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Beagá, 05 de janeiro de 2004 d.C.
 
Wortmann: vida após Givanildo Oliveira
Por Caboclo Alaranjado
 

Depois que Givanildo Oliveira deixou o Paysandu, durante o campeonato brasileiro de 2002, pensei que o futebol paraense nunca mais teria um treinador com tamanha competência. Ainda bem que eu estava enganado. Depois do esporrento Hélio dos Anjos e do inerte Dario Pereyra, o Papão teve o privilégio de ser comandado pelo gaúcho Ivo Wortmann que, se não coleciona tantos títulos quanto Givanildo, tem tanto conhecimento e tanto pulso quanto o marrento pernambucano.

Ivo chegou a Belém em maio de 2003 sob o signo da desconfiança. A torcida do Paysandu estava ressabiada com o "técnico que caiu com o Botafogo para a série B". De fato, o currículo de Ivo Wortmann como treinador apresentava até então poucos sucessos nos clubes brasileiros. O melhor momento havia sido a Copa Sul Minas de 1999, à frente do Coritiba. Mas como o Papão vivia um tempo em que acertava até na contratação de massagistas, sobrava um pouquinho de esperança.

Logo nos primeiros jogos sob o comando de Ivo, o Paysandu era a imagem da mudança em forma de time de futebol: mais brigador, mais aguerrido e principalmente mais organizado taticamente. Os bons resultados vieram naturalmente. Durante algumas rodadas falava-se até em volta à Libertadores aqui em Belém. Wortmann estava elevado à condição de salvador da pátria.

Só que tudo aos poucos virou farelo quando os grandes jogadores do Papão foram deixando o clube no meio do campeonato. Iarley foi para o Boca Juniors, Róbson para o Japão, Balão para a Coréia... Ivo sofreu com uma dolorosa conseqüência: ficou sem bons atacantes no time. As contratações de Aldrovani e Júnior Amorim foram um remédio efêmero, graças à presepada do STJD. Da mesma forma que as vitórias vieram no turno, os tropeços vieram no returno. E Ivo sofria junto, como um torcedor daqueles que vai ao treino todos os dias. À medida que o Paysandu ficava mais próximo do rebaixamento, ele não conseguia esconder um ar de tensão. Vivia confessando aos repórteres que não conseguia dormir direito nas semanas das rodadas decisivas. E vivia se lamentando, com razão, da fuga dos craques da Curuzu.

Esse sofrimento contido, pelo menos pra mim, traduz o profissionalismo de um treinador. É muito fácil para um técnico que vem lá do Sul comandar um time do Norte, receber o salário todo fim de mês e empurrar o time com a barriga até o fim do contrato. Não para alguém como Ivo Wortmann. Na hora do apito final de Paysandu x Atlético Paranaense, Ivo parecia ter nascido no dia da famigerada goleada de 7 x 0 do Papão sobre o Remo. Parecia ter visto os grandes ídolos da década de 70, comemorado a vitoriosa década de 80, os dois títulos da série B e a vitória sobre o Boca na Bombonera. Era quase um torcedor de alambrado da Curuzu, eu diria.

Na despedida, Ivo Wortmann disse que gostaria de deixar portas abertas no Paysandu e que o clube já ocupava um lugar no coração dele. É a frase-símbolo da demagogia no futebol mas, pelo menos no futebol paraense, nunca pareceu tão sincera.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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