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Beagá, 26 de abril de 2004 d.C.
 
Só na telinha do plim plim
Por Caboclo Alaranjado
 

Na semana passada assisti a um debate sobre jornalismo esportivo na Bienal do Livro de São Paulo. Muito se falou sobre o merchandising nos programas televisivos, sobre a diferença entre os jogadores de ontem e os de hoje, sobre a desinformação da maioria dos jornalistas... Mas o assunto que mais me chamou a atenção foi colocado em pauta por Paulo Vinícius Coelho: como a comercialização dos direitos de transmissão das competições está castrando a imprensa esportiva brasileira, especialmente a televisiva.

PVC, um dos mais coerentes e bem informados jornalistas esportivos do país, falou um pouco do drama inicial da ESPN Brasil ao ver que a maioria dos grandes eventos estava sendo comprada pela TV Globo. Mas a saída foi simples. “Resolvemos deixar de apostar nas transmissões para mudar o foco para o jornalismo”, disse. E em jornalismo, a ESPN Brasil realmente dá show.

O problema é que nem todas as emissoras de TV podem fazer o mesmo, seja por falta de estrutura, de qualidade dos profissionais, ou mesmo pelo sufocamento promovido pela Globo. Aqui em São Paulo, esta última alternativa é a mais freqüente. A emissora dos Marinho não permite que nenhuma equipe de televisão filme os jogos do campeonato brasileiro e da Libertadores na cidade. O máximo que se pode fazer é a torcida no entorno do estádio e as entrevistas nos vestiários, depois da partida. Os lances do jogo, o que realmente interessa, são comercializados (ou cedidos, dependendo da relação entre as emissoras) no dia seguinte. No máximo, 3 minutos de imagem. E nem sempre bem editados. Há quem já tenha visto compactos de imagens cedidas pela Globo a outras emissoras com cortes grosseiros, como se a edição tivesse sido feita em dois videocassetes.

Isso sem falar nos problemas a longo prazo. A Globo faz essa prática mercantilista desde 2000. Pouco tempo, você pode pensar. Mas imagine o prejuízo que tem o arquivo de uma emissora concorrente, ao ficar quatro anos sem imagens das competições mais importantes do futebol nacional e sul-americano. Acaba-se com o hoje e o amanhã das TVs.

Com tantos impedimentos, geralmente se cai numa questão quase existencialista: vale a pena cobrir esses eventos com a importância merecida? O pior é que não há outra saída, porque por mais que as emissoras não-globais roam o osso nos bastidores, elas ainda precisam vender o filé para os telespectadores. Outro dia eu acompanhava o treino do Corinthians para fazer uma matéria quando ouvi o comentário de um repórter da TV Cultura que resume bem o que eu penso sobre o assunto. “Olha a que ponto chegamos. O dinheiro está comprando até o patrimônio nacional. O campeonato brasileiro não é de quem paga mais, o campeonato brasileiro é dos brasileiros”. Assino embaixo.

E olha que nem falamos de Copa do Mundo. Vocês imaginam o que é apenas uma emissora em todo o Brasil ter as imagens do pentacampeonato? É sacanagem!

Se uma nova moda pegar, o problema pode ficar ainda maior e atingir outras mídias. Na Copa e em algumas competições internacionais, as emissoras de rádio também têm que pagar para transmitir. Como os meios de comunicação estão em crise no Brasil, não é difícil de imaginar um futuro próximo com as transmissões de futebol completamente monopolizadas.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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