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Beagá, 17 de maio de 2004 d.C.
 
O Mangueirão e sua gastronomia trash
Por Caboclo Alaranjado
 

Eu já estava com saudades de ir para a tribuna de imprensa do Mangueirão. Já se tinham passado quase seis meses desde aquele distante Paysandu 2x2 Atlético Paranaense, no dia 14 de dezembro do ano passado. De lá pra cá, só fui ao chamado Colosso do Benguí uma vez, e para as arquibancadas. Acompanhei, debaixo do maior solzão, a vitória do meu glorioso Clube do Remo sobre o Paysandu no primeiro clássico do ano. Mas assistir um jogo encarando a quentura do astro-rei, seus danosos raios ultravioletas e ainda o desconforto dos assentos é dose para quem está acostumado com uma cabine espaçosa, cadeiras razoavelmente confortáveis e um acesso muito mais fácil a bebidas e guloseimas. Vocês podem até dizer que é frescura, mas quem acompanha três jogos na cabine de imprensa não quer mais voltar para a arquibancada.

Pois bem, fiquei feliz ao ser convocado para trabalhar no jogo Paysandu x Vasco no último dia 15. Primeiro, porque adoro o conforto do Mangueirão. Segundo, porque adoro comer no Mangueirão. Há quem tenha sérias restrições com os lanches dos estádios de futebol, com toda a razão. Ingredientes de sanduba desprotegidos e ao relento, prontos para virar alvo dos esfíncteres dos insetos. Frituras daquelas que deixam os guardanapos de papel transparentes. Churrasquinhos amarelados de tanto amaciante de carne. Mas nada disso me desencoraja.

Por isso, a primeira coisa que fiz ao chegar no estádio, antes mesmo de pegar meu lugar, foi comprar um sanduíche de leitão. “Bem passado, tia! E com a cebola bem fritinha!”, pedi. Depois foi só lambuzar de maionese e seguir rumo à tribuna, afinal os times já estavam entrando em campo. Foi difícil manusear o sanduba e anotar as escalações ao mesmo tempo. “C******”, gritei quando uma baita gota de gordura caiu no meu guia do campeonato brasileiro, ao mesmo tempo em que o juiz apitou o início da partida. Enquanto não terminava aquele pequeno banquete suíno, tinha de ser criterioso ao anotar os melhores lances da partida. E olha que o jogo estava bom, tão bom quanto o sanduíche. Tive de largá-lo muitas vezes para escrever os detalhes de alguns belos lances.

Terminado o sanduba, avisto um vendedor de pipoca a alguns metros de mim. Não hesito em chamá-lo, afinal o futebol só perde para o cinema nessa combinação gastronomia-entretenimento. “Manteiga?”. “Claro, pode aloprar”. E o pipoqueiro despeja aquela gordura vegetal dourada sobre os flocos. Alguns minutos depois, enquanto tento limpar uma das mãos na barra da calça, o Paysandu faz 1x0, com um gol de Joãozinho. Largo o saquinho de lado e, ainda de mão suja, anoto o lance com a minha Bic, agora toda lambuzada de manteiga.

Era preciso algo doce para dar uma balanceada no paladar. Um sorveteiro aparece para me ajudar nesse sentido. “Tem de cupuaçu, taperebá, uxi, graviola, açaí, tapioca, milho verde e leite condensado”. Renego minhas origens paraenses e peço um de leite condensado. O calor vai derretendo o picolé e fazendo com que gotas do dito cujo caiam sobre as minhas anotações. Uma porquice só. E o juiz apita o intervalo do jogo.

Aproveito o tempo para subir à lanchonete das cabines de TV, onde há uns salgados sensacionais. Em dois minutos, destroço uma esfiha de carne, talvez o lanche mais sequinho da tarde. E antes de descer de volta, peço um pedaço de bolo de chocolate. Ao chegar de volta na tribuna, ainda encaro o deboche de alguns colegas de jornalismo esportivo. “Tu vieste pra cá pra trabalhar ou pra comer?”. As duas coisas, meus caros. Uma pessoa mal alimentada trabalha mal e ainda enxerga mal o jogo.

Talvez pelo fato de estar bem nutrido, eu lembre fotograficamente do lance do primeiro gol do Vasco. Petkovic bateu uma falta cruzada na área. O goleiro Paulo Musse (que tem nome de doce, só pra entrar melhor no contexto) pulou alto, com os braços arquejados como quem quer socar a bola. Só que o camisa 1 do Paysandu errou a mão. Ao invés de se chocar com os punhos cerrados do arqueiro, a bola bateu no antebraço dele e, sabe-se lá como, pegou um impacto suficiente para morrer no fundo das redes sem que Musse tivesse tempo de impedir a trajetória. Um frango, só para continuar nas referências culinárias.

Três minutos depois, o Vasco virou o jogo. Valdir fez boa jogada pela direita e cruzou com açúcar e mel para a cabeçada de Cadu. Dez minutos depois, o jogo acaba. E o limitado time arroz-com-galinha do Vasco vencia o não menos pão-com-ovo Paysandu na casa do adversário.

Irritado com a infame derrota dos paraenses, ainda devoro três espetinhos de churrasco antes de ir pra casa. Menos mau que não era o meu time que estava em campo naquela noite. Ainda assim, não sei dizer o que é pior: ver um time da minha cidade na lanterna do Brasileirão ou agüentar uma infecção intestinal um dia após essa comilança toda.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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