Beagá, Segunda, 18 de novembro de 2002 d.C.

Futebol, a pior das cachaças...

Por Obdulio Rimet
Correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Curitiba

E-mail: obdulio@abacaxiatomico.com.br

Sinceramente, nunca havia acompanhado uma primeira fase de Campeonato Brasileiro como essa que acaba de terminar. Em primeiro lugar, porque duas das chamadas equipes de elite caíram - o Palmeiras, pelas recentes conquistas, até merece tal denominação, já o Botafogo há tempos deixou de meter medo nos adversários (tanto que, numa das minhas primeiras colunas, afirmei que cairiam o time de Marechal Severiano e mais três). Em segundo porque, mesmo com várias equipes obtendo um desempenho fraco, não houve nenhum saco-de-pancadas.

Em campeonatos passados, antes mesmo de começar a competição você já sabia quem iria cair. Eram sempre os mesmos: América-MG, União São João de Araras, Santa Cruz, Náutico, Criciúma, América-RN e tantos outros que entravam só para voltar à segundona. Isso fora aqueles que sempre caminham na corda bamba e geralmente dão muitas aflições a seus torcedores, como a hoje também rebaixada Portuguesa, o Goiás, o Guarani, a Ponte Preta, o Juventude e, tenho que admitir, o trio de ferro aqui do Paraná - mas esses sempre revezando: um ano péssimo para outro bom.

Mas dessa vez foi muito diferente, a inversão de papéis foi enorme. Enquanto equipes como Palmeiras, Botafogo, Internacional (que literalmente tirou o pai da forca no domingo) tateavam loucamente em busca do cipó salvador que os tiraria do lamaçal, equipes como o São Caetano - que, apesar dos pesares, ou melhor, apesar dos vices, ainda continua sendo uma surpresa - e o Juventude vão para o grupo de oito felizardos.

Isso é muito bom. Demonstra que, apesar da tristeza de palmeirenses e botafoguenses, o futebol brasileiro não é estagnado. Não é como o da Espanha, por exemplo, onde Real Madrid e Barcelona parecem ter um acordo marrom no qual em um período a taça fica na capital e depois de algum tempo vai para a Catalunha. De vez em quando, como o La Coruña recentemente, alguém quebra essa escrita. Mas no geral...

Agora resta torcer para que o capeta não sopre muito forte na orelha de Ricardo Teixeira. Senão, ano que vem tudo continua na mesma bagunça: Palmeiras e Botafogo na primeirona e, mais uma vez, uma edição de Brasileirão alimentada pela marmelada dos cartolas. Vai ser duro de engolir. O duro é que, seja como for, venha a desgraça que vier, nós vamos, como sempre, engolir. Futebol, a pior das cachaças...

Excelente

Entre os classificados, podemos esperar mais do que excelentes partidas. Primeiro porque haverá dois clássicos regionais. São Paulo e Santos, o mais quente deles, e Juventude e Grêmio que, com a morte do Inter na praia, ganha status de principal clássico gaúcho - muito mais pelo momento do que pela história, evidentemente.

As outras duas partidas serão movidas pelo rancor. A torcida do Atlético Mineiro desde já pensa na vingança da derrota do Brasileirão de 99 para o Corinthians. Pobre Guilherme. Mesmo sendo um dos maiores ídolos da história recente do Galo, vai ser xingado de todas as maneiras pela massa que antes o apoiava.

O Fluminense, por seu lado, não quer nem se lembrar de dois anos atrás. A memória do canudo do meio da rua de Ademar nas quartas-de-final da fatídica Copa João Havelange ainda assombra as Laranjeiras. Em compensação, o baixinho Romário, ainda no Vasco, levou a melhor sobre o São Caetano na final. Qual das superstições valerá?!?!

Gol de Letra

Barbosa - Um Gol Faz Cinqüenta Anos
de Roberto Muylaert, 2000, RMC Editora

Como disse meu amigo Chinasky, "se todo mundo faz, também vou fazer". A partir de hoje, abro uma seção em minha coluna chamada "Gol de Letra", na qual darei algumas dicas de livros que têm o futebol e esportes em geral como tema.

Começo com Barbosa - Um Gol Faz Cinqüenta Anos, do jornalista Roberto Muylaert. Ao lado de A Estrela Solitária, livro que relata a vida de Garrincha, Barbosa... é a melhor biografia de jogadores de futebol que li até hoje.

O ponto culminante do livro é a abordagem tomada por Muylaert. Não é a de um simples pesquisador, que narra a vida de seu personagem com isenção. É a visão de quem, guardadas as devidas proporções, sofreu junto com a sua fonte de inspiração. Assim como o goleiro Barbosa, principal acusado da derrota de 50 para o Uruguai, Muylaert também estava no Maracanã naquele 16 de julho. Com apenas 15 anos, vira a maior derrota do futebol mundial.

Destaque para o capítulo em que, com uma simples onamatopéia, Muylaert resume o peso daquela derrota. No momento do gol, parecia que todas as 200 mil pessoas no estádio ouviam somente um único barulho: o ssssssssch da bola em contato com a rede no gol da virada de Ghiggia.

Isso, fora uma revelação histórica: as traves em que Barbosa levou o gol de Ghiggia tiveram um fim justo anos depois - foram queimadas pelo próprio goleiro num churrasco. Não eram apenas os pedaços de madeira que sumiam. Iam-se, em parte, algumas das mágoas de um dos melhores goleiros brasileiros de todos os tempos.

 

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