| Histórias sórdidas
do futebol brasileiro surgem com a velocidade de uma epidemia, com
a intensidade de uma caspa, mas com a efemeridade de um arroto.
Aqui e acolá são evidenciados fatos que tinham passado
batidos pelos olhos desatentos da crônica esportiva. Ou mesmo
pela mais acurada das visões: a memória do torcedor.
Pois bem, essa fugacidade da informação
faz com que os simpatizantes do Atlético Mineiro não
lembrem de uma história da qual deveriam ter vergonha. Vai
ver que é isso: não é esquecimento, mas sim
um daqueles famosos “abafas” dignos de manobras políticas.
Torcedor do Galo, respire fundo antes de admitir:
o alvinegro das Alterosas salvou o Cruzeiro do rebaixamento para
a segunda divisão do campeonato brasileiro. Se não
fosse um deslize de compaixão ou mera distração
do Atlético no Brasileirão de 1994, a história
da Raposa nos dez anos seguintes poderia ter sido bem diferente.
Poderia ter sido uma década de muito menos sofrimento e de
muito menos troféus do outro lado. A grama do vizinho poderia
estar muito menos verde.
Vamos aos fatos. A temporada de 1994 foi dura para
os clubes mineiros no Brasileirão. O Galo amargou derrotas
em casa para Paysandu e Botafogo, enquanto a Raposa só não
ficou com a lanterna geral da competição na primeira
fase porque o Bragantino teve um gol a menos de saldo. Acabaram
ambos indo para a repescagem, a formuleta mais infame que a CBF
inventou em competições nacionais na década
de 90. Os oito piores times do campeonato jogavam entre si em turno
e returno. Os dois piores, obviamente, caíam para a Segundona.
Os dois melhores, pasmem, passavam para as quartas-de-final!!!
Pois bem. Iniciada a repescagem, os mineiros se
deram bem. O Cruzeiro até melhor, com duas boas vitórias
sobre Criciúma e Vitória. Mas foi só chegarem
os clássicos para que o Trem Azul descarrilasse. Com duas
vitórias por 1x0 sobre o maior rival, o Atlético não
só subiu para as cabeças do torneio da morte e passou
a brigar por uma das vagas nas quartas como empurrou o Cruzeiro
para a rabeira. O time dos Perrella perdeu para o Bragantino, para
o Criciúma e chegou ao cúmulo de sofrer uma das maiores
humilhações de sua história: levou uma sova
de 5x1 do Remo dentro do Mineirão.
O problema é que, por mais deprimente que
tenha sido esse resultado, os azuis já tinham começado
a ser salvos uma semana antes. Precisamente no dia 6 de novembro
de 1994. Torcedor do Galo: anote esta data como o dia em que o seu
time livrou o Cruzeiro do rebaixamento. Foi quando o Atlético,
sem a menor necessidade, aplicou uma goleada de 6x0 sobre o Remo
no Mangueirão. O mesmo Remo que sete dias depois deu aos
torcedores alvinegros a maior alegria desde o título brasileiro
de 1971 (os famigerados 5x1 no Mineirão) e o mesmo Remo que
era concorrente direto do Cruzeiro na briga contra o rebaixamento.
E anote aí, esses gols vão fazer uma baita diferença
no final das contas e reforçar a minha teoria.
Na 11ª rodada, a situação era
crítica para os cruzeirenses. Mas, talvez mordidos pela surra
que levaram dentro de casa, os mineiros ganharam dois jogos consecutivos
(Náutico em casa e União São João fora).
Enquanto isso, o Remo perdeu nessas duas rodadas (Criciúma
fora e Vitória em casa). Ainda assim, a última rodada
da repescagem reservava um alto risco de rebaixamento para o clube
de Tostão. O Cruzeiro tinha 12 pontos, contra 11 do União
São João e 10 do Remo. Os três times brigavam
por uma vaga na segundona, já que o Náutico estava
rebaixado por antecipação.
O Remo fez a parte dele, vencendo o Náutico
por 2x0. Se livraria do rebaixamento caso acontecesse uma combinação
de resultados interessantes. Um deles era a derrota do Cruzeiro
para o Vitória por uma boa diferença de gols. Acabou
sendo só 2x0. Mas ainda havia esperanças no jogo de
Araras. O inócuo União São João recebia
a “máquina da repescagem”, o já classificado
Atlético Mineiro. Bastava um resultado nada surpreendente
para livrar o Remo: uma vitória do Galo. Mas os alvinegros
perderam por 3x1 e mandaram os paraenses para a série B.
A derrota atleticana na última rodada não
mudou em nada a história do Cruzeiro, mas os gols marcados
na goleada sobre o Remo em Belém sim. Ao final das 14 rodadas,
os dois clubes terminaram empatados com 12 pontos. A Raposa, com
saldo negativo de quatro gols, acabou levando a melhor sobre o Leão,
que ficou com menos seis. Apenas dois gols de diferença.
Façam o favor de entender, torcedores do
Atlético: se o Galo tivesse vencido o Remo por 3x0 no esquecível
jogo do dia 6 de novembro de 1994, os paraenses teriam saldo de
menos três e o Cruzeiro teria caído para a segunda
divisão. Simples assim.
Um flashback dos dez anos subseqüentes para
os personagens dessa história:
Remo:
não voltou mais para a primeira divisão do futebol
brasileiro. As maiores glórias que teve no período
foram o tabu de 33 jogos sem perder para o Paysandu (quebrado em
1997) e seis títulos estaduais.
Atlético:
manteve a fama de “time do quase” em campeonatos brasileiros.
Foi semifinalista em 96, 97 e 2001 e finalista em 99, quase sempre
devendo para o Corinthians no final das contas. Ganhou três
títulos mineiros e uma Copa Conmebol.
Cruzeiro:
cinco títulos mineiros, um supercampeonato mineiro, três
Copas do Brasil, um campeonato brasileiro conquistado de forma impecável,
uma Copa Libertadores... Tá bom ou quer mais?
Agora respondam, atleticanos: vocês estão
um pouco arrependidos daqueles 6x0, não?
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