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Beagá, 19 de abril de 2004 d.C.
 
Os pelotões do brasileirão
Por Caboclo Alaranjado
 

No texto passado eu tinha prometido mudar o enfoque da coluna e passar a escrever sobre jornalismo esportivo, e não mais sobre as últimas do futebol. Me permito voltar atrás pelo menos por uma semana porque o momento é oportuno. Começa neste feriado de Tiradentes a edição 2004 do dito maior e melhor campeonato do mundo. O Brasileirão está bem longe disso, mas convenhamos: é uma senhora competição.

No quesito regulamento, consolida-se a fórmula de turno, returno e pontos corridos, amada por uns, odiada por outros. Mas uma pequena novidade promete ser decisiva para dar um tempero de emoção e desespero às rodadas finais. Agora, são quatro clubes que caem para a segunda divisão, e não dois como no ano passado. Isso, aliadas às quatro vagas ofertadas para a Taça Libertadores e pelo menos oito para a Copa Sul-Americana, deve deixar pouca gente sem ter para quê torcer quando o campeonato estiver chegando ao fim.

Mas quem tem chance de ser campeão? Quem é favorito às vagas para a Libertadores? Quem pode beliscar um lugarzinho na Sul-Americana? E quem tem que contratar um exorcista para se livrar do fantasma da série B? Todo brasileiro que acha que entende de futebol tem uma opinião diferente. Eu, como bom palpiteiro que sou, tenho a minha.

Acho que os 24 clubes que disputam o Brasileirão em 2004 podem ser divididos em pelotões. A seguir, minha divisão:

Pelotão de frente - é formado, grosso modo, pelos mesmos “melhores times do Brasil” do ano passado. Dos primeiros colocados no Brasileirão 2003, os que evoluíram e pintam como candidatos mais fortes ao título são o São Caetano (que finalmente, desde 2000, tem um time realmente bom) e o São Paulo (o time de Cuca amarelou no Paulistão mas é mais forte que o de Roberto Rojas). O Santos, mesmo não tendo encontrado um matador, e o Cruzeiro, apesar de ter perdido Luxemburgo, também concorrem com moral à taça, mas menos incontestáveis que na temporada anterior. Acrescentaria a essa lista o Atlético Paranaense (com uma linha de frente invejável e um técnico competente), o Flamengo (que pode ganhar um título nas costas de Felipe do mesmo modo que fez com Júnior em 1992) e o Palmeiras (que, baladas à parte, tem um time ajeitado e entrosado).

Possíveis surpresas - o Internacional, que conseguiu manter a safra de jovens jogadores que levou a uma boa campanha em 2003, pode surpreender ainda mais. O problema está no técnico, o nada mais que mediano Lori Sandri. O Atlético Mineiro, eterno time de chegada, montou o típico time de formiguinhas que pode chegar longe, agora com o reforço de Alex Mineiro, o herói do título do xará paranaense em 2001. Por ter feito uma Segundona regular em 2003 e continuado com bons nomes como Almir e Sandro, o Botafogo também é candidato a uma vaga na Copa Sul-Americana. O Coritiba, que decepcionou na Libertadores mas levantou o bi no estadual, aposta no “quadrado mágico do ataque”, formado pelos bons Igor (ex-Flamengo), Tuta (ex-Palmeiras), Luís Mário (ex-Grêmio) e pelo ótimo Aristizábal. O Goiás perdeu Cuca e mais alguns jogadores para o São Paulo, mas recrutou o ótimo meia Rodrigo Tabata e o bom atacante Aldrovani para conquistar uma vaga na Sul-Americana pelo segundo ano consecutivo. Se o Vitória superar a falta de experiência do técnico Agnaldo Liz e os egos inflados de Edílson e Vampeta, também tem chances de beliscar um lugar na primeira metade da tábua de classificação.

Incógnitas - ninguém sabe o que esperar de Fluminense, Vasco, Figueirense, Paysandu, Juventude e Criciúma. Piadas à parte, o Flu tem um bom time no papel. Edmundo é tão cerebral em campo quanto é destemperado fora dele. E Romário ainda decide, apesar dos cabelos grisalhos. Mas com tantos trintões num torneio longo, a briga vai ser contra o Departamento Médico. O time da Cruz de Malta chegou à decisão do campeonato carioca, mas não parece ser aposta forte para o Brasileirão. A geração da prata da casa é ruim e esperar apenas de Valdir não parece muito seguro. O Figueira tem um técnico desconhecido (Dorival Júnior) e alguns medalhões (os “craques” Cléber e Sérgio Manoel). Foi campeão catarinense. Mas e daí? O Ju tem um time fraquíssimo, mas um técnico excelente, Ivo Wortmann. As chances de fracasso e sucesso são iguais. O Papão está repetindo a história dos dois últimos anos: monta um time bom, mas que acaba naufragando graças ao aproveitamento ruim fora de casa. Mas, com uma renovação de 80% no elenco, a esperança é que 2004 seja diferente. O Tigre catarinense reformulou o elenco depois da má campanha no estadual, mas resta saber se um técnico especialista em segundas divisões (Vagner Benazzi) vai dar certo na série A.

Xô, segundona! - más administrações, planejamentos errados, falta de grana, técnicos ruins, jogadores desconhecidos... A combinação de pelo menos três desses fatores está presente em todos os clubes desse pelotão. O Corinthians, depois do quase-vexame no Paulistão, não aprendeu a lição. Demorou a contratar, contratou pouco, contratou mal e deve fazer do “Deus nos acuda” o grito mais freqüente na torcida alvinegra. O Paraná também quase caiu para a segundona estadual e, como única mexida para se salvar, contratou o desconhecido treinador Paulo Campos. É muito pouco pra quem tem um time medíocre. O Grêmio deve passar pelo mesmo pesadelo de 2003. Com Baloy, Cocito e uma geração pouco aproveitável de crias da divisão de base, o tricolor gaúcho é, no papelo, ainda pior do que aquele que fez papelão no ano do centenário. Os times de Campinas também devem sofrer com maus bocados. O Guarani tem a pior safra de jogadores dos últimos anos e ainda tem dois ícones da enganação como estrelas: o atacante Viola e o técnico Joel Santana. A Ponte Preta, que quase caiu em 2003, ainda passa pelos mesmos problemas financeiros e futebolísticos. Na pindaíba, a Macaca tem um elenco medíocre e um treinador pouco conhecido.

Daqui a oito meses a gente confere esses palpites. A sorte está lançada!

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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