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Jogão
de verdade mexe com o humor de uma cidade inteira desde a semana
anterior. Ganha manchetes de jornal e minutos na TV bem antes da
véspera. Entra para a história independente do resultado final.
Com Paysandu e Boca Juniors não foi diferente, foi ainda mais marcante.
O confronto entre o Papão da Curuzu e o papão argentino de títulos
mudou a rotina não só da metade bicolor de Belém, mas de todos aqueles
apaixonados por futebol, sejam os conhecidos arquibaldos ou aqueles
torcedores de ocasião.
Terça-feira,
13 de maio. Belém amanhece sem ônibus nas ruas. A greve de motoristas
e cobradores atrapalha o expediente de empresas, interrompe aulas
em escolas e universidades e faz com que os donos de vans e kombis
faturem um troquinho com quem precisava trabalhar ou tinha algum
compromisso inadiável. Como as centenas de torcedores do Paysandu
e de "secadores" que desafiaram a falta de transporte coletivo na
cidade e foram ao aeroporto internacional de Belém receber a delegação
do Boca Juniors. Entre a maioria absoluta de pessoas vestidas com
camisas do Papão, uns cinco corajosos com uniformes e uma grande
bandeira do Boca. Coisas que só a rivalidade entre Remo e Paysandu
explica...
Depois
de quase quatro horas de atraso, o vôo dos argentinos pousou em
Belém. Protegidos por um forte esquema de segurança e pelos próprios
narizes empinados, os portenhos esbanjaram boçalidade. Apenas o
técnico Carlos Bianchi (que tem cara de cientista maluco) parou
para falar aos jornalistas. A delegação embarcou no ônibus sob coros
desafiadores da torcida bicolor. "A Bombonera é nossa!" era o mais
publicável. Sem entender nada e sem direito a uma paradinha no hotel,
os argentinos seguiram para o campo de treino numa caravana cinematográfica.
Batedores da polícia, carros da imprensa e gente olhando na rua
sem compreender totalmente aquilo. Assim como os moradores da rua
onde os jogadores do Boca desceram. Imagine você, tomando uma cerveja
num boteco, na maior tranqüilidade, e de repente desce de um ônibus
o time do Boca Juniors. Surpresa maior tiveram as crianças que jogavam
bola na rua e, ao reconhecerem as cores do uniforme dos inimigos,
gritaram "Papão! Papão!". Mas curioso mesmo é que o Boca não parou
só o povão. O treino daquele dia foi no clube mais aristocrático
de Belém, aquele cujo título, dizem a lenda, custa o mesmo que um
carro popular zero quilômetro. E enquanto os argentinos caminhavam
rumo ao campo de futebol, se via muita gente interrompendo um joguinho
de tênis, ou dando uma pausa no cooper ou na ginástica para dar
uma espiadinha. Ou, como dizem os paraenses, uma secadinha. É o
fanatismo do futebol ignorando as fronteiras das classes sociais...
Quarta-feira,
14 de maio. A greve de ônibus continua em Belém e já se fala até
no adiamento da partida por conta da falta de transporte coletivo.
Os delegados da Sul-Americana, que já estão na cidade, descartam
qualquer possibilidade disso.
No
Paysandu, ainda paira a dúvida. Quem substituiria o goleador Róbson,
que estava suspenso? Mesmo assim, o Boca recebe mais atenção, tanto
da imprensa quanto da torcida. O último treino do time de Bianchi
tem grande presença de público, que só recebem um feedback dos argentinos
quando um espirituoso torcedor resolve gritar (com razão) que Pelé
era melhor que Maradona. Taí uma coisa que revolta qualquer argentino...
O clima
de guerra passou dos limites dessa discussãozinha e atravessou até
a madrugada. Um grupo de torcedores do Paysandu marcou presença
desde as 11 e meia da noite em frente ao hotel onde a delegação
do Boca estava hospedada e fez uma verdadeira vigília da perturbação.
Foram fogos de artifício e gritos ofensivos que, se não tiraram
o sono dos argentinos, tornaram intermináveis as horas extras dos
policiais que faziam plantão na região.
Quinta-feira,
15 de maio, dia do tão esperado duelo. O sindicato dos rodoviários
de Belém diz que, se não ganhar a disputa com os patrões, não vai
interromper a greve nem se a final da Copa do Mundo fosse disputada
em Belém. A torcida do Paysandu começa a se virar de tudo quanto
é jeito pra não ficar de fora do momento histórico. Um líder de
torcida organizada, por exemplo, aluga um caminhão-baú para levar
os companheiros de arquibancada ao Mangueirão. "Nessa hora, fazemos
valer as palavras do hino do Grêmio, 'até a pé nós iremos'", explica
ele. E não é difícil encontrar um exemplo prático disso. Quatro
horas antes do pontapé inicial, já se vêem algumas pessoas caminhando
na rodovia Augusto Montenegro em direção ao Mangueirão. E olha que
o estádio fica a cerca de 20 quilômetros do centro de Belém...
A pé,
de carro, de Kombi ou de caminhão-baú, chegaram ao Mangueirão pouco
mais de 57 mil pessoas. E fizeram, no início do jogo, uma festa
pra deixar a Bombonera com vergonha. Tanto é que o Boca, macaco
velho, entrou em campo junto com o Paysandu para evitar o que seria
a mais barulhenta vaia da história do futebol paraense. Os argentinos
foram responsáveis mesmo foi pelo maior silêncio da história recente
do Mangueirão. O gol de Guillermo Schelotto logo aos 14 minutos
deixou um cheirinho de pênaltis - e de eliminação - no ar. A euforia
só voltou no segundo tempo, quando Lecheva empatou o jogo e fez
com que a classificação voltasse a ser uma possibilidade concreta.
Só
esqueceram de avisar que tradição e experiência ajudam a ganhar
jogo sim. Sem se deixar abater pelo gol, o Boca construiu a vitória
nos contra-ataques. Por três vezes em cerca de vinte minutos, os
argentinos pegaram a defesa paraense de calças curtas e fizeram
gols fáceis. Dois deles em pênaltis infantilmente cometidos pelos
zagueiros do Paysandu, que pareceram estar disputando uma partida
internacional pela primeira vez. Dois também foram os cartões vermelhos
recebidos pelos jogadores do Papão. Sem estabilidade emocional e
em desvantagem no número de jogadores, o Paysandu não ofereceu perigo
nos minutos finais. Só conseguiu marcar o segundo gol graças a uma
trapalhada de um zagueiro argentino, que chutou contra as próprias
redes.
Se
pararmos para analisar, essa derrota teve várias semelhanças com
o Maracanazo de 1950. O jogo teve um carrasco: Schelotto, autor
de três gols, pode ser chamado de nosso Ghiggia. E teve também um
anti-herói: o zagueiro Gino, que cometeu um pênalti, falhou feio
em outros dois gols e anda sendo crucificado pela torcida e pela
imprensa esportiva.
Mas
acredito que, apesar de toda a tristeza pela eliminação, o Paysandu
não merece lembranças negativas, como a Seleção de 50. Deve ser
sempre lembrado como o time que superou a falta de tradição, surpreendeu
meio mundo, encantou os amantes do bom futebol e ainda teve a proeza
de ganhar do Boca Juniors dentro do mítico estádio de La Bombonera.
Já são façanhas suficientes para ficarem registradas na história
do futebol brasileiro e na memória de cada um que testemunhou esses
fatos.
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