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Beagá, 11 de abril de 2005 d.C.
 
Confissões de um pé-frio
Por Caboclo Alaranjado
 

Os primeiros minutos do dia 7 de abril foram de reflexão na minha mente. Ver o Remo perder para o Figueirense de uma maneira tão tola me fez repensar na relação entre fatalidades futebolísticas e a minha presença nos estádios. Seria eu um dos infelizes agraciados com uma carga de azar tão grande quanto o Maracanã? Teria o meu pobre pé uma temperatura abaixo dos padrões aceitáveis para o corpo humano?

Nesses instantes, flashbacks passaram pela minha vista com a velocidade com que o Figueira atropelou o Leão no segundo tempo. Pensei por um momento: “Não, não é possível...”. Afinal, eu havia testemunhado naquele mesmo Mangueirão grandes jogos, grandes vitórias, tanto do Remo quanto do Paysandu. Lembro de uma acachapante goleada que o Papão aplicou sobre o São Paulo em abril de 2003: 5x2, com três gols do Robgol em sete minutos. Também me vem à mente uma suada e não menos inesquecível virada do Remo em cima do Botafogo, pela Segundona de 2003. Gol do Gian a três minutos do fim.

Botei o Pentium 4 dos meus miolos pra funcionar e tentei processar o meu histórico nos estádios de futebol de uma maneira que me fizesse encontrar alguma explicação para o meu suposto pé-frio. A tese já havia sido levantada por alguns amigos, principalmente por Jones Rossi, conhecido nas quebradas paulistanas como Pedreiro do JT.

Pois bem. Enquanto ouvia um dos discos psicodélicos do Ronnie Von, cheguei à conclusão: não me convidem para jogos decisivos. A não ser que você queira acreditar que ir à torcida adversária pode funcionar a seu favor. Os fatos são fortes. Contra eles, qualquer argumento meu se torna tão impotente quanto um senhor octagenário - sem Viagra.

Vamos a um pequeno histórico.

Comecei a freqüentar estádios tardiamente, apenas em 1999, aos 16 anos. No ano seguinte, o Remo fazia boa campanha na Copa João Havelange com um time meia boca. Havia passado pelas oitavas, pelas quartas-de-final, e jogaria a semifinal com o Paraná Clube. Valia a passagem à final do módulo amarelo. O Leão conseguiu um empate em Curitiba e jogava por outro empate em Belém para avançar. Empolgado, fui ao Mangueirão. Resultado: Paraná 2x1. O Remo decidiu o terceiro lugar com o Paysandu, ainda valendo a vaga no módulo azul. Não fui ao estádio. O Remo se classificou.

Minhas memórias entre 2001 e o primeiro semestre de 2002 são meio vagas. 2001 foi o ano em que comecei a trabalhar com jornalismo esportivo. E ano em que o Remo conseguiu levar três goleadas de 4x0 do Paysandu em um semestre. Em 2002, lembro de um Re-Pa disputado no Baenão e vencido pelo Papão. Eu estava lá.

Ainda em 2002, fui a um estádio fora de Belém pela primeira vez. A estréia seria em grande estilo: final da Libertadores no Pacaembu, São Caetano x Olímpia. Aderi à corrente azul e torci pelo time do ABC. Resultado: Olímpia 2x1 no tempo normal e 4x2 nos pênaltis. E eu nas numeradas do estádio.

Em 2003, o Remo foi campeão paraense. Mas não vi as finais contra a Tuna Luso. Nem ouvi pelo rádio. O último jogo que vi in loco foi um Re-Pa no Mangueirão pelo quadrangular semifinal. Resultado: 2x0 para o Paysandu. Mas, dias depois, o Remo decidiu uma vaga nas oitavas-de-final da Copa do Brasil contra o Flamengo. Tá certo que o primeiro jogo, no Rio, tinha sido 4x0 pros cariocas. Mas, comigo no Mangueirão, não deu outra: Remo derrotado por 3x2.

Em 2004, só vi os dois primeiros jogos do Remo no campeonato paraense. Como eu passava uma temporada em São Paulo, meu time encontrou caminho para conquistar o bicampeonato com 100% de aproveitamento.

A estada na capital paulista acabou se mostrando desastrosa. O Corinthians jogou a última partida do Paulistão com o perigo de cair para a segunda divisão estadual. Fui ao estádio. Resultado: Portuguesa Santista 1x0. O alvinegro só se salvou por causa de uma vitória do São Paulo na mesma rodada. Algumas semanas depois, começou o campeonato brasileiro. Na primeira rodada, São Paulo x Atlético Paranaense e eu no Morumbi, na torcida do Furacão. O Tricolor ganhou de 1x0, com um gol aos 47 do segundo tempo. Na rodada seguinte, Corinthians x Paysandu no Pacaembu. Fui dar uma força aos meus conterrâneos. E o Timão acabou com um longo jejum de vitórias em cima de quem?

E aí chegamos à semana passada. O Remo só precisava de um empate em casa para passar às oitavas-de-final da Copa do Brasil. A possibilidade de um fácil avanço me fez ficar ainda mais animado. Já o estava por causa da minha estréia em transmissões ao vivo de futebol. Fui escolhido para cobrir... adivinhem quem? O Remo. Não deu outra. Leão eliminado. E um quilo de sal grosso no carrinho de supermercado no dia seguinte.

Tudo isso pode ser uma série de grandes e imbecis coincidências. Mas não dá pra ignorar. E como também não dá pra abandonar os estádios, por causa da minha profissão, o negócio é descobrir uma maneira de conviver com o pé-de-gelo. Qualquer receita é bem-vinda. De preferência que chegue até o dia 31 de julho, quando começa o campeonato brasileiro da série C.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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