| Eu já estava com saudades
de ir para a tribuna de imprensa do Mangueirão. Já
se tinham passado quase seis meses desde aquele distante Paysandu
2x2 Atlético Paranaense, no dia 14 de dezembro do ano passado.
De lá pra cá, só fui ao chamado Colosso do
Benguí uma vez, e para as arquibancadas. Acompanhei, debaixo
do maior solzão, a vitória do meu glorioso Clube do
Remo sobre o Paysandu no primeiro clássico do ano. Mas assistir
um jogo encarando a quentura do astro-rei, seus danosos raios ultravioletas
e ainda o desconforto dos assentos é dose para quem está
acostumado com uma cabine espaçosa, cadeiras razoavelmente
confortáveis e um acesso muito mais fácil a bebidas
e guloseimas. Vocês podem até dizer que é frescura,
mas quem acompanha três jogos na cabine de imprensa não
quer mais voltar para a arquibancada.
Pois bem, fiquei feliz ao ser convocado para trabalhar
no jogo Paysandu x Vasco no último dia 15. Primeiro, porque
adoro o conforto do Mangueirão. Segundo, porque adoro comer
no Mangueirão. Há quem tenha sérias restrições
com os lanches dos estádios de futebol, com toda a razão.
Ingredientes de sanduba desprotegidos e ao relento, prontos para
virar alvo dos esfíncteres dos insetos. Frituras daquelas
que deixam os guardanapos de papel transparentes. Churrasquinhos
amarelados de tanto amaciante de carne. Mas nada disso me desencoraja.
Por isso, a primeira coisa que fiz ao chegar no
estádio, antes mesmo de pegar meu lugar, foi comprar um sanduíche
de leitão. “Bem passado, tia! E com a cebola bem fritinha!”,
pedi. Depois foi só lambuzar de maionese e seguir rumo à
tribuna, afinal os times já estavam entrando em campo. Foi
difícil manusear o sanduba e anotar as escalações
ao mesmo tempo. “C******”, gritei quando uma baita gota
de gordura caiu no meu guia do campeonato brasileiro, ao mesmo tempo
em que o juiz apitou o início da partida. Enquanto não
terminava aquele pequeno banquete suíno, tinha de ser criterioso
ao anotar os melhores lances da partida. E olha que o jogo estava
bom, tão bom quanto o sanduíche. Tive de largá-lo
muitas vezes para escrever os detalhes de alguns belos lances.
Terminado o sanduba, avisto um vendedor de pipoca
a alguns metros de mim. Não hesito em chamá-lo, afinal
o futebol só perde para o cinema nessa combinação
gastronomia-entretenimento. “Manteiga?”. “Claro,
pode aloprar”. E o pipoqueiro despeja aquela gordura vegetal
dourada sobre os flocos. Alguns minutos depois, enquanto tento limpar
uma das mãos na barra da calça, o Paysandu faz 1x0,
com um gol de Joãozinho. Largo o saquinho de lado e, ainda
de mão suja, anoto o lance com a minha Bic, agora toda lambuzada
de manteiga.
Era preciso algo doce para dar uma balanceada no
paladar. Um sorveteiro aparece para me ajudar nesse sentido. “Tem
de cupuaçu, taperebá, uxi, graviola, açaí,
tapioca, milho verde e leite condensado”. Renego minhas origens
paraenses e peço um de leite condensado. O calor vai derretendo
o picolé e fazendo com que gotas do dito cujo caiam sobre
as minhas anotações. Uma porquice só. E o juiz
apita o intervalo do jogo.
Aproveito o tempo para subir à lanchonete
das cabines de TV, onde há uns salgados sensacionais. Em
dois minutos, destroço uma esfiha de carne, talvez o lanche
mais sequinho da tarde. E antes de descer de volta, peço
um pedaço de bolo de chocolate. Ao chegar de volta na tribuna,
ainda encaro o deboche de alguns colegas de jornalismo esportivo.
“Tu vieste pra cá pra trabalhar ou pra comer?”.
As duas coisas, meus caros. Uma pessoa mal alimentada trabalha mal
e ainda enxerga mal o jogo.
Talvez pelo fato de estar bem nutrido, eu lembre
fotograficamente do lance do primeiro gol do Vasco. Petkovic bateu
uma falta cruzada na área. O goleiro Paulo Musse (que tem
nome de doce, só pra entrar melhor no contexto) pulou alto,
com os braços arquejados como quem quer socar a bola. Só
que o camisa 1 do Paysandu errou a mão. Ao invés de
se chocar com os punhos cerrados do arqueiro, a bola bateu no antebraço
dele e, sabe-se lá como, pegou um impacto suficiente para
morrer no fundo das redes sem que Musse tivesse tempo de impedir
a trajetória. Um frango, só para continuar nas referências
culinárias.
Três minutos depois, o Vasco virou o jogo.
Valdir fez boa jogada pela direita e cruzou com açúcar
e mel para a cabeçada de Cadu. Dez minutos depois, o jogo
acaba. E o limitado time arroz-com-galinha do Vasco vencia o não
menos pão-com-ovo Paysandu na casa do adversário.
Irritado com a infame derrota dos paraenses, ainda
devoro três espetinhos de churrasco antes de ir pra casa.
Menos mau que não era o meu time que estava em campo naquela
noite. Ainda assim, não sei dizer o que é pior: ver
um time da minha cidade na lanterna do Brasileirão ou agüentar
uma infecção intestinal um dia após essa comilança
toda.
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