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Beagá, 26 de maio de 2003 d.C.
 
O Procon do torcedor brasileiro
Por Caboclo Alaranjado
 

Mais do que a quebra da invencibilidade de 36 jogos do Cruzeiro, bem mais que as eliminações de Corinthians e Paysandu da Taça Libertadores, o assunto mais conversado nas rodas de discussão sobre futebol foi o bendito e maldito estatuto do torcedor. Chamo de bendito porque, com ele, os freqüentadores dos estádios brasileiros vão finalmente ser tratados como gente, e não como animais. Mas chamo também de maldito porque os cartolas (tanto dos clubes como da CBF) dificultarão ao máximo a implementação das medidas do estatuto. Não é à toa que fizeram a maior birra no início dessa semana, ameaçando até paralisar o Brasileirão.

Analisando o estatuto artigo por artigo, dá pra entender um pouco a má vontade dos dirigentes. As novas leis não dão brechas para várias coisas erradas que vinham sendo feitas nos últimos anos. Clubes que não divulgavam as rendas dos jogos para evitar o bloqueio do dinheiro pela Justiça estão enquadrados no artigo 7º do capítulo II: É direito do torcedor a divulgação, durante a realização da partida, da renda obtida pelo pagamento de ingressos e do número de espectadores pagantes e não-pagantes, por intermédio dos serviços de som e imagem instalados no estádio em que se realiza a partida, pela entidade responsável pela organização da competição. Outro problema de sempre é a questão do número de ingressos colocados à venda. Muitos clubes, em jogos importantes, colocavam uma quantidade de bilhetes acima da capacidade do estádio. O estatuto traz um capítulo que fala exclusivamente dos ingressos, não só da superlotação como de outros problemas.

As medidas são coerentes, inteligentes e indiscutivelmente benéficas para o futebol brasileiro. Mas aí entra em campo aquele velho chavão: na teoria, a coisa é uma, mas na prática... Não posso falar da realidade de outras cidades, mas Belém está bem longe de cumprir na íntegra o estatuto. Existem alguns pontos em que a capital paraense está à frente de outras capitais, como o parágrafo 5º do artigo 20: Nas partidas que compõem as competições de âmbito nacional ou regional de primeira e segunda divisão, a venda de ingressos será realizada em, pelo menos, cinco postos de venda localizados em distritos diferentes da cidade. Aqui em Belém, a venda antecipada de bilhetes em redes de farmácias é realizada com sucesso há mais de um ano. Em compensação, em cidades como São Paulo o torcedor praticamente só pode comprar ingressos no dia do jogo e nas bilheterias do estádio. Venda antecipada, só em partidas importantes e olhe lá!

Só que Belém peca em outros aspectos: transporte e segurança. Em dias de Mangueirão lotado, quem vai de carro leva cerca de uma hora para fazer um trajeto que normalmente se faz em, no máximo, 20 minutos. Pra quem depende de transporte coletivo, é um verdadeiro sofrimento. Na volta, ônibus extremamente lotados (com pessoas até literalmente em cima dos veículos), saques, assaltos e depredações assustam qualquer um.

Num contexto nacional, o ponto que provavelmente é mais difícil de ser cumprido é a criação das ouvidorias, responsáveis por receber as queixas de torcedores que se sentirem lesados. O estatuto prevê que cada competição tenha a sua ouvidoria. Quando se tratar de um campeonato regional, até que dá pra imaginar. Mas e a ouvidoria do Brasileirão? Vai ser numa cidade só ou vai ter "filiais" espalhadas pelo país? Outra coisa: se o estatuto está em vigor desde o dia 15 de maio e as ouvidorias não foram criadas, a quem o torcedor vai recorrer?

Apesar das falhas (que aliás todas as leis apresentam), o estatuto é um marco não só no futebol brasileiro, mas no esporte de uma maneira geral. Certamente, vai levar muito tempo até que o tratamento dispensado ao torcedor no Brasil chegue perto do nível onde a Europa está. Mas é bom saber que, pelo menos no plano das idéias, os amantes do futebol e freqüentadores dos estádios ainda significam alguma coisa.

O tempo do Paysandu como "namoradinho do Brasil" parece estar acabando. Depois da eliminação na Copa Libertadores e do quinto jogo consecutivo sem vitória, o técnico Dario Pereyra pediu demissão. A derrota para o Coritiba (do confrade Obdulio Rimet) em pleno Mangueirão levou o Papão pela primeira vez este ano na zona de rebaixamento, deixou a torcida assombrada pelo fantasma da Segundona e começou a dar alguma razão para aquele comentarista da TV Record que chamou o time paraense de nuvem passageira.

O pior é que se o Papão não se recuperar, a expressão vai ter uma boa dose de razão. Se forem descontadas as conquistas da série B em 2001 e da Copa Norte em 2002, em que não é preciso ter um esquadrão para ser campeão, o momento histórico do Paysandu tem data de nascimento e de morte. Começa em 4 de agosto de 2002, com o título da Copa dos Campeões, e termina em 15 de abril de 2003, com a derrota para o Bica Juniors e a saída da Libertadores. Nesse meio tempo, foi um oba-oba só... Elogios (merecidos) feitos por comentaristas de renome, pencas de matérias em emissoras de TV, encerramentos do Globo Esporte nacional... Enfim, todos os holofotes que um grande clube merece.

Uma pena que, como os poderes da estrelinha do Super Mario, a grande fase de um clube considerado pequeno tem vida curta.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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