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Beagá, 07 de junho de 2004 d.C.
 
O mundo dá muitas voltas
Por Caboclo Alaranjado
 

Histórias sórdidas do futebol brasileiro surgem com a velocidade de uma epidemia, com a intensidade de uma caspa, mas com a efemeridade de um arroto. Aqui e acolá são evidenciados fatos que tinham passado batidos pelos olhos desatentos da crônica esportiva. Ou mesmo pela mais acurada das visões: a memória do torcedor.

Pois bem, essa fugacidade da informação faz com que os simpatizantes do Atlético Mineiro não lembrem de uma história da qual deveriam ter vergonha. Vai ver que é isso: não é esquecimento, mas sim um daqueles famosos “abafas” dignos de manobras políticas.

Torcedor do Galo, respire fundo antes de admitir: o alvinegro das Alterosas salvou o Cruzeiro do rebaixamento para a segunda divisão do campeonato brasileiro. Se não fosse um deslize de compaixão ou mera distração do Atlético no Brasileirão de 1994, a história da Raposa nos dez anos seguintes poderia ter sido bem diferente. Poderia ter sido uma década de muito menos sofrimento e de muito menos troféus do outro lado. A grama do vizinho poderia estar muito menos verde.

Vamos aos fatos. A temporada de 1994 foi dura para os clubes mineiros no Brasileirão. O Galo amargou derrotas em casa para Paysandu e Botafogo, enquanto a Raposa só não ficou com a lanterna geral da competição na primeira fase porque o Bragantino teve um gol a menos de saldo. Acabaram ambos indo para a repescagem, a formuleta mais infame que a CBF inventou em competições nacionais na década de 90. Os oito piores times do campeonato jogavam entre si em turno e returno. Os dois piores, obviamente, caíam para a Segundona. Os dois melhores, pasmem, passavam para as quartas-de-final!!!

Pois bem. Iniciada a repescagem, os mineiros se deram bem. O Cruzeiro até melhor, com duas boas vitórias sobre Criciúma e Vitória. Mas foi só chegarem os clássicos para que o Trem Azul descarrilasse. Com duas vitórias por 1x0 sobre o maior rival, o Atlético não só subiu para as cabeças do torneio da morte e passou a brigar por uma das vagas nas quartas como empurrou o Cruzeiro para a rabeira. O time dos Perrella perdeu para o Bragantino, para o Criciúma e chegou ao cúmulo de sofrer uma das maiores humilhações de sua história: levou uma sova de 5x1 do Remo dentro do Mineirão.

O problema é que, por mais deprimente que tenha sido esse resultado, os azuis já tinham começado a ser salvos uma semana antes. Precisamente no dia 6 de novembro de 1994. Torcedor do Galo: anote esta data como o dia em que o seu time livrou o Cruzeiro do rebaixamento. Foi quando o Atlético, sem a menor necessidade, aplicou uma goleada de 6x0 sobre o Remo no Mangueirão. O mesmo Remo que sete dias depois deu aos torcedores alvinegros a maior alegria desde o título brasileiro de 1971 (os famigerados 5x1 no Mineirão) e o mesmo Remo que era concorrente direto do Cruzeiro na briga contra o rebaixamento. E anote aí, esses gols vão fazer uma baita diferença no final das contas e reforçar a minha teoria.

Na 11ª rodada, a situação era crítica para os cruzeirenses. Mas, talvez mordidos pela surra que levaram dentro de casa, os mineiros ganharam dois jogos consecutivos (Náutico em casa e União São João fora). Enquanto isso, o Remo perdeu nessas duas rodadas (Criciúma fora e Vitória em casa). Ainda assim, a última rodada da repescagem reservava um alto risco de rebaixamento para o clube de Tostão. O Cruzeiro tinha 12 pontos, contra 11 do União São João e 10 do Remo. Os três times brigavam por uma vaga na segundona, já que o Náutico estava rebaixado por antecipação.

O Remo fez a parte dele, vencendo o Náutico por 2x0. Se livraria do rebaixamento caso acontecesse uma combinação de resultados interessantes. Um deles era a derrota do Cruzeiro para o Vitória por uma boa diferença de gols. Acabou sendo só 2x0. Mas ainda havia esperanças no jogo de Araras. O inócuo União São João recebia a “máquina da repescagem”, o já classificado Atlético Mineiro. Bastava um resultado nada surpreendente para livrar o Remo: uma vitória do Galo. Mas os alvinegros perderam por 3x1 e mandaram os paraenses para a série B.

A derrota atleticana na última rodada não mudou em nada a história do Cruzeiro, mas os gols marcados na goleada sobre o Remo em Belém sim. Ao final das 14 rodadas, os dois clubes terminaram empatados com 12 pontos. A Raposa, com saldo negativo de quatro gols, acabou levando a melhor sobre o Leão, que ficou com menos seis. Apenas dois gols de diferença.

Façam o favor de entender, torcedores do Atlético: se o Galo tivesse vencido o Remo por 3x0 no esquecível jogo do dia 6 de novembro de 1994, os paraenses teriam saldo de menos três e o Cruzeiro teria caído para a segunda divisão. Simples assim.

Um flashback dos dez anos subseqüentes para os personagens dessa história:

Remo: não voltou mais para a primeira divisão do futebol brasileiro. As maiores glórias que teve no período foram o tabu de 33 jogos sem perder para o Paysandu (quebrado em 1997) e seis títulos estaduais.

Atlético: manteve a fama de “time do quase” em campeonatos brasileiros. Foi semifinalista em 96, 97 e 2001 e finalista em 99, quase sempre devendo para o Corinthians no final das contas. Ganhou três títulos mineiros e uma Copa Conmebol.

Cruzeiro: cinco títulos mineiros, um supercampeonato mineiro, três Copas do Brasil, um campeonato brasileiro conquistado de forma impecável, uma Copa Libertadores... Tá bom ou quer mais?

Agora respondam, atleticanos: vocês estão um pouco arrependidos daqueles 6x0, não?

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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