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Depois
de tanta discussão, eis que a bola continua rolando no Brasileirão
de pontos corridos. Louvável a atitude do governo federal em não
baixar a guarda para a cartolagem na defesa do Estatuto do Torcedor.
Segundo o que se comenta nos bastidores, o ministro dos Esportes,
Agnelo Queiroz, teria até cogitado algumas mudanças solicitadas
pela banda podre do futebol. Entretanto, o próprio presidente Lula
e, principalmente, o chefe da Casa Civil, ministro José Dirceu,
foram taxativos em não arredar o pé: dar o braço a torcer seria
um duro golpe à imagem até aqui consolidada do governo petista.
Apesar
da necessidade do Estatuto do Torcedor, que prevê, entre outras
coisas, pontos óbvios tais como banheiros, vagas para carros, alimentação
sadia, lugar garantido para o torcedor poder assistir à partida
e atendimento médico em casos de acidentes (todos elementos que,
a teor, não precisariam de nenhum documento exigindo, apenas bom
senso), algumas partes do Estatuto são realmente uma tanto quanto
questionáveis. Principalmente no que diz respeito à responsabilidade
dos diretores dos clubes em relação à segurança dentro e fora dos
estádios.
Lógico
que os clubes devem, assim como quem organiza espetáculos, shows,
peças teatrais ou mesmo uma simples apresentação de cinema, proporcionar
totais condições de segurança para que se evite tumultos em caso
de agitação da multidão, tais como saídas de emergência, gente preparada
para guiar as pessoas nessas condições, sistema de alto-falantes,
bombeiros preparados para agirem, ambulâncias, entre outras precauções.
Agora, culpar os diretores por todos e quaisquer problemas que venham
a ocorrer é um absurdo.
Nem
tanto ao céu, nem tanto à terra. Se a cartolagem brasileira não
é nenhum exemplo, os torcedores (?) também deixam, e muito, a desejar.
Um exemplo disso ocorreu na partida entre Corinthians e River, no
Morumbi. A queda do torcedor corintiano do terceiro para o segundo
anel do estádio, em que o sujeito ficou preso à ferragem do gradil
de divisão, não é de responsabilidade de ninguém a não ser da própria
pessoa que se acidentou. Ele foi imprudente. Talvez até mesmo sem
intenção, mas a culpa dele ter caído não é de ninguém, além dele
mesmo.
Por
esse motivo, uma pessoa que não tem nada a ver com o fato deve responder
judicialmente? Não. A única coisa que o clube deve obrigatoriamente
fazer nesse caso é prestar o melhor atendimento médico possível
- o que não foi o caso, já que para retirar o sujeito da grade tiveram
que chamar o Corpo de Bombeiros, ou seja, o Estado prestou o serviço,
e não a instituição.
Outro
caso: briga de torcedores longe dos estádios, em bairros ou em pontos
de ônibus e estações de metrô. Não tem cabimento apontar gente que
nem está no local como culpado. Isso é de responsabilidade do Estado.
Ou será que a partir de agora, quando houver uma encrenca lá nos
cafundós, os presidentes dos clubes terão que se deslocar até o
local e ficar apartando briga de marginais, de gangues (pois é isso
o que são essa gente encrenqueira)?
Porém,
há casos e casos. Quando for comprovada a culpa do diretor, aí sim,
rigor total. Cito um exemplo ocorrido aqui em Curitiba há cinco
anos. Em um Atletiba no estádio Couto Pereira, de propriedade do
Coritiba, a diretoria optou por uma disposição dos torcedores "alternativa".
Enquanto os donos da casa ficavam no segundo e terceiro anéis, a
torcida visitante, a do Atlético-PR, ficou no primeiro - exatamente
abaixo da torcida rival. Só mesmo gente cretina, sem raciocínio,
no caso a diretoria do Coritiba, para ter uma idéia genial dessas.
O resultado foi um quebra-quebra sem tamanho. Os torcedores, ou
melhor, arruaceiros de cima, quebraram o concreto das arquibancadas
e passaram a jogar nas pessoas que estavam embaixo. Não interessava
se quem estivesse ali era gente de bem ou não. Tanto os maus, se
é que isso existe, quanto os bons torcedores, inclusive gente com
criança de colo, foram apedrejados sem ter como reagir.
Eu
estava nesse jogo e fiquei horrorizado com tamanha inconseqüência
da diretoria do meu próprio clube. No outro dia, fiquei ainda mais
envergonhado: um colega atleticano havia sido uma das vítimas, levando
uma pedrada na cara.
Tomara
que o Estatuto aja com rigor nesses casos. Ou melhor, tomara que
o Estatuto nunca mais permita que isso ocorra.
Bom
senso
Por falar em bom senso, um crédito à diretoria corintiana. Foi a
primeira e única, através do diretor de futebol do clube, Roque
Citadini, a assimilar a nova lei. Sábado, na vitória por 3 a 0 sobre
o Juventude, a Fiel foi tratada com o mínimo de dignidade, com lugares
reservados, banheiros limpos e toda a lei à disposição para consulta
na entrada do Pacaembu.
Lógico
que nem tudo deu certo. Para variar, filas enormes na compra do
ingresso. Porém, nesse caso, novamente, muito da culpa é do próprio
torcedor: se não quer ficar horas de pé, por que não compram ingressos
antecipadamente?
E
as organizadas?
Não vi nenhum ponto do Estatuto do Torcedor se referir às torcidas
organizadas. Já passou da hora do governo não só fiscalizar como
punir as pessoas dessas agremiações envolvidas em violência. Nesse
caso, o cerco deve ser ainda mais fechado, para que se separe o
torcedor que faz o espetáculo em campo do marginal e, conseqüentemente,
permita-se a entrada única e exclusiva de gente de bem nos estádios.
Se
os diretores dos clubes serão responsabilizados por encrencas de
torcedores, os líderes dessas facções, que de organizadas não têm
nada, também deveriam responder judicialmente, caso realmente estejam
envolvidos em algo.
Aliás,
o novo estatuto também deveria criar regras para o funcionamento
das organizadas. O primeiro passo é credenciar todos os filiados
adequadamente, com foto, números de documentos e endereço. Dessa
maneira, assim que um desses falsos torcedores causarem qualquer
problema, seja perto ou longe do estádio, terá sua identidade mais
facilmente reconhecida e será punido. Se os presidentes dessas torcidas
não colaborarem nas investigações, aí sim devem responder a processos
judiciais.
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