| Na semana passada assisti a um debate
sobre jornalismo esportivo na Bienal do Livro de São Paulo.
Muito se falou sobre o merchandising nos programas televisivos,
sobre a diferença entre os jogadores de ontem e os de hoje,
sobre a desinformação da maioria dos jornalistas...
Mas o assunto que mais me chamou a atenção foi colocado
em pauta por Paulo Vinícius Coelho: como a comercialização
dos direitos de transmissão das competições
está castrando a imprensa esportiva brasileira, especialmente
a televisiva.
PVC, um dos mais coerentes e bem informados jornalistas
esportivos do país, falou um pouco do drama inicial da ESPN
Brasil ao ver que a maioria dos grandes eventos estava sendo comprada
pela TV Globo. Mas a saída foi simples. “Resolvemos
deixar de apostar nas transmissões para mudar o foco para
o jornalismo”, disse. E em jornalismo, a ESPN Brasil realmente
dá show.
O problema é que nem todas as emissoras de
TV podem fazer o mesmo, seja por falta de estrutura, de qualidade
dos profissionais, ou mesmo pelo sufocamento promovido pela Globo.
Aqui em São Paulo, esta última alternativa é
a mais freqüente. A emissora dos Marinho não permite
que nenhuma equipe de televisão filme os jogos do campeonato
brasileiro e da Libertadores na cidade. O máximo que se pode
fazer é a torcida no entorno do estádio e as entrevistas
nos vestiários, depois da partida. Os lances do jogo, o que
realmente interessa, são comercializados (ou cedidos, dependendo
da relação entre as emissoras) no dia seguinte. No
máximo, 3 minutos de imagem. E nem sempre bem editados. Há
quem já tenha visto compactos de imagens cedidas pela Globo
a outras emissoras com cortes grosseiros, como se a edição
tivesse sido feita em dois videocassetes.
Isso sem falar nos problemas a longo prazo. A Globo
faz essa prática mercantilista desde 2000. Pouco tempo, você
pode pensar. Mas imagine o prejuízo que tem o arquivo de
uma emissora concorrente, ao ficar quatro anos sem imagens das competições
mais importantes do futebol nacional e sul-americano. Acaba-se com
o hoje e o amanhã das TVs.
Com
tantos impedimentos, geralmente se cai numa questão quase
existencialista: vale a pena cobrir esses eventos com a importância
merecida? O pior é que não há outra saída,
porque por mais que as emissoras não-globais roam o osso
nos bastidores, elas ainda precisam vender o filé para os
telespectadores. Outro dia eu acompanhava o treino do Corinthians
para fazer uma matéria quando ouvi o comentário de
um repórter da TV Cultura que resume bem o que eu penso sobre
o assunto. “Olha a que ponto chegamos. O dinheiro está
comprando até o patrimônio nacional. O campeonato brasileiro
não é de quem paga mais, o campeonato brasileiro é
dos brasileiros”. Assino embaixo.

E olha
que nem falamos de Copa do Mundo. Vocês imaginam o que é
apenas uma emissora em todo o Brasil ter as imagens do pentacampeonato?
É sacanagem!

Se uma nova moda pegar, o problema pode ficar ainda
maior e atingir outras mídias. Na Copa e em algumas competições
internacionais, as emissoras de rádio também têm
que pagar para transmitir. Como os meios de comunicação
estão em crise no Brasil, não é difícil
de imaginar um futuro próximo com as transmissões
de futebol completamente monopolizadas.
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