| Se os canais fechados revolucionam
o futebol na televisão - com pay per view passando rodadas
quase inteiras até da série B -, assistir uma partidinha
nas emissoras abertas é um porre. Se você cai na Globo,
não tem outra escolha a não ser aceitar os jogos de
Flamengo e Corinthians, seja contra o líder ou contra o lanterna
do campeonato. Se muda pra Record, acaba desanimando com coisas
como a presença de Oscar Roberto de Godói como comentarista
de arbitragem. A Rede TV! aparece hoje com alguns diferenciais positivos,
como os direitos de transmitir a Liga dos Campeões da UEFA.
Mas como a competição só esquenta pra valer
na segunda fase, para cada Milan x Barcelona tem uns 10 Tottenham
x Ipswich pelo campeonato inglês, também transmitido
pela emissora.
Quando me deparo com essa pobreza audiovisual e
futebolística, suspiro de saudades de um bom tempo não
tão distante assim. O ano é 1993. Eu, então
um guri com 10 anos na cara, passava de uma fase de simples curioso
por futebol para um verdadeiro maníaco pelo esporte. Tudo
por causa de uma hiper-mega-ultra-sensacional fonte de informação,
com noticiários de manhã, à tarde e à
noite, além da transmissão de pelo menos um jogo por
rodada. Era assim a cobertura que a TV Bandeirantes dava ao futebol,
uma coisa assim de transformar qualquer um em Homer Simpson.
O domingo era um dia, por assim dizer, hipnotizante.
A jornada começava por volta do meio dia com a abertura do
Show do Esporte, uma maratona de até dez horas de
duração com uma cacetada de transmissões, noticiários
e programas especiais. No início, ocasionalmente era transmitida
ao vivo uma partidinha do campeonato italiano. Depois de um intervalo,
rotina quebrada com um joguinho de vôlei. Mas depois começava
o filé. As duas melhores partidas da rodada passavam na seqüência,
uma ao vivo e outra em VT. A primeira geralmente era de um clube
paulista e a segunda, de um time do Rio de Janeiro.
As equipes que transmitiam os jogos eram excelentes
- sem os velhos vícios do povo que saiu do rádio e
nem os novos vícios dos profissionais da era do pay per view.
Luciano do Valle não era um narrador goiaba que troca os
nomes dos clubes e cidades, José Luiz Datena era um bom repórter
de campo e Juarez Soares até que era um comentarista chato
aceitável. O único defeito era a mala goiaba do Elia
Júnior, que sempre estampava um sorriso bocó na cara
e dizia antes de chamar um intervalo comercial: “não
sai daí, é pá e bola”. Respondam-me uma
coisa: o que o instrumento de trabalho dos coveiros tem a ver com
futebol?
Inesquecíveis eram os bordões dos
locutores. E Silvio Luiz, o campeão absoluto de sempre. Ele
poderia até transmitir uma partida entre Inter de Limeira
e União São João que ainda assim era um festival
de emoção - ou de risadas. Para cada “olho no
laaaaaaanceeee!”, tinha uma menção aos quitutes
que eram deixados na cabine da Band. Isso sem falar em “pelo
amor dos meus filhinhos!”, “pelas barbas do profeta”
e outros. Sensacional foi o dia em que ele refletiu sobre um de
seus velhos bordões, “no paaaaaaaau!”, quando
a bola batia na trave. “Acho que há muito tempo, as
traves já não são mais feitas de madeira, e
sim de ferro. Por isso, a partir de agora vou gritar ‘no feeeeeeeeeeeerrrooooo!’”.
Impagável. E as narrações de gol? Até
hoje Silvio Luiz mantém o padrão. “Ééééééé
dooooo Uruburetaaaaama!!! Foi, foi, foi, foi, foi, foi, foi, foi
ele!!!! Jacivaldo!!! O craque da camisa número 7!!!!”.
Outro que tinha bordões geniais era Januário
de Oliveira, que narrava exclusivamente os jogos no Rio. São
dele pérolas como “tá lá um corpo estendido
no chão!” e “ele é cruel, muuuuuito cruel!”.
Além disso, Januário criou apelidos que pegaram. Charles
virou Charles Guerreiro, Ézio virou Super Ézio, Valdeir
virou The Flash e por aí vai. Acompanhado de Gérson
(que não ficou atrás e bolou “é brincadeira”),
Januário tornava ainda mais divertido o hábito de
acompanhar o futebol carioca, numa época em que ele não
era tão decadente ainda.
Se as transmissões da Band não tinham
aquela bolinha marota que pinga na tela quando sai gol nos outros
jogos da rodada (a revolução do futebol na TV, segundo
meu confrade André Pugliesi), elas compensavam com dedicação
quase integral, quantidade de informação e, por último
mas não menos importante, diversão. Hoje, sou um dos
milhares (ou talvez milhões) de órfãos do auto-intitulado
“Canal do Esporte”, que se perdeu em meio a crises financeiras,
reviravoltas administrativas e evasão de profissionais. Os
bons tempos da Bandeirantes não passam de um glorioso capítulo
do Gol, o Grande Momento do Futebol.
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