q
Página principal de Esporte Esportivo
Adicione o ABACAXI ATÔMICO aos seus Favoritos. Faça do ABACAXI ATÔMICO a sua página inicial. Cadastre-se!
Mande o seu recado!
Beagá, 02 de janeiro de 2006 d.C.
 
Templos do futebol sul-americano
La Bombonera e Centenário estão em lados opostos quando o assunto é respeito ao torcedor e à história
Por Grand Chelem
 

Um estádio de futebol pode ser considerado um espaço sagrado. É nele que os torcedores manifestam a fé e o amor que têm pelo seu clube. Em alguns países, estes templos merecem todo respeito e carinho, oferecendo ótimas condições para os "fiéis". Em outros, o torcedor tem até medo de passar pelas catracas. Em recente visita ao Uruguai e à Argentina, pude comprovar esse antagonismo. De um lado, o Centenário, palco da final da primeira Copa do Mundo e de grandes lembranças para os uruguaios, totalmente abandonado. Do outro, La Bombonera, estádio do Boca Juniors, tratado pelo clube como um verdadeiro santuário.

E é simples perceber que o Boca respeita seus torcedores e fãs. Logo na entrada, oferece aos visitantes um guia, altamente preparado e conhecedor da história do time, para acompanhá-los num passeio pelas dependências de La Bombonera. Tudo pago, mas vale a pena. Entrando pelos corredores, observa-se um estádio muito bem conservado e estruturado. “Boca Juniors siempre és o mejor”, disse, logo de cara, nosso simpático guia Juan. “Una legenda”, completou.

La Bombonera: arquibancadas íngremes e pontos de apoio para os desavisados.

La Bombonera: arquibancadas íngremes e pontos de apoio para os desavisados.

La Bombonera tem suas características particulares. Parece uma caixa de bombons. Seu nome, aliás, vem desta semelhança. É um estádio bem alto e até certo ponto acanhado. As arquibancadas são íngremes – e cheias de apoios para os torcedores mais desavisados não rolarem ladeira abaixo. Circulando por suas dependências é impossível não imaginar a apaixonada massa boquense vibrando em dias de casa cheia. Também é impossível não imaginar que daquele gramado despontou um dos maiores jogadores do mundo, Diego Armando Maradona.

Estádio do Boca Juniors consagrou Diego Maradona como gênio do futebol.

Estádio do Boca Juniors consagrou Diego Maradona como gênio do futebol.

Saindo das arquibancadas, a visita segue para a sala de imprensa e, depois, para o vestiário oficial do Boca Juniors. Estes são os locais reservados aos palhaços de plantão. É possível fazer fotos na mesa destinada às entrevistas coletivas (posando como um verdadeiro jogador recém-contratado), nos bancos onde os atletas se arrumam antes dos jogos, em frente ao quadro-negro usado nas preleções e até mesmo nas macas que atendem aos contundidos. E podem ter certeza, todo mundo tira pelo menos uma foto. Dos vestiários sobe-se ao gramado, um tapete que dispensa maiores apresentações.

Sala de imprensa: palco para os palhaços de plantão.

Sala de imprensa: palco para os palhaços de plantão.

A visita ao estádio termina exatamente onde começa, próxima à loja do Boca Juniors. Lá os fanáticos encontram tudo que é tipo de produto relacionado ao time: revista, fitas de vídeo, DVD’s, chaveiros, camisetas, calções, meiões... Evidentemente que Maradona se destaca, tendo, inclusive, um vinho com o seu nome.

Vestiário é espaçoso e tem lugar, inclusive, para os "jogadores" contundidos.

Vestiário é espaçoso e tem lugar, inclusive, para os "jogadores" contundidos.

Passado o momento consumista, é hora de visitar o “Museu Boquense”. Um espetáculo de respeito à história. Para começo de conversa, uma gigantesca instalação com 72 monitores de vídeo narra os momentos mais destacados do Boca Juniors nos seus quase 100 anos de vida. Lá estão também as principais taças conquistadas durante a caminhada, bem como todos os modelos de camisetas usados pelo time e o nome dos jogadores que fizeram parte do dia-a-dia do clube. Ídolos como Maradona, Rattin (que Pelé considera o melhor marcador que enfrentou em sua carreira), Pancho Varallo (seus 180 gols com a camisa do Boca fazem dele o maior artilheiro da equipe em todos os tempos) e Roberto Mouzo (que jogou pelo time azul e amarelo 396 vezes, um recorde).

Museu Boquense dá um show de interatividade.

Museu Boquense dá um show de interatividade.

A interatividade se faz presente em cada canto. No espaço denominado “La Pasion”, o visitante pode assistir, dentro de uma bola de futebol gigante, a um vídeo num telão de 360º. No auditório conhecido como “Los Idolos”, o museu apresenta um filme com a trajetória de cada um dos seus grandes jogadores. Na área chamada de “La Memoria”, um conjunto de computadores possibilita a visualização de vários momentos da história do clube. E no “Los Goles” é possível, com um toque de dedos, ver e ouvir gols que foram decisivos para as conquistas do Boca Juniors.

Casa uruguaia

Respeito na Argentina, desrespeito no Uruguai. No mítico estádio Centenário, que recebeu boa parte dos jogos da Copa de 1930, a sensação é de abandono. Circulei a quadra inteira e encontrei tudo fechado. Não há sequer uma indicação para os visitantes. No setor administrativo, um cidadão de mau-humor apenas me falou, sem sequer levantar suas nádegas da cadeira: “La visitación non é acá”. “Donde és, entonces?”, perguntei no meu espanhol perfeito. “Ajá”, respondeu secamente, apontando com o dedo indicador para o horizonte.

No fim das contas descobri a “senha” para entrar no estádio conversando com um pobre senhor que tem em uma das marquises do Centenário a sua casa. Extremamente receptivo e simpático, com uma surrada garrafa térmica em uma mão e uma cuia de chimarrão na outra, me disse que era preciso bater em uma determinada porta do outro lado do estádio para ter acesso ao templo do futebol uruguaio. “Uma visión muy bela”, comentou, arrastando um portunhol. Em rápida conversa, soube que ele é torcedor do Danúbio. “Non podemos más com Penãrol e Nacional”, lamentou, balançando negativamente a cabeça e afirmando que o título uruguaio de 2004 foi mera obra do acaso.

Centenário é bonito, mas está jogado às traças.

Centenário é bonito, mas está jogado às traças.

Fui em frente e segui as orientações do pobre sujeito. Com um pouco de receio, bati na tal porta. Acabei sendo atendido por um homem visivelmente alcoolizado. A partir daí tive o estádio só para mim. O porteiro não deu nenhuma informação e sequer me acompanhou. Na verdade, nem falou um “Bienvenido”. Se fosse terrorista, poderia deixar meia dúzia de bombas lá dentro com a maior facilidade.

Tática da "maquiagem" mantém as condições das cadeiras em ordem.

Tática da "maquiagem" mantém as condições das cadeiras em ordem.

A impressão inicial se confirmou. O Centenário é realmente bonito, mas está jogado às traças. É aquela velha história da “maquiagem”. Somente as cadeiras estão em ordem. O concreto tem sinais de desgaste em vários pontos, dá para notar que não recebe tratamento há muitos anos.

Os banheiros fedem de longe, haja estômago para enfrentá-los - e olha que eu não visitei o Centenário em dia de jogo. O lixo se espalha por todos os lados. As dependências internas do estádio, por sua vez, estão literalmente podres. Algumas escadas (de madeira) dão até medo de tanto que balançam, parece que vão desabar com um simples empurrão. A casa uruguaia é semelhante à maioria dos estádios brasileiros. Uma pena.

Fichas técnicas

Estádio La Bombonera

Nome oficial: Alberto J. Armando.
Endereço: Rua Brandsen, 805, bairro La Boca, Buenos Aires, Argentina.
Inauguração: 2 de junho de 1940, com o jogo Boca Juniors 2x0 Newell’s Old Boys.
Primeiro gol: Alarcón (Boca Juniors).
Capacidade atual: 57.395 torcedores.
Arquiteto: José L. Delpini.

Estádio Centenário

Nome oficial: Estádio Centenário.
Localização: Parque Battle y Ordoñez, Montevidéu, Uruguai.
Inauguração: 18 de julho de 1930, com o jogo Uruguai 1x0 Peru, válido pela fase inicial da Copa do Mundo.
Primeiro gol: Héctor “Manco” Castro (Uruguai).
Capacidade atual: 70 mil torcedores.
Arquiteto: Juan Scasso.

Curiosidades

Torcedores e dirigentes do Boca Juniors consideram La Bombonera a “obra perfeita”, dadas as dimensões reduzidas do terreno onde o estádio foi construído.
Durante as obras de La Bombonera, o Boca Juniors mandou seus jogos no estádio do Ferro Carril Oeste.
No dia da inauguração, as bilheterias do Centenário foram assaltadas.
Construído às pressas, o Centenário só ficou pronto cinco dias após o início da Copa do Mundo de 1930 e não pode sediar a partida inaugural do torneio (França 4x1 México), que foi realizada no estádio Pocitos, também em Montevidéu.

 

 

 

©Todos os direitos reservados
Melhor visualizado com Internet Explorer em 800X600

 
ÚLTIMAS MATÉRIAS
Guerra, futebol e dignidade
O fim se aproxima
Domingo é dia de clássico
Sem dar o braço a torcer
A culpa não foi do Levir
Confira textos mais antigos...