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Beagá, 29 de setembro de 2003 d.C.

 
Os mentirosos (II)
Por Cajabis Cannabis
 

Que coisa! Estava planejando escrever mais sobre mídia e manipulação... E esse é, realmente, um assunto que rende muita conversa. Poderia citar o silêncio da grande imprensa a respeito do escândalo da "Operação 14 de Julho", descoberta e noticiada amplamente pela revista Carta Capital, mas solenemente ignorada pelos principais meios de comunicação de nosso país. O que? Você não sabe do que se trata?

Você não sabia que no mês de julho passado o governo da França organizou uma expedição para libertar Ingrid Bittencourt, cidadã francesa seqüestrada pela guerrilha das Farcs na Colômbia? Detalhe: sem que o governo brasileiro fosse notificado do fato, um avião militar francês pousou em Manaus com alguns cidadãos franceses portando identidades diplomáticas. Esses cidadãos não permitiram que o avião fosse inspecionado... O que ele levava?... E que história é essa de o governo francês negociar com as Farc em território brasileiro passando por cima da soberania de nosso país? A pergunta é mais do que relevante: o que havia dentro daquele avião? Niguém sabe, mas especula-se que alguma coisa seria trocada pela refém - armas?

Um fato de extrema gravidade, que foi noticiado em todo o mundo - só aqui no Brasil praticamente nada foi transmitido ao público. A França tratou nosso país como um lote vago e ficou por isso mesmo. O Itamaraty tomou as devidas providências, exigindo que o avião e os cidadãos franceses se retirassem do país por se recusarem a explicar o motivo exato de estarem em Manaus num avião militar francês. A conversa de "missão humanitária" não colou, a trapalhada "operação resgate" falhou e o governo brasileiro exigiu desculpas. Com muito custo, os arrogantes franceses mandaram um "lamentamos o incidente".

Infelizmente, só os leitores de Carta Capital (entre os quais me incluo) ficaram sabendo da história. No mais, alguma notinha na Folha de São Paulo, uma menção no Jornal Nacional, e um destaque maior nos telejornais da Record, graças a Paulo Henrique Amorim e Boris Casoy. Parece que a revista Carta Capital não é muito bem quista pela maioria dos outros órgãos de imprensa, afinal foi um furo de reportagem que interessou a vários países. Na França, foi manchete na primeira página dos principais jornais do país, gerando muita polêmica e mal-estar no governo, com direito a acusações ao próprio primeiro-ministro Jacques Chirac; na Espanha e na Colômbia o caso também teve enorme repercussão. Até nos Estados Unidos o caso ganhou páginas nos principais jornais. Até na China... Enfim. No Brasil, silêncio quase mortuário.

Por que?

Eis que, algumas semanas atrás, o programa Domingo Legal exibe uma entrevista com dois supostos membros do PCC, e estes dois fazem uma série de ameaças a jornalistas, políticos, até ao Padre Marcelo. Um rebu total. E eis que se descobre que tudo não passou de uma farsa, a entrevista foi forjada e os atores que fizeram o papel de criminosos acusam o apresentador Augusto Liberato de não apenas ter conhecimento da fraude, mas também de ter aprovado a veiculação da "matéria".

Pessoalmente, tenho imenso desprezo pela figura de Augusto Liberato. Penso que nem mesmo João Kleber atinge os píncaros da falta de respeito à dignidade humana como esse sujeito faz. A maneira como explora a pobreza e a ignorância das pessoas mais humildes em seu programa dominical me provoca imenso mal-estar. Em suma, considero-o um indivíduo repugnante.

Mesmo que Augusto Liberato não tivesse conhecimento do teor da entrevista, mesmo que não tivesse visto seu conteúdo antes de sua exibição (o que é pouco provável) e mesmo que esteja falando a verdade, ou seja, que não soubesse que era tudo uma armação (o que é pouquíssimo provável), ele é responsável pela exibição da reportagem em seu programa. Ele não é o apresentador? Quem é que define o que vai para o ar no programa Domingo Legal?

Negando seu envolvimento com a armação até o fim, o apresentador apareceu ao vivo no programa da Hebe, fez várias declarações e colocou a culpa nos seus subalternos. Fica a palavra de um graúdo contra a dos peixes pequenos. Na hora de depor na polícia, o famigerado ainda invocou a amizade com o governador de São Paulo, Geraldo Alckimin, dizendo ser seu amigo, e lembrando a todos que trabalhou em sua campanha eleitoral. Qual a relevância disso para o caso? O que será que Augusto Liberato quis insinuar com essas declarações?

O sujeito ganha três milhões por mês para semanalmente exibir lixo, vulgaridades e demonstrações sentimentalóides de filantropia para seduzir os mais humildes e incautos. Numa demonstração tacanha de falta de caráter, vergonha, moral e decência, permite a exibição de uma "entrevista bombástica" onde pessoas têm suas vidas ameaçadas por supostos criminosos diante de milhões de telespectadores Brasil afora. E, em seu depoimento, apela para sua amizade com figuras importantes e politicamente poderosas como se estivesse acima do bem e do mal, como se fosse intocável.

Um indivíduo dessa estirpe, um desclassificado como é Augusto Liberato, tinha que ser varrido para sempre da imprensa brasileira. Agir da forma que ele agiu para ganhar uns míseros pontos no Ibope é algo que supera toda forma de mesquinharia. E o que aconteceu serve como reflexão: será que devemos acreditar em tudo o que vemos ou ouvimos?

A Oi é a campeã de reclamações no Procon. Sabe como fiquei sabendo disso? Simples: eu pessoalmente fui reclamar dela. Pois é. O trouxa aqui comprou um celular e fez um plano pela Oi: se arrependimento matasse... O meu prejuízo foi pequeno, apenas 4 reais, mas pior que o dinheiro é ser feito de otário, é se sentir enganado. É perceber que lhe passaram a perna.

Já sabe a dica, caro abacaxinauta: pra Oi, dê um sonoro tchau! Não cometa o mesmo erro que eu e tantos outros já cometeram.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, finalista do curso de psicologia, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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