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Beagá, 26 de maio de 2003 d.C.
 
Nem tanto ao céu, nem tanto à terra
Por Obdulio Rimet
 

Depois de tanta discussão, eis que a bola continua rolando no Brasileirão de pontos corridos. Louvável a atitude do governo federal em não baixar a guarda para a cartolagem na defesa do Estatuto do Torcedor. Segundo o que se comenta nos bastidores, o ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz, teria até cogitado algumas mudanças solicitadas pela banda podre do futebol. Entretanto, o próprio presidente Lula e, principalmente, o chefe da Casa Civil, ministro José Dirceu, foram taxativos em não arredar o pé: dar o braço a torcer seria um duro golpe à imagem até aqui consolidada do governo petista.

Apesar da necessidade do Estatuto do Torcedor, que prevê, entre outras coisas, pontos óbvios tais como banheiros, vagas para carros, alimentação sadia, lugar garantido para o torcedor poder assistir à partida e atendimento médico em casos de acidentes (todos elementos que, a teor, não precisariam de nenhum documento exigindo, apenas bom senso), algumas partes do Estatuto são realmente uma tanto quanto questionáveis. Principalmente no que diz respeito à responsabilidade dos diretores dos clubes em relação à segurança dentro e fora dos estádios.

Lógico que os clubes devem, assim como quem organiza espetáculos, shows, peças teatrais ou mesmo uma simples apresentação de cinema, proporcionar totais condições de segurança para que se evite tumultos em caso de agitação da multidão, tais como saídas de emergência, gente preparada para guiar as pessoas nessas condições, sistema de alto-falantes, bombeiros preparados para agirem, ambulâncias, entre outras precauções. Agora, culpar os diretores por todos e quaisquer problemas que venham a ocorrer é um absurdo.

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Se a cartolagem brasileira não é nenhum exemplo, os torcedores (?) também deixam, e muito, a desejar. Um exemplo disso ocorreu na partida entre Corinthians e River, no Morumbi. A queda do torcedor corintiano do terceiro para o segundo anel do estádio, em que o sujeito ficou preso à ferragem do gradil de divisão, não é de responsabilidade de ninguém a não ser da própria pessoa que se acidentou. Ele foi imprudente. Talvez até mesmo sem intenção, mas a culpa dele ter caído não é de ninguém, além dele mesmo.

Por esse motivo, uma pessoa que não tem nada a ver com o fato deve responder judicialmente? Não. A única coisa que o clube deve obrigatoriamente fazer nesse caso é prestar o melhor atendimento médico possível - o que não foi o caso, já que para retirar o sujeito da grade tiveram que chamar o Corpo de Bombeiros, ou seja, o Estado prestou o serviço, e não a instituição.

Outro caso: briga de torcedores longe dos estádios, em bairros ou em pontos de ônibus e estações de metrô. Não tem cabimento apontar gente que nem está no local como culpado. Isso é de responsabilidade do Estado. Ou será que a partir de agora, quando houver uma encrenca lá nos cafundós, os presidentes dos clubes terão que se deslocar até o local e ficar apartando briga de marginais, de gangues (pois é isso o que são essa gente encrenqueira)?

Porém, há casos e casos. Quando for comprovada a culpa do diretor, aí sim, rigor total. Cito um exemplo ocorrido aqui em Curitiba há cinco anos. Em um Atletiba no estádio Couto Pereira, de propriedade do Coritiba, a diretoria optou por uma disposição dos torcedores "alternativa". Enquanto os donos da casa ficavam no segundo e terceiro anéis, a torcida visitante, a do Atlético-PR, ficou no primeiro - exatamente abaixo da torcida rival. Só mesmo gente cretina, sem raciocínio, no caso a diretoria do Coritiba, para ter uma idéia genial dessas. O resultado foi um quebra-quebra sem tamanho. Os torcedores, ou melhor, arruaceiros de cima, quebraram o concreto das arquibancadas e passaram a jogar nas pessoas que estavam embaixo. Não interessava se quem estivesse ali era gente de bem ou não. Tanto os maus, se é que isso existe, quanto os bons torcedores, inclusive gente com criança de colo, foram apedrejados sem ter como reagir.

Eu estava nesse jogo e fiquei horrorizado com tamanha inconseqüência da diretoria do meu próprio clube. No outro dia, fiquei ainda mais envergonhado: um colega atleticano havia sido uma das vítimas, levando uma pedrada na cara.

Tomara que o Estatuto aja com rigor nesses casos. Ou melhor, tomara que o Estatuto nunca mais permita que isso ocorra.

Bom senso
Por falar em bom senso, um crédito à diretoria corintiana. Foi a primeira e única, através do diretor de futebol do clube, Roque Citadini, a assimilar a nova lei. Sábado, na vitória por 3 a 0 sobre o Juventude, a Fiel foi tratada com o mínimo de dignidade, com lugares reservados, banheiros limpos e toda a lei à disposição para consulta na entrada do Pacaembu.

Lógico que nem tudo deu certo. Para variar, filas enormes na compra do ingresso. Porém, nesse caso, novamente, muito da culpa é do próprio torcedor: se não quer ficar horas de pé, por que não compram ingressos antecipadamente?

E as organizadas?
Não vi nenhum ponto do Estatuto do Torcedor se referir às torcidas organizadas. Já passou da hora do governo não só fiscalizar como punir as pessoas dessas agremiações envolvidas em violência. Nesse caso, o cerco deve ser ainda mais fechado, para que se separe o torcedor que faz o espetáculo em campo do marginal e, conseqüentemente, permita-se a entrada única e exclusiva de gente de bem nos estádios.

Se os diretores dos clubes serão responsabilizados por encrencas de torcedores, os líderes dessas facções, que de organizadas não têm nada, também deveriam responder judicialmente, caso realmente estejam envolvidos em algo.

Aliás, o novo estatuto também deveria criar regras para o funcionamento das organizadas. O primeiro passo é credenciar todos os filiados adequadamente, com foto, números de documentos e endereço. Dessa maneira, assim que um desses falsos torcedores causarem qualquer problema, seja perto ou longe do estádio, terá sua identidade mais facilmente reconhecida e será punido. Se os presidentes dessas torcidas não colaborarem nas investigações, aí sim devem responder a processos judiciais.

 
Obdulio Rimet é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Curitiba. E-mail: obdulio@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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