Um estádio de futebol pode ser
considerado um espaço sagrado. É nele que os torcedores
manifestam a fé e o amor que têm pelo seu clube. Em
alguns países, estes templos merecem todo respeito e carinho,
oferecendo ótimas condições para os "fiéis".
Em outros, o torcedor tem até medo de passar pelas catracas.
Em recente visita ao Uruguai e à Argentina, pude comprovar
esse antagonismo. De um lado, o Centenário, palco da final
da primeira Copa do Mundo e de grandes lembranças para os
uruguaios, totalmente abandonado. Do outro, La Bombonera, estádio
do Boca Juniors, tratado pelo clube como um verdadeiro santuário.
E é simples perceber que o Boca respeita seus torcedores
e fãs. Logo na entrada, oferece aos visitantes um guia, altamente
preparado e conhecedor da história do time, para acompanhá-los
num passeio pelas dependências de La Bombonera. Tudo pago,
mas vale a pena. Entrando pelos corredores, observa-se um estádio
muito bem conservado e estruturado. “Boca Juniors siempre
és o mejor”, disse, logo de cara, nosso simpático
guia Juan. “Una legenda”, completou.

La Bombonera: arquibancadas íngremes e pontos de apoio
para os desavisados.
La Bombonera tem suas características particulares. Parece
uma caixa de bombons. Seu nome, aliás, vem desta semelhança.
É um estádio bem alto e até certo ponto acanhado.
As arquibancadas são íngremes – e cheias de
apoios para os torcedores mais desavisados não rolarem ladeira
abaixo. Circulando por suas dependências é impossível
não imaginar a apaixonada massa boquense vibrando em dias
de casa cheia. Também é impossível não
imaginar que daquele gramado despontou um dos maiores jogadores
do mundo, Diego Armando Maradona.

Estádio do Boca Juniors consagrou Diego Maradona como
gênio do futebol.
Saindo das arquibancadas, a visita segue para a sala de imprensa
e, depois, para o vestiário oficial do Boca Juniors. Estes
são os locais reservados aos palhaços de plantão.
É possível fazer fotos na mesa destinada às
entrevistas coletivas (posando como um verdadeiro jogador recém-contratado),
nos bancos onde os atletas se arrumam antes dos jogos, em frente
ao quadro-negro usado nas preleções e até mesmo
nas macas que atendem aos contundidos. E podem ter certeza, todo
mundo tira pelo menos uma foto. Dos vestiários sobe-se ao
gramado, um tapete que dispensa maiores apresentações.

Sala de imprensa: palco para os palhaços de plantão.
A visita ao estádio termina exatamente onde começa,
próxima à loja do Boca Juniors. Lá os fanáticos
encontram tudo que é tipo de produto relacionado ao time:
revista, fitas de vídeo, DVD’s, chaveiros, camisetas,
calções, meiões... Evidentemente que Maradona
se destaca, tendo, inclusive, um vinho com o seu nome.

Vestiário é espaçoso e tem lugar, inclusive,
para os "jogadores" contundidos.
Passado o momento consumista, é hora de visitar o “Museu
Boquense”. Um espetáculo de respeito à história.
Para começo de conversa, uma gigantesca instalação
com 72 monitores de vídeo narra os momentos mais destacados
do Boca Juniors nos seus quase 100 anos de vida. Lá estão
também as principais taças conquistadas durante a
caminhada, bem como todos os modelos de camisetas usados pelo time
e o nome dos jogadores que fizeram parte do dia-a-dia do clube.
Ídolos como Maradona, Rattin (que Pelé considera o
melhor marcador que enfrentou em sua carreira), Pancho Varallo (seus
180 gols com a camisa do Boca fazem dele o maior artilheiro da equipe
em todos os tempos) e Roberto Mouzo (que jogou pelo time azul e
amarelo 396 vezes, um recorde).

Museu Boquense dá um show de interatividade.
A interatividade se faz presente em cada canto. No espaço
denominado “La Pasion”, o visitante pode assistir, dentro
de uma bola de futebol gigante, a um vídeo num telão
de 360º. No auditório conhecido como “Los Idolos”,
o museu apresenta um filme com a trajetória de cada um dos
seus grandes jogadores. Na área chamada de “La Memoria”,
um conjunto de computadores possibilita a visualização
de vários momentos da história do clube. E no “Los
Goles” é possível, com um toque de dedos, ver
e ouvir gols que foram decisivos para as conquistas do Boca Juniors.
Casa uruguaia
Respeito na Argentina, desrespeito no Uruguai. No mítico
estádio Centenário, que recebeu boa parte dos jogos
da Copa de 1930, a sensação é de abandono.
Circulei a quadra inteira e encontrei tudo fechado. Não há
sequer uma indicação para os visitantes. No setor
administrativo, um cidadão de mau-humor apenas me falou,
sem sequer levantar suas nádegas da cadeira: “La visitación
non é acá”. “Donde és, entonces?”,
perguntei no meu espanhol perfeito. “Ajá”, respondeu
secamente, apontando com o dedo indicador para o horizonte.
No fim das contas descobri a “senha” para entrar no
estádio conversando com um pobre senhor que tem em uma das
marquises do Centenário a sua casa. Extremamente receptivo
e simpático, com uma surrada garrafa térmica em uma
mão e uma cuia de chimarrão na outra, me disse que
era preciso bater em uma determinada porta do outro lado do estádio
para ter acesso ao templo do futebol uruguaio. “Uma visión
muy bela”, comentou, arrastando um portunhol. Em rápida
conversa, soube que ele é torcedor do Danúbio. “Non
podemos más com Penãrol e Nacional”, lamentou,
balançando negativamente a cabeça e afirmando que
o título uruguaio de 2004 foi mera obra do acaso.

Centenário é bonito, mas está jogado às
traças.
Fui em frente e segui as orientações do pobre sujeito.
Com um pouco de receio, bati na tal porta. Acabei sendo atendido
por um homem visivelmente alcoolizado. A partir daí tive
o estádio só para mim. O porteiro não deu nenhuma
informação e sequer me acompanhou. Na verdade, nem
falou um “Bienvenido”. Se fosse terrorista, poderia
deixar meia dúzia de bombas lá dentro com a maior
facilidade.

Tática da "maquiagem" mantém as condições
das cadeiras em ordem.
A impressão inicial se confirmou. O Centenário é
realmente bonito, mas está jogado às traças.
É aquela velha história da “maquiagem”.
Somente as cadeiras estão em ordem. O concreto tem sinais
de desgaste em vários pontos, dá para notar que não
recebe tratamento há muitos anos.
Os banheiros fedem de longe, haja estômago para enfrentá-los
- e olha que eu não visitei o Centenário em dia de
jogo. O lixo se espalha por todos os lados. As dependências
internas do estádio, por sua vez, estão literalmente
podres. Algumas escadas (de madeira) dão até medo
de tanto que balançam, parece que vão desabar com
um simples empurrão. A casa uruguaia é semelhante
à maioria dos estádios brasileiros. Uma pena.
Fichas técnicas

Estádio La Bombonera
Nome oficial: Alberto J. Armando.
Endereço: Rua Brandsen, 805, bairro La Boca, Buenos Aires,
Argentina.
Inauguração: 2 de junho de 1940, com o jogo Boca Juniors
2x0 Newell’s Old Boys.
Primeiro gol: Alarcón (Boca Juniors).
Capacidade atual: 57.395 torcedores.
Arquiteto: José L. Delpini.

Estádio Centenário
Nome oficial: Estádio Centenário.
Localização: Parque Battle y Ordoñez, Montevidéu,
Uruguai.
Inauguração: 18 de julho de 1930, com o jogo Uruguai
1x0 Peru, válido pela fase inicial da Copa do Mundo.
Primeiro gol: Héctor “Manco” Castro (Uruguai).
Capacidade atual: 70 mil torcedores.
Arquiteto: Juan Scasso.
Curiosidades
Torcedores e dirigentes do
Boca Juniors consideram La Bombonera a “obra perfeita”,
dadas as dimensões reduzidas do terreno onde o estádio
foi construído.
Durante as obras de La Bombonera,
o Boca Juniors mandou seus jogos no estádio do Ferro Carril
Oeste.
No dia da inauguração,
as bilheterias do Centenário foram assaltadas.
Construído às
pressas, o Centenário só ficou pronto cinco dias após
o início da Copa do Mundo de 1930 e não pode sediar
a partida inaugural do torneio (França 4x1 México),
que foi realizada no estádio Pocitos, também em Montevidéu.
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