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Beagá, 24 de maio de 2004 d.C.
 
A Terceirona e os excluídos
Por Caboclo Alaranjado
 

Um segredinho que a CBF ainda não divulgou é a lista dos 64 clubes que disputam o campeonato brasileiro da série C em 2004. Eu, que considero a Terceirona o campeonato mais legal do Brasil, estou na curiosidade para saber a lista dos felizardos, ainda mais porque a toda poderosa entidade máxima do futebol brasileiro foi bem meticulosa para elaborar a lista de presença do torneio. Pela primeira vez, pelo menos oficialmente, os critérios de padrinho foram substituídos por critérios técnicos. A mudança foi saudável, mas causou polêmica e ainda deixou muito time tradicional de fora.

A confederação foi clara: a primeira leva de participantes é composta pelos chamados “representantes número 1” de cada Estado. São os melhores colocados nos 27 campeonatos estaduais, excetuando os times que já estão na série A ou na série B, ou os campeões dos torneios seletivos, que as federações locais tiveram autonomia para realizar. Esses clubes são privilegiados, pois terão despesas com passagens totalmente pagas pela CBF e ainda receberão ajuda de custo.

Duas vagas são dos rebaixados da série B no ano passado (Gama e União São João) e as outras 35 foram distribuídas entre as federações de acordo com um ranking estadual elaborado pela CBF. São Paulo tem mais quatro vagas. O Rio de Janeiro, mais três. Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, mais duas. Os outros Estados tiveram direito a mais uma vaga. Esse grupo teve um pouco mais de flexibilidade na indicação de participantes. Santa Catarina, por exemplo, vai mandar o campeão do primeiro turno da segunda divisão estadual. Paraná e Ceará fazem partidas classificatórias. E a Bahia vai mandar o campeão de um torneio envolvendo clubes do interior.

O problema é que neste segundo grupo não adianta provar que é bom. Tem que mostrar o checão e o extrato bancário. Esses clubes têm que arcar com todas as despesas que terão no campeonato. E sabemos que, em se tratando de futebol brasileiro, esse é o maior ponto de corte. A CBF, inclusive, está exigindo que os clubes que puderem se bancar assinem uma espécie de termo de compromisso. Quem não puder fazê-lo, assina uma carta de desistência. Tudo assim certinho.

Juntando esses dois pontos, chegamos ao xis da questão: com esses critérios de corte, tem um monte de time tradicional, do Norte ao Sul, que vai ficar o resto do ano sem competir. Alguns já estão garantidos no ócio, outros brigam para não passar tanto tempo sem uma competição estadual.

Aqui no Pará, a Tuna Luso é sócia do clube dos excluídos. Quinta colocada no campeonato paraense, a Águia (campeã da Taça de Prata em 1985 e da série C em 1992) ganha alguns meses de folga forçada. E nem ia adiantar torcer para que o Ananindeua desistisse, afinal os cofres andam em baixa. É o mesmo caso do ABC de Natal, sétimo colocado no campeonato potiguar, que perdeu a vaga para o Potiguar de Mossoró e para o São Gonçalo. Outra força nordestina que está fora da Terceirona é o CSA de Maceió, que estava na segunda divisão alagoana em 2004.

No Rio, o Bangu, vice-campeão brasileiro de 1985, teve de abortar o plano de um título nacional no ano do centenário de fundação. Afinal, a péssima campanha no estadual do Rio levou o time a ficar atrás de América, Americano, Friburguense e Portuguesa na luta por uma vaguinha. Em São Paulo, o Bragantino, vice-nacional em 1991 e considerado o São Caetano de outrora, está de fora porque amarga a série A2 no Paulistão. E no Paraná, o Grêmio Maringá, que disputa com o Londrina o título de maior torcida do interior, não conseguiu aproveitar nem a vaga disponibilizada ao segundo lugar do Torneio da Morte do campeonato paranaense.

Se formos levar em consideração os times que ainda lutam por um lugarzinho na série C, a lista aumenta. No Amazonas, o Nacional não pode se deixar superar por outro adversário que não sejam o Grêmio Coariense (garantido na C) e São Raimundo (garantido na B). O Sergipe pode ficar de fora se não ganhar o segundo turno do estadual. Assim como o Ferroviário, se não passar pelo Uniclinic na repescagem cearense.

Há quem fale em se criar uma quarta divisão para contemplar tantos excluídos ilustres. O problema é que, em tempo de vacas magras, nem dá pra cogitar essa hipótese. Talvez a saída seja formar ligas regionais para manter na ativa alguns desses clubes e fazer com que as torcidas não fiquem desamparadas durante boa parte do ano. O problema é aparecer alguém com cacife pra assinar o financiamento.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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