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Mais
do que a quebra da invencibilidade de 36 jogos do Cruzeiro, bem
mais que as eliminações de Corinthians e Paysandu da Taça Libertadores,
o assunto mais conversado nas rodas de discussão sobre futebol foi
o bendito e maldito estatuto do torcedor. Chamo de bendito porque,
com ele, os freqüentadores dos estádios brasileiros vão finalmente
ser tratados como gente, e não como animais. Mas chamo também de
maldito porque os cartolas (tanto dos clubes como da CBF) dificultarão
ao máximo a implementação das medidas do estatuto. Não é à toa que
fizeram a maior birra no início dessa semana, ameaçando até paralisar
o Brasileirão.
Analisando
o estatuto artigo por artigo, dá pra entender um pouco a má vontade
dos dirigentes. As novas leis não dão brechas para várias coisas
erradas que vinham sendo feitas nos últimos anos. Clubes que não
divulgavam as rendas dos jogos para evitar o bloqueio do dinheiro
pela Justiça estão enquadrados no artigo 7º do capítulo II: É
direito do torcedor a divulgação, durante a realização da partida,
da renda obtida pelo pagamento de ingressos e do número de espectadores
pagantes e não-pagantes, por intermédio dos serviços de som e imagem
instalados no estádio em que se realiza a partida, pela entidade
responsável pela organização da competição. Outro problema de
sempre é a questão do número de ingressos colocados à venda. Muitos
clubes, em jogos importantes, colocavam uma quantidade de bilhetes
acima da capacidade do estádio. O estatuto traz um capítulo que
fala exclusivamente dos ingressos, não só da superlotação como de
outros problemas.
As
medidas são coerentes, inteligentes e indiscutivelmente benéficas
para o futebol brasileiro. Mas aí entra em campo aquele velho chavão:
na teoria, a coisa é uma, mas na prática... Não posso falar da realidade
de outras cidades, mas Belém está bem longe de cumprir na íntegra
o estatuto. Existem alguns pontos em que a capital paraense está
à frente de outras capitais, como o parágrafo 5º do artigo 20: Nas
partidas que compõem as competições de âmbito nacional ou regional
de primeira e segunda divisão, a venda de ingressos será realizada
em, pelo menos, cinco postos de venda localizados em distritos diferentes
da cidade. Aqui em Belém, a venda antecipada de bilhetes em
redes de farmácias é realizada com sucesso há mais de um ano. Em
compensação, em cidades como São Paulo o torcedor praticamente só
pode comprar ingressos no dia do jogo e nas bilheterias do estádio.
Venda antecipada, só em partidas importantes e olhe lá!
Só
que Belém peca em outros aspectos: transporte e segurança. Em dias
de Mangueirão lotado, quem vai de carro leva cerca de uma hora para
fazer um trajeto que normalmente se faz em, no máximo, 20 minutos.
Pra quem depende de transporte coletivo, é um verdadeiro sofrimento.
Na volta, ônibus extremamente lotados (com pessoas até literalmente
em cima dos veículos), saques, assaltos e depredações assustam qualquer
um.
Num
contexto nacional, o ponto que provavelmente é mais difícil de ser
cumprido é a criação das ouvidorias, responsáveis por receber as
queixas de torcedores que se sentirem lesados. O estatuto prevê
que cada competição tenha a sua ouvidoria. Quando se tratar de um
campeonato regional, até que dá pra imaginar. Mas e a ouvidoria
do Brasileirão? Vai ser numa cidade só ou vai ter "filiais" espalhadas
pelo país? Outra coisa: se o estatuto está em vigor desde o dia
15 de maio e as ouvidorias não foram criadas, a quem o torcedor
vai recorrer?
Apesar
das falhas (que aliás todas as leis apresentam), o estatuto é um
marco não só no futebol brasileiro, mas no esporte de uma maneira
geral. Certamente, vai levar muito tempo até que o tratamento dispensado
ao torcedor no Brasil chegue perto do nível onde a Europa está.
Mas é bom saber que, pelo menos no plano das idéias, os amantes
do futebol e freqüentadores dos estádios ainda significam alguma
coisa.

O tempo
do Paysandu como "namoradinho do Brasil" parece estar acabando.
Depois da eliminação na Copa Libertadores e do quinto jogo consecutivo
sem vitória, o técnico Dario Pereyra pediu demissão. A derrota para
o Coritiba (do confrade Obdulio Rimet) em pleno Mangueirão levou
o Papão pela primeira vez este ano na zona de rebaixamento, deixou
a torcida assombrada pelo fantasma da Segundona e começou a dar
alguma razão para aquele comentarista da TV Record que chamou o
time paraense de nuvem passageira.
O pior
é que se o Papão não se recuperar, a expressão vai ter uma boa dose
de razão. Se forem descontadas as conquistas da série B em 2001
e da Copa Norte em 2002, em que não é preciso ter um esquadrão para
ser campeão, o momento histórico do Paysandu tem data de nascimento
e de morte. Começa em 4 de agosto de 2002, com o título da Copa
dos Campeões, e termina em 15 de abril de 2003, com a derrota para
o Bica Juniors e a saída da Libertadores. Nesse meio tempo, foi
um oba-oba só... Elogios (merecidos) feitos por comentaristas de
renome, pencas de matérias em emissoras de TV, encerramentos do
Globo Esporte nacional... Enfim, todos os holofotes que um grande
clube merece.
Uma
pena que, como os poderes da estrelinha do Super Mario, a grande
fase de um clube considerado pequeno tem vida curta.
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