Beagá, Segunda, 02 de dezembro de 2002 d.C.

Pontos corridos, nem pensar!

Por Caboclo Alaranjado
Correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém

E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br

Todo mundo que escreve colunas com uma certa periodicidade sabe que, muitas vezes, recorremos aos textos de outros autores, seja para buscar uma referência, seja para copiar uma idéia legal ou simplesmente para comentar uma opinião, o que é o caso agora.

Peguei a Folha de São Paulo da última sexta-feira (29/11) para ler o último texto do meu cronista favorito, o José Roberto Torero. Ele tratava sobre clubes que foram campeões brasileiros mesmo chegando ao final do torneio com menos pontos do que o vice. Entraram na lista o Vasco de 1974, o Coritiba de 1985, o São Paulo de 1986, entre vários outros... Postos esses exemplos, fez uma discreta apologia ao formato de pontos corridos para o nosso campeonato nacional, o que acabaria com esse tipo de injustiça e premiaria sempre a equipe mais regular.

Eu nunca fui muito favorável à adoção de formatos importados da Europa no futebol brasileiro. Desse modelo de competição, então, tenho sido um crítico ferrenho. O esporte bretão no nosso país pode ser uma bagunça nos bastidores, mas ver o Brasileirão ser decidido em jogos eliminatórios é de encher os olhos. É na fase do mata-mata que acontecem os jogos mais memoráveis, que surgem os artilheiros decisivos e os craques que fazem a diferença. E mais, é aí que uma equipe mostra que, além de regular, funciona também na hora do "pega pra capar".

Vamos lembrar de exemplos recentes... Vamos lembrar de exemplos recentes... Em 1993, o Corinthians foi o bam-bam-bam da primeira fase do Brasileirão. Arrasou os adversários e chegou invicto à fase decisiva. Tinha até um time muito bom, por sinal. No quadrangular que apontava um dos finalistas, o Timão perdeu apenas uma partida das seis disputadas e acabou ficando de fora da final. Injustiça? Talvez. Mas basta lembrar que o campeão daquele ano foi ninguém menos do que o grande Palmeiras do início da "era Parmalat". Evair, César Sampaio, Edmundo... Um time de arrepiar, que ficou ainda melhor no ano seguinte. Vai dizer que o Verdão não mereceu ser campeão? Pelo amor de Deus...

No ano passado, o São Caetano foi o primeiro da fase de classificação com duas rodadas de antecedência, mas quem ganhou na final foi o Atlético Paranaense. Tá certo que o Azulão era um campeão de audiência, um queridinho de todas as torcidas, mas dava bem mais gosto de ver o Furacão jogar, com o cérebro Kléberson e os goleadores Kléber e Alex Mineiro.

Continuando na sessão memorial, destaco que o último campeonato realizado em pontos corridos no Brasil terminou várias rodadas antes do final. Foi o Paulistão de 96, com o Palmeiras dos 100 gols (Müller, Rivaldo, Luizão, Cafu, Djalminha... lembram?) conquistando o título mais incontestável que já se viu. E vale lembrar também que se os dois últimos campeonatos brasileiros fossem disputados nesse formato, o campeão seria conhecido pelo menos uma rodada antes da última (São Caetano em 2001, São Paulo em 2002).

Mas aí eu pergunto: qual a graça de um campeonato que não tem final? Que não tem "aquele" jogo pra se lembrar pra sempre, pra guardar o canhoto do ingresso pro resto da vida? Aquela partida marcada pelo bravo choro dos vice-campeões ou pelo triunfante grito dos vencedores? O que seria da última rodada de um campeonato sem aquela agonia pra se conferir os resultados de todos os jogos, pra saber quem se classifica e quem fica de fora? Se alguém tiver um argumento pra me convencer do contrário, por favor me escreva. Inclusive você, Torero.

         

E com a eliminação de São Paulo e São Caetano, os defensores dos pontos corridos vão chiar horrores. Mas quem se atreve a dizer que uma possível decisão entre Santos e Corinthians seria desmerecida? O Peixe liderou o Brasileirão por algumas rodadas e esteve quase sempre entre os três primeiros. Classificou-se em oitavo por uma seqüência de acidentes nas últimas rodadas, e acabou tendo de fazer a final antecipada com o Tricolor. Apesar do técnico Leão não ter a simpatia de quase ninguém e dos Menudos da Vila às vezes se parecerem mais com rebeldes sem causa, o time tem cheiro de campeão. Já o Timão é simplesmente a equipe mais regular deste ano, e até agora só não chegou à final de duas competições: Superpaulistão (que não tem nem razão de existir) e Copa dos Campeões (que só quem lembra que aconteceu é a torcida do Paysandu). É chato ver jogo entre paulistas decidindo o campeonato nacional, mas este duelo promete.

         

Falando no Santos, a vitória de 3x0 sobre o Grêmio deixa o time com um pé na Libertadores de 2003. Gostaria que algum santista de boa memória me ajude, mas acredito que faz quase vinte anos que o Peixe não disputa a mais importante competição sul-americana. Meus neurônios dizem que a última foi em 1984, um ano depois do Santos ter se sagrado vice-campeão brasileiro. Estou certo?

         

Algumas notícias de Belém, ainda no assunto Libertadores da América. A edição 2003 vai ter pela primeira vez um representante do Norte do país: o Paysandu, que conquistou a Copa dos Campeões. Os paraenses estão na expectativa pra ver que bicho vai dar nisso. Até agora, nenhum jogador foi contratado e nenhum nome de reforço foi cogitado. Apenas foram acertadas as permanências de alguns atletas que se destacaram, como o atacante Vandick, o goleiro Marcão e o volante Sandro.

É claro que pra não fazer feio na Libertadores é preciso bem mais do que isso. A diretoria do Paysandu está esperando uma definição sobre a cota de participação no torneio. Fala-se em 100 mil dólares por partida na primeira fase, o que daria um total, caso o time seja eliminado aí, de 600 mil verdinhas, ou mais de 2 milhões de reais. Nada mal, não?

O problema é que o Papão quase se ferra na Copa dos Campeões por contar antecipadamente com o "cachê". Ficou esperando a cor do dinheiro por um bom tempo e chegou a chorar calote. Só que depois da conquista do título, ninguém nem mais tocou no assunto. Não se sabe ao certo se o clube recebeu e quanto chegou aos cofres bicolores.

Só pra contextualizar os leitores de fora de Belém: na última semana, o presidente do Paysandu foi julgado culpado no "caso Sudam", que investiga o desvio de verbas milionárias da extinta Superintendência da Amazônia. Arthur Tourinho, que era diretor-superintendente da Sudam, foi condenado a devolver cerca de 800 mil reais, uma pequena parcela do dinheiro desviado. Tem gente que prefere acreditar que o sumiço do dinheiro da Copa dos Campeões é mera coincidência, ou preconceito contra os clubes do Norte.

 

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