| Ultimamente os torcedores do Grêmio
andam devorando as próprias unhas. Os do Botafogo, gastando
as bolinhas dos terços de tanto rezar. Os do Flamengo, acordando
assustados no meio da noite. Tudo isso graças à costumeira
ameaça de rebaixamento para a série B, que todo ano
implica com um dos times considerados grandes. Mas o que atormenta
tanto esses fanáticos é café pequeno para mim.
O que eles sentiriam se os clubes pelos quais tanto sofrem estivessem
à beira da queda para a terceira divisão? Pois isso
que você não consegue imaginar (a não ser que
seja torcedor do Fluminense) é o que eu estou sentindo nos
últimos dias. O Remo, que já me deu tantos momentos
de alegria e tantos motivos de desgosto, está com um pé
no que seria a maior tristeza de sua história: a queda para
a terceirona às vésperas do ano do centenário.
Esse rebaixamento é um pesadelo que eu espero
que nem os meus piores inimigos tenham. Falo com conhecimento de
causa. Não é a primeira vez que o Leão passa
por isso e nunca as chances de cair foram tão reais. Em 1997,
nos livramos com uma vitória de 3x0 em cima do Moto Clube
na última rodada. E em 1999, a salvação também
veio no apagar das luzes, com os 2x1 sobre o CRB em Maceió.
Foram duas temporadas tão esquecíveis quanto a atual
escalação da seleção de El Salvador
e mais assustadoras que a visão da Dercy Gonçalves
depilando a virilha.
A série C, para a maioria dos times, é
um caminho sem volta. Desde que a segunda divisão foi reorganizada,
em 1994, 34 times foram rebaixados. Destes, a maioria (15) não
disputou competições nacionais em 2004, nem mesmo
a própria terceirona. Neste balaio estão clubes outrora
tradicionais, como Bangu (vice-campeão brasileiro em 85),
Bragantino (vice-campeão brasileiro em 91) e ABC de Natal
(maior vencedor de campeonatos estaduais), que se afundaram em dívidas,
administrações sanguessugas ou políticas equivocadas.
Onze clubes entre os rebaixados nos últimos dez anos continuam
na terceira divisão. Entre eles, estão três
ex-campeões nacionais: Tuna Luso (campeã da B em 85
e da C em 92), União São João (campeão
da B em 96) e Gama (campeão da B em 98).
Somando os números dos dois grupos, chegamos
a 26 clubes que caíram para a série C e não
voltaram. Um índice de 76,4%. Ou seja, para cada quatro times
que caem para a divisão mais pobre do futebol brasileiro,
apenas um volta. No caso dessas últimas dez temporadas, foram
apenas oito. Só que com um fator atenuante: seis desses oito
clubes se beneficiaram da Copa João Havelange para escapar
do rebaixamento de fato ou pular de divisão. Náutico
e Fortaleza disputaram a série C em 99, mas não precisaram
ser campeão ou vice para subir para o módulo amarelo
da JH em 2000 e permanecer na segundona em 2001. Já o Fluminense
ganhou a série C em 99, mas pulou direto para o módulo
azul da JH e ficou na primeira divisão em 2001. Paysandu,
Criciúma e América de Natal apenas se livraram do
rebaixamento em 99 e se mantiveram dentro de campo nos anos seguintes.
A Ponte Preta é um caso à parte: foi rebaixada em
95, mas não chegou a disputar a série C porque muitos
clubes desistiram de disputar a segundona em 96, o que fez a CBF
convidar a Macaca para substituir um deles.
Desde 94, apenas um clube conseguiu se reerguer
após esse tormento subindo no campo. O Mogi Mirim caiu em
97 e foi vice-campeão em 2001. O Sapo da Mogiana vai precisar
repetir o feito nos próximos anos, uma vez que já
está rebaixado para a terceirona com algumas rodadas de antecipação.
Outra coisa: nos últimos três anos,
a maioria dos times que sobem da C para a B é de “novas
forças” ou times tradicionais que passaram por profundos
processos de reestruturação e reorganização.
E são guinadas que os tornam competitivos a ponto de serem
fortes candidatos ao acesso já à primeira divisão.
Dos seis times que subiram da terceirona desde 2001, quatro estão
brigando por vagas no playoff da segundona em 2004: Brasiliense,
Ituano, Marília e Paulista. Só não são
cinco porque o Santo André perdeu 12 pontos no tapetão.
É por isso que neste sábado eu vou
rezar para todos os santos e demônios, apelar para as mandingas
da Amazônia e da umbanda e concentrar todos os meus pensamentos
positivos em Taguatinga, onde o Remo enfrenta o Brasiliense tentando
se livrar daquela que pode ser a derrota mais definitiva de sua
história.
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