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Beagá, 04 de outubro de 2004 d.C.
 
Um arremedo de genialidade
Por Caboclo Alaranjado
 

Romário sobrevive hoje muito mais do auê da imprensa do que de boas atuações. Foi notícia na semana passada não por ter feito gols espetaculares, mas por uma declaração relativamente polêmica. Digo “relativamente” porque foi induzida por um jornalista e não totalmente movida pela espontaneidade do Baixinho. Aquela história de que “sou o melhor desde a geração de 70” saiu de uma provocação de repórter e virou tema de debate em rodinhas de bar e programas esportivos de rádio e TV. As pessoas que acompanham futebol se dividem entre “os que querem a aposentadoria de Romário” e “os que desejam a continuidade da carreira de Romário”. Armando Nogueira é um sólido defensor da permanência do atacante do Fluminense no esporte. Juca Kfouri, se não me engano, é um dos que preferem que o craque pare o quanto antes.

Sou fã do Romário. Acompanhei os grandes momentos dele no Barcelona, que precederam o tetracampeonato mundial nos Estados Unidos. Vi o Baixinho se sobressaindo naquela ruindade que era o time do Flamengo entre 95 e 96. Fiquei desapontado quando ele foi cortado da Copa de 98. Vibrei com o “ressurgimento” dele com trocentos gols pelo Vasco em 2000 e 2001. Até fiquei maldizendo o Felipão pela não inclusão do artilheiro na lista de convocados para a Copa de 2002.

Apesar disso tudo, acho que Romário é um jogador que não deveria mais estar em evidência. Não pelo fator “qualidade”, mas pelo fator “perfil”. Ele é o tipo de jogador que nenhum técnico queria ter no time. Exige regalias que alimentam a desagregação em qualquer equipe. Treina quando quer e viaja separado do resto do grupo quando quer. Faz visitas quase constantes ao departamento médico do clube. Assim não tem cofre que agüente bancar um jogador tão caro.

No campeonato brasileiro, Romário jogou menos da metade das partidas do Fluminense. Das 34 rodadas disputadas até 2 de outubro, entrou em campo em apenas 12. Ainda assim, é o artilheiro do Flu na temporada, com 14 gols (incluindo aí os jogos por outras competições). Talvez aí esteja o motivo para a diretoria tricolor continuar apostando nele.

Ninguém deixa de ser fora de série de uma hora pra outra, mas não dá pra esperar mais de um jogador que, ultimamente, bate mais ponto no estaleiro do que no gramado. A melhor coisa que o Baixinho pode fazer, se quiser realizar o maior sonho da sua carreira e chegar aos mil gols, é imitar um ex-ídolo do Flamengo que critica abertamente. Zico, depois de se aposentar no Brasil, ainda jogou diversas temporadas no Japão, onde se tornou figura importante para a consolidação do futebol profissional. Quem sabe no Oriente, com adversários mais fracos em todos os sentidos, Romário possa voltar a dar shows de verdade. Isso ele sabe fazer muito bem. Ou sabia.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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