| Um segredinho que a CBF ainda não
divulgou é a lista dos 64 clubes que disputam o campeonato
brasileiro da série C em 2004. Eu, que considero a Terceirona
o campeonato mais legal do Brasil, estou na curiosidade para saber
a lista dos felizardos, ainda mais porque a toda poderosa entidade
máxima do futebol brasileiro foi bem meticulosa para elaborar
a lista de presença do torneio. Pela primeira vez, pelo menos
oficialmente, os critérios de padrinho foram substituídos
por critérios técnicos. A mudança foi saudável,
mas causou polêmica e ainda deixou muito time tradicional
de fora.
A confederação foi clara: a primeira
leva de participantes é composta pelos chamados “representantes
número 1” de cada Estado. São os melhores colocados
nos 27 campeonatos estaduais, excetuando os times que já
estão na série A ou na série B, ou os campeões
dos torneios seletivos, que as federações locais tiveram
autonomia para realizar. Esses clubes são privilegiados,
pois terão despesas com passagens totalmente pagas pela CBF
e ainda receberão ajuda de custo.
Duas vagas são dos rebaixados da série
B no ano passado (Gama e União São João) e
as outras 35 foram distribuídas entre as federações
de acordo com um ranking estadual elaborado pela CBF. São
Paulo tem mais quatro vagas. O Rio de Janeiro, mais três.
Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, mais duas. Os outros
Estados tiveram direito a mais uma vaga. Esse grupo teve um pouco
mais de flexibilidade na indicação de participantes.
Santa Catarina, por exemplo, vai mandar o campeão do primeiro
turno da segunda divisão estadual. Paraná e Ceará
fazem partidas classificatórias. E a Bahia vai mandar o campeão
de um torneio envolvendo clubes do interior.
O problema é que neste segundo grupo não
adianta provar que é bom. Tem que mostrar o checão
e o extrato bancário. Esses clubes têm que arcar com
todas as despesas que terão no campeonato. E sabemos que,
em se tratando de futebol brasileiro, esse é o maior ponto
de corte. A CBF, inclusive, está exigindo que os clubes que
puderem se bancar assinem uma espécie de termo de compromisso.
Quem não puder fazê-lo, assina uma carta de desistência.
Tudo assim certinho.
Juntando esses dois pontos, chegamos ao xis da questão:
com esses critérios de corte, tem um monte de time tradicional,
do Norte ao Sul, que vai ficar o resto do ano sem competir. Alguns
já estão garantidos no ócio, outros brigam
para não passar tanto tempo sem uma competição
estadual.
Aqui no Pará, a Tuna Luso é sócia
do clube dos excluídos. Quinta colocada no campeonato paraense,
a Águia (campeã da Taça de Prata em 1985 e
da série C em 1992) ganha alguns meses de folga forçada.
E nem ia adiantar torcer para que o Ananindeua desistisse, afinal
os cofres andam em baixa. É o mesmo caso do ABC de Natal,
sétimo colocado no campeonato potiguar, que perdeu a vaga
para o Potiguar de Mossoró e para o São Gonçalo.
Outra força nordestina que está fora da Terceirona
é o CSA de Maceió, que estava na segunda divisão
alagoana em 2004.
No Rio, o Bangu, vice-campeão brasileiro
de 1985, teve de abortar o plano de um título nacional no
ano do centenário de fundação. Afinal, a péssima
campanha no estadual do Rio levou o time a ficar atrás de
América, Americano, Friburguense e Portuguesa na luta por
uma vaguinha. Em São Paulo, o Bragantino, vice-nacional em
1991 e considerado o São Caetano de outrora, está
de fora porque amarga a série A2 no Paulistão. E no
Paraná, o Grêmio Maringá, que disputa com o
Londrina o título de maior torcida do interior, não
conseguiu aproveitar nem a vaga disponibilizada ao segundo lugar
do Torneio da Morte do campeonato paranaense.
Se formos levar em consideração os
times que ainda lutam por um lugarzinho na série C, a lista
aumenta. No Amazonas, o Nacional não pode se deixar superar
por outro adversário que não sejam o Grêmio
Coariense (garantido na C) e São Raimundo (garantido na B).
O Sergipe pode ficar de fora se não ganhar o segundo turno
do estadual. Assim como o Ferroviário, se não passar
pelo Uniclinic na repescagem cearense.
Há quem fale em se criar uma quarta divisão
para contemplar tantos excluídos ilustres. O problema é
que, em tempo de vacas magras, nem dá pra cogitar essa hipótese.
Talvez a saída seja formar ligas regionais para manter na
ativa alguns desses clubes e fazer com que as torcidas não
fiquem desamparadas durante boa parte do ano. O problema é
aparecer alguém com cacife pra assinar o financiamento.
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