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Beagá, 21 de abril de 2003 d.C.
 
A tênue linha entre a glória e um frango
Por Caboclo Alaranjado
 

Procure em qualquer agenda que tenha até as mais inúteis datas comemorativas: dia 26 de abril, próximo sábado, é dia do goleiro. Lembrança justa feita a um jogador que não marca gols (a não ser se for um Rogério Ceni ou um Chilavert), mas que pode ser o herói de uma grande vitória, o salvador da pátria, o responsável por uma conquista. Um cara que está quase sempre longe dos holofotes, mas o tempo todo perto de ser alvo de críticas e até chacotas. Talvez seja exagero dizer que é uma profissão ingrata, mas ser goleiro certamente é a mais curta fronteira entre a aclamação e a crucificação.

Basta lembrar de causos clássicos. Será que o correto Barbosa seria tão maldito pelos torcedores brasileiros se a seleção tivesse vencido a final da Copa de 1950? Barbosa morreu ouvindo acusações de ter falhado no gol do uruguaio Ghiggia, que selou a maior derrota do Brasil em Copas do Mundo. Há quem diga que o ex-goleiro só foi culpado pelo simples fato de ser negro.

Mas ao longo da história do futebol existiram muitos que, ao contrário de Barbosa, tiveram tempo e oportunidade para responder em campo às ofensas. Como o gaúcho Taffarel, que mesmo sendo um jogador acima da média, levava uns senhores frangos de vez em quando. Frangarel, era como lhe chamavam os críticos. Os mesmos que engrossavam o coro de "sai que é sua, Taffarel!" nas copas de 94 e 98, em que o ex-goleiro do Internacional garantiu algumas vitórias da seleção e nada menos que um título mundial.

Para homenagear as muralhas, os guarda-metas, os pegadores-de-pênaltis e até mesmo os frangueiros, vale plagiar uma idéia do cronista José Roberto Torero e escalar uma seleção com os maiores goleiros da história.

O camisa 1 do time dos camisas 1 não pode ser qualquer um. É o russo Lev Yashin, o Aranha Negra, tido por muitos como o melhor de todos os tempos. Para ele, só faltou mesmo um título mundial para coroar a carreira vitoriosa. Talvez, na seleção da ex-União Soviética, Yashin não tenha tido a companhia do grande time que todo grande goleiro merece.

No Arqueiros Futebol Clube, as alas ficam com o argentino Goycoechea, o "tapa penales" da Copa de 90, e com o estiloso, elegante e esquentadinho brasileiro Emerson Leão. A zaga tem que ter dois jogadores de estilos diferentes: um brucutu que resolva tudo nas botinadas e um beque discreto e caladão, que sempre leva a culpa em qualquer falha coletiva. Os escolhidos são o aprendiz de ultimate fighter paraguaio Chilavert e o Ph.D em levar culpa, o brasileiro Barbosa.

Como toda seleção impecável, a dos goleiros têm um meio de campo só de jogadores cerebrais. Inteligentes, técnicos, classudos e com excelente visão de jogo. Figuram na meiúca o italiano Dino Zoff, o inglês Gordon Banks, o alemão Sepp Maier e o brasileiro Taffarel.

Pra fechar, os atacantes. E como a defesa, o ataque tem que ser de opostos. Geralmente não é assim? Um "garçom" e um "matador"? Um falastrão e um reservado? Pois encerramos a onzena com o folclórico colombiano René Higuita (que seria algo como o Dadá Maravilha dos goleiros) e o frio e eficiente dinamarquês Peter Schmeichel.

Yashin; Goycoechea, Chilavert, Barbosa e Leão; Zoff, Banks, Taffarel e Maier; Higuita e Schmeichel. Alguém concorda? Alguém discorda? O e-mail está aí embaixo pra isso.

Começa nesta sexta-feira o campeonato brasileiro da série B. Depois de muita confusão envolvendo a tabela (time com 22 jogos, time com 24 jogos, time jogando duas vezes na mesma rodada...), as 24 equipes vão dar início à violenta briga pelo acesso à primeira divisão. Com jogos apenas aos sábados, a Segundona vai ser disputada em três fases. Na primeira, todos jogam contra todos em turno único. Passam para a segunda fase os oito melhores, que se dividem em dois grupos de quatro e jogam entre si dentro dos grupos em turno e returno. Os dois primeiros de cada chave disputam o título num novo quadrangular, também com jogos de ida e volta. O campeão é o time que tiver mais pontos nesse quadrangular final.

Os dois times considerados grandes que caíram no ano passado estréiam fora de casa. O Palmeiras, apesar do time bem mais ou menos, é favorito ao acesso e joga contra o Brasiliense, equipe que tem condições de chegar entre os oito melhores da primeira fase. Já o Botafogo enfrenta o Vila Nova em Goiânia, e precisa de muito esforço e muitas vitórias para acabar com a angústia da torcida.

Uma curiosidade sobre a Segundona. Dos 24 clubes que disputam a competição em 2003, apenas quatro a disputam desde 1994, quando o campeonato foi reorganizado: Londrina, Ceará, Joinville e CRB. Todos os outros estão no sobe-e-desce entre as séries A e C desde esse ano ou passaram a ser cativos da B nos anos seguintes.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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