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Depois
que Givanildo Oliveira deixou o Paysandu, durante o campeonato brasileiro
de 2002, pensei que o futebol paraense nunca mais teria um treinador
com tamanha competência. Ainda bem que eu estava enganado. Depois
do esporrento Hélio dos Anjos e do inerte Dario Pereyra, o Papão
teve o privilégio de ser comandado pelo gaúcho Ivo Wortmann que,
se não coleciona tantos títulos quanto Givanildo, tem tanto conhecimento
e tanto pulso quanto o marrento pernambucano.
Ivo
chegou a Belém em maio de 2003 sob o signo da desconfiança. A torcida
do Paysandu estava ressabiada com o "técnico que caiu com o Botafogo
para a série B". De fato, o currículo de Ivo Wortmann como treinador
apresentava até então poucos sucessos nos clubes brasileiros. O
melhor momento havia sido a Copa Sul Minas de 1999, à frente do
Coritiba. Mas como o Papão vivia um tempo em que acertava até na
contratação de massagistas, sobrava um pouquinho de esperança.
Logo
nos primeiros jogos sob o comando de Ivo, o Paysandu era a imagem
da mudança em forma de time de futebol: mais brigador, mais aguerrido
e principalmente mais organizado taticamente. Os bons resultados
vieram naturalmente. Durante algumas rodadas falava-se até em volta
à Libertadores aqui em Belém. Wortmann estava elevado à condição
de salvador da pátria.
Só
que tudo aos poucos virou farelo quando os grandes jogadores do
Papão foram deixando o clube no meio do campeonato. Iarley foi para
o Boca Juniors, Róbson para o Japão, Balão para a Coréia... Ivo
sofreu com uma dolorosa conseqüência: ficou sem bons atacantes no
time. As contratações de Aldrovani e Júnior Amorim foram um remédio
efêmero, graças à presepada do STJD. Da mesma forma que as vitórias
vieram no turno, os tropeços vieram no returno. E Ivo sofria junto,
como um torcedor daqueles que vai ao treino todos os dias. À medida
que o Paysandu ficava mais próximo do rebaixamento, ele não conseguia
esconder um ar de tensão. Vivia confessando aos repórteres que não
conseguia dormir direito nas semanas das rodadas decisivas. E vivia
se lamentando, com razão, da fuga dos craques da Curuzu.
Esse
sofrimento contido, pelo menos pra mim, traduz o profissionalismo
de um treinador. É muito fácil para um técnico que vem lá do Sul
comandar um time do Norte, receber o salário todo fim de mês e empurrar
o time com a barriga até o fim do contrato. Não para alguém como
Ivo Wortmann. Na hora do apito final de Paysandu x Atlético Paranaense,
Ivo parecia ter nascido no dia da famigerada goleada de 7 x 0 do
Papão sobre o Remo. Parecia ter visto os grandes ídolos da década
de 70, comemorado a vitoriosa década de 80, os dois títulos da série
B e a vitória sobre o Boca na Bombonera. Era quase um torcedor de
alambrado da Curuzu, eu diria.
Na
despedida, Ivo Wortmann disse que gostaria de deixar portas abertas
no Paysandu e que o clube já ocupava um lugar no coração dele. É
a frase-símbolo da demagogia no futebol mas, pelo menos no futebol
paraense, nunca pareceu tão sincera.
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