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Beagá, 30 de agosto de 2004 d.C.
 
Brasil, terceiro mundo até nas Olimpíadas
Por Caboclo Alaranjado
 

As manchetes de jornais e telejornais no dia seguinte ao encerramento de uma edição de Jogos Olímpicos são sempre as mesmas, alternando apenas afirmativas e negativas. Toda vez é “Brasil fracassa” ou “Brasil arrebenta”. Depois de Atenas, a imprensa bradou aos quatro ventos que esta tinha sido a melhor participação do país em uma Olimpíada. Se levarmos em conta os números absolutos e os infames critérios de ordem de classificação nos Jogos, realmente foi a melhor, porque nesta Olimpíada ganhamos mais ouros. Mas precisamos pensar em algo além de um estúpido quadro de medalhas, afinal estamos longe de viver o grande momento do esporte brasileiro que o Galvão Bueno tanto insiste em dizer que passamos.

Duas das nossas quatro medalhas de ouro foram no iatismo, que agora ostenta o título de modalidade que mais trouxe medalhas ao Brasil. Chegou-se ao cúmulo de dizer numa transmissão da Bandeirantes que o Brasil é o país da vela. Ora, como assim? Um esporte em que só famílias abastadas ou de sobrenome europeu praticam. Há uma ação do Ministério dos Esportes aqui no Norte, o Projeto Navegar, que fornece infra-estrutura e recursos humanos para levar crianças a praticarem iatismo. Mas ainda há resultados bem escassos em se tratando de formação de atletas para o futuro. Enquanto isso, contaremos apenas com algum outro Grael e com o Robert Scheidt enquanto estiver em forma.

Atletismo e natação, esportes que corriqueiramente trazem bons resultados, decepcionaram. São modalidades em que o Brasil viveu mais de ídolos isolados do que realmente de uma boa geração de atletas. Talvez a década de 80 no atletismo e o final da de 90 na natação tenham sido os momentos mais promissores. Mas hoje roemos o osso. Temos alguns bons nomes, como Maurren Maggi e Jadel Gregório, estrelas que representam exceções em meio a tantos desconhecidos. Há muito tempo o Brasil não precisava fazer esforço para lembrar quem eram os representantes verde e amarelo em provas tradicionais como os 100 e os 200 metros rasos. Aliás, quem foram eles mesmo? Na natação, nossos últimos ídolos, Gustavo Borges e Fernando Scherer, se despediram das piscinas com resultados sofríveis. No mais, tivemos que agüentar locutores e comentaristas de TV querendo se orgulhar de nonos lugares e outras colocações esdrúxulas e insignificantes.

E olha que estas duas últimas, aliadas ao handebol (um eterno fracasso olímpico brasileiro), são modalidades super difundidas em escolas pelo Brasil inteiro. O problema é que não basta botar neguinho pra correr um do lado do outro e ver quem chega primeiro. É preciso qualificação de profissionais para lapidar os pequenos talentos. E isso aí depende das intenções ou mesmo do dinheiro que a escola tem para investir nisso. Não é preciso ser adivinho pra saber que a maioria das instituições de ensino do país estão mais próximas da segunda opção.

Posso até ter fugido um pouco do tema central da coluna, mas tudo isso é pra mostrar que estamos muito atrás de outros países de terceiro mundo (principalmente Cuba) e de outras nações que não são exatamente subdesenvolvidas, mas tiveram a economia estancada pelo socialismo (os integrantes da antiga Cortina de Ferro). E enquanto não houver um grande investimento do governo, as Olimpíadas para os brasileiros serão sempre uma grande comemoração de presenças em finais B e décimos-segundos lugares.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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