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Beagá, 24 de março de 2003 d.C.

 
Voltar no tempo é preciso
Por El Jako
 

Depois de muitos e muitos anos ouvindo música a rodo, a vontade que dá, observando o cenário musical atual, é de sair correndo pra bem longe, para o passado, em busca das velharias. Quando digo velharias não estou falando somente dos jurássicos Stones, Beatles, Led Zeppelin e Cia. Limitada, mas também do fabuloso início dos anos 90, quando conhecemos Nirvana, Jane's Addiction, Fugazi e outros.

Lembro-me muito bem da primeira vez que ouvi Nevermind, foi como se o rock'n roll puro e simples estivesse nascendo de novo. Estávamos numa época em que Faith No More e Chili Peppers "salvavam" os nosso ouvidos de "coisas" como Information Society, Technotronic e Snap. O mais incrível é que parece que tudo isso aconteceu ontem, só que lá se vão mais de dez anos - lá se vão as camisas de flanela nas tardes quentes de Beagá, lá se vão as longas madeixas e barbichas e lá se foi o jeito simples de se fazer música. Nunca condenei a tecnologia musical atual, mesmo porque existem aqueles que a utilizam muito bem (é só lembrar de Massive Atack, Chemical Brothers ou Portishead), só que um verdadeiro fã de rock precisa de algo mais. Não digo do "bom e velho rock'n roll", essa expressão é pura idiotice (como assim "bom e velho"?). Estou falando sim da guitarra, do baixo e da bateria causando estragos aos ouvidos, das letras rasgadas e às vezes nonsense e mesmo da atitude de quem não está nem aí. Mas como vimos no caso dos Tribalistas, até a atitude "não estou ligando" é proposital. Hoje em dia, vale tudo para chamar a atenção da mídia, e uma das formas de se conseguir esse objetivo é fazer de conta que não se liga para isso.

Na verdade, o cenário musical de hoje me parece um dos mais complicados dos últimos tempos, principalmente depois que o termo "alternativo" se tornou comum. O que é ser uma banda alternativa? Antes, a palavra fazia mais sentido, era na verdade uma alternativa para quem simplesmente queria algo diferente. Agora não, qualquer cidadão é alternativo. Por exemplo, o Los Hermanos é uma banda que faz esse tipo: barbas grandes, referências musicais "cabeça" e uma atitude blasé com a imprensa e os fãs; no final, um som que pode até parecer ter melhorado com o tempo, mas na verdade não são experimentações, tudo é bem calculado para que os caras possam aparecer mais do que os outros.

Por isso que, se tivesse que montar uma banda hoje, sinceramente não saberia por onde começar. Tudo parece armado, artificial e repetitivo. Pode ser que esteja ficando mais velho mesmo e cansado dessa estória de defender bandeiras no meio musical, mas tudo (digo tudo mesmo) é muito sem graça, as bandas não empolgam como antes, os músicos não parecem felizes com o que fazem e o público aprendeu a ser idiota e cai em armadilhas como se fosse uma besta solta pela floresta.

Hoje é muito fácil vender discos e fazer sucesso; não que antes só se davam bem aqueles que tivessem talento, mas pelo menos as táticas eram inovadoras. E agora, o que é inovador? O que realmente choca? Espero que esteja errado, mas a cada dia que passa acho que voltarei mais e mais ao passado e deixarei para os mais jovens julgarem toda essa indústria musical que hoje domina rádios, tvs e outros meios de comunicação.

 
El Jako é professor de história e não acredita mais que vai realmente mudar o mundo. Na verdade, nunca acreditou. Se quiser xingá-lo, esteja à vontade: eljako@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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