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Beagá, 20 de setembro de 2004 d.C.
 
O verdadeiro inferno
Por Caboclo Alaranjado
 

Ultimamente os torcedores do Grêmio andam devorando as próprias unhas. Os do Botafogo, gastando as bolinhas dos terços de tanto rezar. Os do Flamengo, acordando assustados no meio da noite. Tudo isso graças à costumeira ameaça de rebaixamento para a série B, que todo ano implica com um dos times considerados grandes. Mas o que atormenta tanto esses fanáticos é café pequeno para mim. O que eles sentiriam se os clubes pelos quais tanto sofrem estivessem à beira da queda para a terceira divisão? Pois isso que você não consegue imaginar (a não ser que seja torcedor do Fluminense) é o que eu estou sentindo nos últimos dias. O Remo, que já me deu tantos momentos de alegria e tantos motivos de desgosto, está com um pé no que seria a maior tristeza de sua história: a queda para a terceirona às vésperas do ano do centenário.

Esse rebaixamento é um pesadelo que eu espero que nem os meus piores inimigos tenham. Falo com conhecimento de causa. Não é a primeira vez que o Leão passa por isso e nunca as chances de cair foram tão reais. Em 1997, nos livramos com uma vitória de 3x0 em cima do Moto Clube na última rodada. E em 1999, a salvação também veio no apagar das luzes, com os 2x1 sobre o CRB em Maceió. Foram duas temporadas tão esquecíveis quanto a atual escalação da seleção de El Salvador e mais assustadoras que a visão da Dercy Gonçalves depilando a virilha.

A série C, para a maioria dos times, é um caminho sem volta. Desde que a segunda divisão foi reorganizada, em 1994, 34 times foram rebaixados. Destes, a maioria (15) não disputou competições nacionais em 2004, nem mesmo a própria terceirona. Neste balaio estão clubes outrora tradicionais, como Bangu (vice-campeão brasileiro em 85), Bragantino (vice-campeão brasileiro em 91) e ABC de Natal (maior vencedor de campeonatos estaduais), que se afundaram em dívidas, administrações sanguessugas ou políticas equivocadas. Onze clubes entre os rebaixados nos últimos dez anos continuam na terceira divisão. Entre eles, estão três ex-campeões nacionais: Tuna Luso (campeã da B em 85 e da C em 92), União São João (campeão da B em 96) e Gama (campeão da B em 98).

Somando os números dos dois grupos, chegamos a 26 clubes que caíram para a série C e não voltaram. Um índice de 76,4%. Ou seja, para cada quatro times que caem para a divisão mais pobre do futebol brasileiro, apenas um volta. No caso dessas últimas dez temporadas, foram apenas oito. Só que com um fator atenuante: seis desses oito clubes se beneficiaram da Copa João Havelange para escapar do rebaixamento de fato ou pular de divisão. Náutico e Fortaleza disputaram a série C em 99, mas não precisaram ser campeão ou vice para subir para o módulo amarelo da JH em 2000 e permanecer na segundona em 2001. Já o Fluminense ganhou a série C em 99, mas pulou direto para o módulo azul da JH e ficou na primeira divisão em 2001. Paysandu, Criciúma e América de Natal apenas se livraram do rebaixamento em 99 e se mantiveram dentro de campo nos anos seguintes. A Ponte Preta é um caso à parte: foi rebaixada em 95, mas não chegou a disputar a série C porque muitos clubes desistiram de disputar a segundona em 96, o que fez a CBF convidar a Macaca para substituir um deles.

Desde 94, apenas um clube conseguiu se reerguer após esse tormento subindo no campo. O Mogi Mirim caiu em 97 e foi vice-campeão em 2001. O Sapo da Mogiana vai precisar repetir o feito nos próximos anos, uma vez que já está rebaixado para a terceirona com algumas rodadas de antecipação.

Outra coisa: nos últimos três anos, a maioria dos times que sobem da C para a B é de “novas forças” ou times tradicionais que passaram por profundos processos de reestruturação e reorganização. E são guinadas que os tornam competitivos a ponto de serem fortes candidatos ao acesso já à primeira divisão. Dos seis times que subiram da terceirona desde 2001, quatro estão brigando por vagas no playoff da segundona em 2004: Brasiliense, Ituano, Marília e Paulista. Só não são cinco porque o Santo André perdeu 12 pontos no tapetão.

É por isso que neste sábado eu vou rezar para todos os santos e demônios, apelar para as mandingas da Amazônia e da umbanda e concentrar todos os meus pensamentos positivos em Taguatinga, onde o Remo enfrenta o Brasiliense tentando se livrar daquela que pode ser a derrota mais definitiva de sua história.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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