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Beagá, 28 de junho de 2004 d.C.
 
Quando o amador é mais profissional que o profissional
Por Caboclo Alaranjado
 

O maior e mais organizado campeonato de futebol do mundo não é nenhuma liga européia nem a Copa dos Campeões da UEFA e muito menos o Brasileirão. Ele é disputado com sucesso há mais de trinta anos no remoto Amazonas, longe dos grandes centros e afastado do eixão do esporte mais popular do Brasil. O Campeonato de Peladas do Amazonas, ou Peladão de Manaus para os íntimos, chega à sua 32ª edição em 2004 com o respaldo da tradição, do gosto popular e da cobertura das mídias locais e internacionais.

Quando embarquei para a capital amazonense (onde passei as últimas duas semanas), uma das coisas que eu mais queria conhecer era a organização do Peladão, as pessoas que tornavam possível aquela idéia aparentemente mirabolante. Então, numa tarde de quinta-feira enquanto caminho pelo centro de Manaus, qual não foi minha surpresa ao dar de cara com uma placa em que estava escrito “Coordenação do Peladão”? Nunca imaginei que o campeonato teria um escritoriozinho bem ajeitado no meio de lojas de xerox e papelarias, por mais organizado que fosse.

Não penso duas vezes em entrar. Logo conheço alguns dos dedicados funcionários que doam boa parte do dia para realizar um Peladão melhor. Quem me recebe é Paulinho, que atende pelo cargo de coordenador técnico do campeonato. É ele quem tem a mágica tarefa de elaborar uma tabela coerente mesmo com a presença de mais de 800 clubes. Segundo ele, não é tão difícil assim: divide-se os times inscritos em quantas chaves de quatro forem necessárias. Classificam-se dois de cada para uma segunda etapa, com chaves de seis e depois passam 30 clubes para o primeiro mata-mata. Nas oitavas-de-final, o 16º clube vem do insólito confronto entre o campeão do Peladão do interior e o campeão do concurso da Rainha do Peladão.

Isso mesmo. O que torna o Peladão popular não é só o futebol, mas também um concurso de beleza que acontece paralelamente. Cada clube que se inscreve tem que indicar uma moça para ser a sua rainha. As mais de 800 jovens concorrem à faixa e, caso o time da rainha campeã do concurso já esteja eliminado, ele pode muito bem voltar à disputa. Segundo Paulinho, essa regra existe para valorizar o concurso e fazer com que os clubes inscrevam representantes cada vez mais bonitas.

Mas voltemos às quatro linhas ou tudo o que envolve a disputa do Peladão em campo. Comecemos pelo regulamento, que é de dar inveja à maioria das federações. O código disciplinar é tão rígido que nem Luís Zveiter colocaria defeito. Mas o que os artigos têm de bem escritos ou organizados, eles também têm de inusitados. Por exemplo, no Peladão não há impedimento e não é permitido o uso de chuteiras. Kichutes e tênis de society, tudo bem. “Profissionais”, só na final. Os pênaltis também rendem um artigo curioso, o de número 39, que diz que se o campo de jogo não tiver área marcada, o juiz deverá contar quinze passos do local da infração até o centro do gol para dizer se foi pênalti ou não. E o mais hilário de todos é o artigo 41: “O batedor do pênalti poderá fazer a chamada paradinha”. Sem comentários.

Em 2003, foram mais de 800 clubes participantes, entre representantes da capital e do interior. E o público da decisão ficou em torno de 20 mil pessoas, dez vezes mais que a quantidade de gente que foi à final do campeonato amazonense deste ano. Para 2004, são esperados mais de mil times inscritos. E o torneio terá novidades. A principal é a realização da final em dois jogos, um num campo de pelada e outro no estádio Vivaldão. O objetivo é que o time campeão prove que é bom na terra e na grama, segundo a coordenação do campeonato. E outra: uma produtora alemã de TV deve aportar pelo Amazonas para registrar imagens que renderão um documentário sobre o Peladão. A exibição está prevista para o período da Copa de 2006. É o autêntico futebol brasileiro ganhando a atenção do planeta.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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