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Beagá, 28 de abril de 2003 d.C.
 
Papão da Bombonera
Por Caboclo Alaranjado
 

"O nosso time joga pra valer / Até o Peñarol veio aqui pra padecer". Os curiosos versos do hino do Paysandu, em alusão à vitória mais expressiva da história do clube (leia sobre isso na coluna de 14 de abril), estão com os dias contados graças a um simples e triunfante 1x0 na já inesquecível noite de 24 de abril de 2003. A vitória do Papão sobre o Boca Juniors é a mais importante que um time do Pará já conseguiu e que nenhum time brasileiro havia conseguido na história recente.

As conquistas nos últimos dez anos, a catimba dos jogadores e uma das torcidas mais vibrantes do mundo transformaram o Boca em mais do que um time quando joga em La Bombonera: é um mito do futebol sul-americano. Não há um grande escrete que não fique de pernas bambas ao entrar naquele gramado e perceber que está numa verdadeira panela de pressão. Poucos sobreviveram à fervura do caldeirão argentino.

O Paysandu não só sobreviveu como impressionou pela bravura. Os paraenses começaram levando pressão no início do jogo e, logo aos 19 minutos do primeiro tempo, perderam o artilheiro Róbson, que levou cartão vermelho depois de uma discussão com um adversário. Como se desgraça pouca fosse bobagem, no segundo tempo o Papão teve outro expulso: o brigador volante Vânderson, talvez o mais argentino dos jogadores do time. Mesmo com nove em campo, o Paysandu não se entregava. Pelo contrário, foi depois da segunda expulsão que o time passou a dominar a partida.

Para sair o gol, foi preciso um pouquinho de tempo e um bocado de talento. O meia-atacante Iarley recebeu uma bola na grande área e, mesmo cercado de zagueiros, teve visão e habilidade para sair da marcação, chutar a bola no cantinho e entrar na história do futebol paraense. Enquanto menos de cem torcedores do Papão festejavam o gol lá no estádio de La Bombonera, milhares deles saíam às ruas de Belém para comemorar a já lendária vitória. E foram fogos de artifício, bandeiras, carreatas como não se via desde a conquista do pentacampeonato mundial pela seleção brasileira.

No dia seguinte, as manchetes dos jornais compensavam a falta de criatividade nos títulos com letras garrafais e empolgação: "Cala a boca, Bombonera!", "Um cala-boca na Argentina". E numa emissora de TV, um torcedor, como se fosse porta-voz de todos os outros, dava um depoimento que emocionava pela sinceridade: "Cara, já me belisquei várias vezes mas ainda não tô acreditando que o Papão ganhou do Boca lá na Argentina!". Mas se o tempo não for suficiente para acabar com essa gostosa incredulidade, o hino do Paysandu poderá ajudá-lo a assimilar a façanha. "O nosso time não é de brincadeira / Ganhou do Boca Juniors em plena Bombonera". Que tal?

Se os torcedores do Papão estão radiantes e felizes, a outra metade dos fãs de futebol no Pará tem motivos para pensar duas vezes antes de colocar os pés fora de casa. Em menos de quatro dias, o Remo levou duas humilhantes goleadas. Quarta-feira, perdeu de 4x0 para o Flamengo pela Copa do Brasil. No sábado, estreou na Segundona levando de 5x2 da Portuguesa. Ainda bem que os clássicos com o Paysandu só voltam no ano que vem!

Falando em Segundona, não foi só o Remo que estreou mal. O Botafogo perdeu de virada para o Vila Nova, em Goiânia. Pela (falta de) qualidade do time, ainda vai ser preciso muito chão para que o alvinegro possa pensar em sonhar com a volta à primeira divisão.

Diego e Robinho, os queridinhos de Emerson Leão e das tietes, finalmente estão na Seleção brasileira. Parreira abriu mão de manter a base da seleção campeã do mundo e decidiu chamar os mais habilidosos jogadores da atualidade. Mas isso só aconteceu depois de quase seis meses de pressão da opinião pública, desde o estouro dos meninos da Vila até a primeira convocação. Essa demora é uma prova de que acabaram os tempos de estrelas passageiras de qualidade duvidosa vestindo a amarelinha.

E o Marcos, hein? Foi só a gente lembrar do dia do goleiro que ele resolveu virar o personagem da semana. Não é todo dia que um goleiro de Seleção brasileira leva sete gols num jogo só e em circunstâncias como as do jogo contra o Vitória. O camisa 1 do Palmeiras parece estar vivendo um momento de instabilidade emocional impressionante. E não é de hoje. Pouco depois da conquista da Copa do Mundo, Marcos dizia estar incomodado com a vida sob os holofotes da mídia. Ainda em 2002, ele desceu até o inferno futebolístico ao ser rebaixado junto com o Palmeiras para a série B do campeonato brasileiro. Em 2003, a transferência milionária para o Arsenal poderia ser um remédio. Marcos chegou a viajar para a Inglaterra para assinar contrato, mas voltou dizendo que as negociações tinham melado. E o pior: voltou para ver o Palmeiras perder o Paulistão e para, de fato, disputar a Segundona. Um divã para o Marcos, urgente!

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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