, onde durante muito tempo judeus, cristãos e muçulmanos, sob domínio mouro (islã), conviviam em relativa harmonia.

Os conflitos religiosos que varreram a Europa nos séculos XVI e XVII se dão entre facções e governos que apoiavam ou se posicionaram contra a Igreja Católica - e essa postura foi determinada por interesses políticos e econômicos. Para alguns, uma aliança com o poder católico era conveninte; para outros, um distanciamento de Roma e do papado era mais do que desejável. Não foi por acaso que os países geograficamente mais próximos da Itália, onde fica a sede da Igreja Católica, permaneceram católicos; e os países do norte da Europa, que sempre estiveram mais distantes do controle da Igreja, estabeleceram igrejas nacionais, sob estrito controle do Estado - basta lembrar o exemplo clássico da Inglaterra, onde as perseguições religiosas patrocinadas pelo reinado de Elizabeth I fizeram o temível Torquemada, inquisidor espanhol, parecer um aprendiz de carniceiro.

Mas tanto as perseguições religiosas em várias épocas da história e esses conflitos mencionados, entre outros, tiveram claras motivações políticas e econômicas. Hoje em dia, no caso do Oriente Médio, de um lado temos os terroristas palestinos, a conclamação pela "jihad" (Guerra Santa) e os discursos inflamados de líderes fundamentalistas muçulmanos. Pra aumentar a confusão, George W. Bush e os cristãos americanos agora vêm com discursos do tipo "Deus está do nosso lado" e tudo o mais. E esses discursos e essa postura fundamentalista só servem para mascarar a raiz desta invasão norte-americana ao Iraque e dos outros conflitos do Oriente Médio, notadamente a questão Palestina.

A religião é apenas o pavio que faz explodir o barril de pólvora. Se não fosse ela, haveria outros motivos, outras desculpas e falácias pra se justificarem guerras, perseguições, conflitos, matanças. Se não for em nome de Deus, é em nome da pátria, da liberdade, dos direitos civis, da democracia, das mais sublimes intenções. O conflito árabe-israelense, por exemplo, não tem nada a ver com religião, é um conflito que tem suas origens na apropriação de terras da região da Palestina por colonos sionistas (judeus) a partir da década de 20, mediante sua compra dos proprietários latifundiários árabes. O resto é papo furado.

Se Deus realmente existe, Ele não tem nada a ver com essa panacéia, e as religiões, que o homem inventou para chegar (ou tentar chegar) até Ele, são utilizadas por muitos intelectuais para se mascarar os verdadeiros problemas da humanidade. As religiões, em si, são pacíficas e pregam o respeito, a tolerância e a paz; seus elementos fundamentalistas vêm à tona durante crises políticas e econômicas, e julgá-las a partir desses elementos é um erro de perspectiva. Culpar as religiões pelas mazelas da humanidade é, além de um tremendo exagero, uma demonstração de infantilidade intelectual e de uma imensa ignorância.

No caso dessa bela guerra arranjada pelo seu Bush, os motivos estão além do petróleo. Dá uma lida nesse ótimo artigo do jornalista Pedro Doria, escrito para o site No Mínimo. Estou pesquisando na internet e nos jornais, também recomendo a leitura da Carta Capital (como sempre...) pra quem quiser uma cobertura mais precisa e isenta sobre a guerra. Ah, antes que eu me esqueça, o Jornal da Cultura está exibindo reportagens de repórteres da RTP que estão em Bagdá, cobrindo a guerra. Obrigatório.

A guerra dos EUA contra o Iraque não se dá apenas por motivos estratégicos e políticos, mas tem uma forte motivação econômica, e sob esse ponto de vista a lógica militar de Bush faz sentido. Vamos continuar essa reflexão nas próximas colunas, ok? Ainda não tenho uma posição muito clara a respeito disso, é melhor parar e ler um pouco mais. O grande problema é que a atualidade do fato torna-o quase impossível de ser analisado, porque não temos noção nenhuma de sua magnitude. Precisamos deixar a poeira se assentar um pouco.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, finalista do curso de psicologia, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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