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Beagá, 09 de fevereiro de 2004 d.C.
 
Uma baita revista
Por Caboclo Alaranjado
 

Era abril de 1990 quando um garotinho de 7 anos que adorava banca de jornais se encantou com uma determinada revista. A capa era uma foto com 12 ídolos do futebol na época (Zico, Careca, Bebeto...) vestindo camisas com uma letra em cada uma, formando a frase “Placar 20 Anos”. Foi o suficiente para fazer com que o garoto pedisse alguns cruzeiros para a mãe e comprasse a revista. Começava ali uma relação quase indefinível entre um aficcionado por futebol e uma fonte de informação.

Podem dizer o que quiserem, mas ainda acho a Placar uma baita revista. E o meu hábito de lê-la já dura quase 14 anos. Foi nessas páginas que me eduquei em futebol, que me informei sobre o passado glorioso daqueles que viriam a ser meus clubes de coração, acompanhei quatro Copas do Mundo, fracassos e sucessos da seleção brasileira, idas e vindas de jogadores, biografias de antigos craques... Uma riqueza de informações, preciosidades que guardo pra sempre.

Nesse tempo, ela passou por altos e baixos (até mais baixos do que altos) mas ainda é a mais respeitada - na verdade, é a única - revista brasileira sobre futebol. No início da minha carreira de leitor, ela era semanal e bem centrada no factual. Tinha aquelas crônicas dos jogos da semana, notícias quentinhas... e ainda tinha, religiosamente, na última página, escudinhos de botão para recortar! Para um moleque, aquilo ali era o deleite máximo... Depois bateu a crise financeira e ela passou a ser mensal e temática. Cada edição era dedicada exclusivamente a um assunto. Grandes reportagens, que elucidavam mais que muitos verbetes de enciclopédias.

Aí, de 1994 pra 1995, nova crise. A revista passou alguns meses sem circular, antes de uma reformulação ousada para ganhar leitores e, por que não?, anunciantes. A revista ficou com um tamanho gigantesco e adotou um odioso slogan: “futebol, sexo e rock and roll”. O enfoque do factual se desvirtuou completamente... No lugar do feijão com arroz adubado, matérias de comportamento que abordavam até a vida sexual (!!!) dos jogadores... Pra mim, foi um tempo de decadência. A revista que me ensinou quem foram Pelé, Garrincha e Nilton Santos, que me contou as glórias do Santos dos anos 60 e do Flamengo dos anos 80, agora estava dizendo quais os lugares mais insólitos onde os atletas já tinham transado. Faça-me o favor.

Ainda bem que, aos poucos, o enfoque voltou para onde não deveria ter saído nunca: o futebol. E em 2001, para a alegria dos saudosistas, a Placar voltou a ser semanal. Acho que foi a melhor fase da revista desde que comecei a lê-la. Afinal, o futebol brasileiro rende assunto demais pra ser resumido em páginas mensais. Pena que durou pouco, graças a uma nova crise. Hoje ela é mensal de novo, mas com uma qualidade impecável.

Talvez tenha gente se perguntando... Mas por que diabos esse caboclo está gastando tantas linhas pra escrever sobre uma revista, como que fizesse propaganda da concorrência? Bem, usando um termo estritamente jornalístico e desvirtuando totalmente a regra da “pirâmide invertida”, agora é que estamos chegando ao lead da matéria... Este mês, realizei o velho sonho de escrever para a Placar. Ainda duvidava de que fosse possível até ver o meu nome no rodapé de uma matéria sobre o Agnaldo, atual técnico do Remo. Pode parecer piegas, mas não consegui esconder um sorriso de orelha a orelha depois que comprei a revista. Está lá, na primeira página da seção "Abrindo o Jogo", ao lado da coluna do Milton Neves (ugh!). Esta edição aí vai merecer o melhor lugar na minha coleção e virar motivo de orgulho por muitos anos...

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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