| O maior e mais organizado campeonato
de futebol do mundo não é nenhuma liga européia
nem a Copa dos Campeões da UEFA e muito menos o Brasileirão.
Ele é disputado com sucesso há mais de trinta anos
no remoto Amazonas, longe dos grandes centros e afastado do eixão
do esporte mais popular do Brasil. O Campeonato de Peladas do Amazonas,
ou Peladão de Manaus para os íntimos, chega à
sua 32ª edição em 2004 com o respaldo da tradição,
do gosto popular e da cobertura das mídias locais e internacionais.
Quando embarquei para a capital amazonense (onde
passei as últimas duas semanas), uma das coisas que eu mais
queria conhecer era a organização do Peladão,
as pessoas que tornavam possível aquela idéia aparentemente
mirabolante. Então, numa tarde de quinta-feira enquanto caminho
pelo centro de Manaus, qual não foi minha surpresa ao dar
de cara com uma placa em que estava escrito “Coordenação
do Peladão”? Nunca imaginei que o campeonato teria
um escritoriozinho bem ajeitado no meio de lojas de xerox e papelarias,
por mais organizado que fosse.
Não penso duas vezes em entrar. Logo conheço
alguns dos dedicados funcionários que doam boa parte do dia
para realizar um Peladão melhor. Quem me recebe é
Paulinho, que atende pelo cargo de coordenador técnico do
campeonato. É ele quem tem a mágica tarefa de elaborar
uma tabela coerente mesmo com a presença de mais de 800 clubes.
Segundo ele, não é tão difícil assim:
divide-se os times inscritos em quantas chaves de quatro forem necessárias.
Classificam-se dois de cada para uma segunda etapa, com chaves de
seis e depois passam 30 clubes para o primeiro mata-mata. Nas oitavas-de-final,
o 16º clube vem do insólito confronto entre o campeão
do Peladão do interior e o campeão do concurso da
Rainha do Peladão.
Isso mesmo. O que torna o Peladão popular
não é só o futebol, mas também um concurso
de beleza que acontece paralelamente. Cada clube que se inscreve
tem que indicar uma moça para ser a sua rainha. As mais de
800 jovens concorrem à faixa e, caso o time da rainha campeã
do concurso já esteja eliminado, ele pode muito bem voltar
à disputa. Segundo Paulinho, essa regra existe para valorizar
o concurso e fazer com que os clubes inscrevam representantes cada
vez mais bonitas.
Mas voltemos às quatro linhas ou tudo o que
envolve a disputa do Peladão em campo. Comecemos pelo regulamento,
que é de dar inveja à maioria das federações.
O código disciplinar é tão rígido que
nem Luís Zveiter colocaria defeito. Mas o que os artigos
têm de bem escritos ou organizados, eles também têm
de inusitados. Por exemplo, no Peladão não há
impedimento e não é permitido o uso de chuteiras.
Kichutes e tênis de society, tudo bem. “Profissionais”,
só na final. Os pênaltis também rendem um artigo
curioso, o de número 39, que diz que se o campo de jogo não
tiver área marcada, o juiz deverá contar quinze passos
do local da infração até o centro do gol para
dizer se foi pênalti ou não. E o mais hilário
de todos é o artigo 41: “O batedor do pênalti
poderá fazer a chamada paradinha”. Sem comentários.
Em 2003, foram mais de 800 clubes participantes,
entre representantes da capital e do interior. E o público
da decisão ficou em torno de 20 mil pessoas, dez vezes mais
que a quantidade de gente que foi à final do campeonato amazonense
deste ano. Para 2004, são esperados mais de mil times inscritos.
E o torneio terá novidades. A principal é a realização
da final em dois jogos, um num campo de pelada e outro no estádio
Vivaldão. O objetivo é que o time campeão prove
que é bom na terra e na grama, segundo a coordenação
do campeonato. E outra: uma produtora alemã de TV deve aportar
pelo Amazonas para registrar imagens que renderão um documentário
sobre o Peladão. A exibição está prevista
para o período da Copa de 2006. É o autêntico
futebol brasileiro ganhando a atenção do planeta.
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