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Beagá, 10 de novembro de 2003 d.C.
 
Relatos de uma pelada
Por Caboclo Alaranjado
 

Domingo é dia de futebol? Certo. E também de estádios lotados, de grandes jogos e torcedores fazendo festa? Nem sempre. Se estivermos falando do campeonato paraense da segunda divisão, nunca. E não é exagero. Dá até vontade de suplicar por uma partidinha da série C do campeonato brasileiro que, perto da pelada que acompanhei no último domingo, se torna quase uma Copa do Mundo.

A ilha do Outeiro fica um bocado longe do centro de Belém. Cerca de 40km. Lá fica o estádio Alfredo Tragni, mais conhecido como CT do Carajás, palco da aventura do último fim de semana: o excepcional jogo Vila Rica x Izabelense. Se chamar esta arena de CT já é exagero, imaginem de estádio. Não há arquibancadas cercando o campo. Apenas um alambrado separa o gramado dos espectadores, que são, na maioria, parentes, amigos ou até namoradas dos jogadores. Como não há instalações adequadamente confortáveis, muitas pessoas literalmente invadem as cabines de imprensa para ver o jogo com um pouco mais de sossego.

Se livrar dos folgados é o primeiro desafio dos poucos jornalistas que cobrem a partida. A sorte é que nenhum dos invasores é mal educado. Assim que eles vêem as câmeras de televisão, abrem espaço. Conseguir as numerações das equipes é outra coisa que se resolve de uma forma bem diferente dos grandes jogos. Assessor de imprensa? Supervisor? Radialista? Nada... Quem fornece as escalações é a própria mesa de arbitragem, ou até mesmo um dos jogadores que está no banco. Fiquei na expectativa de encontrar algum apelido engraçadíssimo, mas me decepcionei. O máximo que consegui foi dar alguma risada da rimada dupla de ataque do Vila Rica, Rico e Tico.

O árbitro apita o início do jogo e a primeira sensação que dá é pena. Pena dos uniformes desbotados de tanto lavar, pena das chuteiras rasgadas e da solidão que os jogadores enfrentam tendo de entrar em campo para quase ninguém. Mas a partida em si também dá dó. Passes errados, chutinhos sem graça e lances dignos do bordão "até vovó faria melhor". Esquema tático? Isso definitivamente não existe... Vai atrás da bola quem tem mais fôlego, como naqueles jogos do colégio. Para aqueles que têm um pouco de gás é moleza. O problema é que alguns dos jogadores em campo demonstram um preparo físico digno de atleta de dominó.

O Vila Rica faz 1x0 no primeiro tempo, mas isso não ajuda a melhorar a qualidade da pelada. Os poucos chutes a gol arrancam sons dos espectadores. Mas não são os "uuuhh" típicos de um lance de perigo, e sim gargalhadas daquelas. Tanto é que até o segundo gol do Vila Rica, o grande momento da partida é o carrinho que o zagueiro do Izabelense dá próximo à linha lateral e que atinge o técnico do infeliz. Quem filmava a cena vai garantir uns trocados se vender as imagens para as videocassetadas do Faustão.

No segundo tempo, as substituições que os treinadores fazem pegam de surpresa o narrador de uma das emissoras que estava presente no estádio. A toda hora que entra um jogador reserva em campo, ele me pergunta "quem é esse aí?", como se a câmera e o microfone não estivessem registrando aquela embaraçosa dúvida. Na cabine ao nosso lado, está o presidente do Vila Rica. Insatisfeito com o desempenho do time (apesar da vitória), ele não pára de destilar uma lista de palavrões contra os jogadores. "Que moleza, c******! Tu estás com verme, é?", esbraveja ele para o zagueiro que deixa um atacante adversário passar com a maior facilidade. Da cabine também saem outros gritos. "Vai, tesouro!", berra uma mulher para um jogador em especial, que ninguém conseguiu descobrir quem era. Risadas gerais.

As duas pessoas gritantes se calam com o segundo gol da partida. O presidente amansa a voz porque é o Vila Rica quem estufa as redes. Não se sabe ao certo o motivo que fez a mulher parar de proferir suas palavras de incentivo. Especula-se que tenha sido porque o zagueiro do Izabelense que levou um constrangedor drible da vaca era namorado dela.

O Vila Rica ainda faz 3x0 num belo peixinho do zagueiro Magrão e comemora a vitória que deixa o time a um pé da primeira divisão do futebol paraense. O objetivo, agora mais próximo, não chega a ser o céu do futebol. Mas para quem vive o inferno do esquecimento e da pindaíba, um purgatório já é alguma coisa.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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