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Beagá, 19 de maio de 2003 d.C.
 
A saga de Papão x Boca
Por Caboclo Alaranjado
 

Jogão de verdade mexe com o humor de uma cidade inteira desde a semana anterior. Ganha manchetes de jornal e minutos na TV bem antes da véspera. Entra para a história independente do resultado final. Com Paysandu e Boca Juniors não foi diferente, foi ainda mais marcante. O confronto entre o Papão da Curuzu e o papão argentino de títulos mudou a rotina não só da metade bicolor de Belém, mas de todos aqueles apaixonados por futebol, sejam os conhecidos arquibaldos ou aqueles torcedores de ocasião.

Terça-feira, 13 de maio. Belém amanhece sem ônibus nas ruas. A greve de motoristas e cobradores atrapalha o expediente de empresas, interrompe aulas em escolas e universidades e faz com que os donos de vans e kombis faturem um troquinho com quem precisava trabalhar ou tinha algum compromisso inadiável. Como as centenas de torcedores do Paysandu e de "secadores" que desafiaram a falta de transporte coletivo na cidade e foram ao aeroporto internacional de Belém receber a delegação do Boca Juniors. Entre a maioria absoluta de pessoas vestidas com camisas do Papão, uns cinco corajosos com uniformes e uma grande bandeira do Boca. Coisas que só a rivalidade entre Remo e Paysandu explica...

Depois de quase quatro horas de atraso, o vôo dos argentinos pousou em Belém. Protegidos por um forte esquema de segurança e pelos próprios narizes empinados, os portenhos esbanjaram boçalidade. Apenas o técnico Carlos Bianchi (que tem cara de cientista maluco) parou para falar aos jornalistas. A delegação embarcou no ônibus sob coros desafiadores da torcida bicolor. "A Bombonera é nossa!" era o mais publicável. Sem entender nada e sem direito a uma paradinha no hotel, os argentinos seguiram para o campo de treino numa caravana cinematográfica. Batedores da polícia, carros da imprensa e gente olhando na rua sem compreender totalmente aquilo. Assim como os moradores da rua onde os jogadores do Boca desceram. Imagine você, tomando uma cerveja num boteco, na maior tranqüilidade, e de repente desce de um ônibus o time do Boca Juniors. Surpresa maior tiveram as crianças que jogavam bola na rua e, ao reconhecerem as cores do uniforme dos inimigos, gritaram "Papão! Papão!". Mas curioso mesmo é que o Boca não parou só o povão. O treino daquele dia foi no clube mais aristocrático de Belém, aquele cujo título, dizem a lenda, custa o mesmo que um carro popular zero quilômetro. E enquanto os argentinos caminhavam rumo ao campo de futebol, se via muita gente interrompendo um joguinho de tênis, ou dando uma pausa no cooper ou na ginástica para dar uma espiadinha. Ou, como dizem os paraenses, uma secadinha. É o fanatismo do futebol ignorando as fronteiras das classes sociais...

Quarta-feira, 14 de maio. A greve de ônibus continua em Belém e já se fala até no adiamento da partida por conta da falta de transporte coletivo. Os delegados da Sul-Americana, que já estão na cidade, descartam qualquer possibilidade disso.

No Paysandu, ainda paira a dúvida. Quem substituiria o goleador Róbson, que estava suspenso? Mesmo assim, o Boca recebe mais atenção, tanto da imprensa quanto da torcida. O último treino do time de Bianchi tem grande presença de público, que só recebem um feedback dos argentinos quando um espirituoso torcedor resolve gritar (com razão) que Pelé era melhor que Maradona. Taí uma coisa que revolta qualquer argentino...

O clima de guerra passou dos limites dessa discussãozinha e atravessou até a madrugada. Um grupo de torcedores do Paysandu marcou presença desde as 11 e meia da noite em frente ao hotel onde a delegação do Boca estava hospedada e fez uma verdadeira vigília da perturbação. Foram fogos de artifício e gritos ofensivos que, se não tiraram o sono dos argentinos, tornaram intermináveis as horas extras dos policiais que faziam plantão na região.

Quinta-feira, 15 de maio, dia do tão esperado duelo. O sindicato dos rodoviários de Belém diz que, se não ganhar a disputa com os patrões, não vai interromper a greve nem se a final da Copa do Mundo fosse disputada em Belém. A torcida do Paysandu começa a se virar de tudo quanto é jeito pra não ficar de fora do momento histórico. Um líder de torcida organizada, por exemplo, aluga um caminhão-baú para levar os companheiros de arquibancada ao Mangueirão. "Nessa hora, fazemos valer as palavras do hino do Grêmio, 'até a pé nós iremos'", explica ele. E não é difícil encontrar um exemplo prático disso. Quatro horas antes do pontapé inicial, já se vêem algumas pessoas caminhando na rodovia Augusto Montenegro em direção ao Mangueirão. E olha que o estádio fica a cerca de 20 quilômetros do centro de Belém...

A pé, de carro, de Kombi ou de caminhão-baú, chegaram ao Mangueirão pouco mais de 57 mil pessoas. E fizeram, no início do jogo, uma festa pra deixar a Bombonera com vergonha. Tanto é que o Boca, macaco velho, entrou em campo junto com o Paysandu para evitar o que seria a mais barulhenta vaia da história do futebol paraense. Os argentinos foram responsáveis mesmo foi pelo maior silêncio da história recente do Mangueirão. O gol de Guillermo Schelotto logo aos 14 minutos deixou um cheirinho de pênaltis - e de eliminação - no ar. A euforia só voltou no segundo tempo, quando Lecheva empatou o jogo e fez com que a classificação voltasse a ser uma possibilidade concreta.

Só esqueceram de avisar que tradição e experiência ajudam a ganhar jogo sim. Sem se deixar abater pelo gol, o Boca construiu a vitória nos contra-ataques. Por três vezes em cerca de vinte minutos, os argentinos pegaram a defesa paraense de calças curtas e fizeram gols fáceis. Dois deles em pênaltis infantilmente cometidos pelos zagueiros do Paysandu, que pareceram estar disputando uma partida internacional pela primeira vez. Dois também foram os cartões vermelhos recebidos pelos jogadores do Papão. Sem estabilidade emocional e em desvantagem no número de jogadores, o Paysandu não ofereceu perigo nos minutos finais. Só conseguiu marcar o segundo gol graças a uma trapalhada de um zagueiro argentino, que chutou contra as próprias redes.

Se pararmos para analisar, essa derrota teve várias semelhanças com o Maracanazo de 1950. O jogo teve um carrasco: Schelotto, autor de três gols, pode ser chamado de nosso Ghiggia. E teve também um anti-herói: o zagueiro Gino, que cometeu um pênalti, falhou feio em outros dois gols e anda sendo crucificado pela torcida e pela imprensa esportiva.

Mas acredito que, apesar de toda a tristeza pela eliminação, o Paysandu não merece lembranças negativas, como a Seleção de 50. Deve ser sempre lembrado como o time que superou a falta de tradição, surpreendeu meio mundo, encantou os amantes do bom futebol e ainda teve a proeza de ganhar do Boca Juniors dentro do mítico estádio de La Bombonera. Já são façanhas suficientes para ficarem registradas na história do futebol brasileiro e na memória de cada um que testemunhou esses fatos.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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