|
Domingo
é dia de futebol? Certo. E também de estádios lotados, de grandes
jogos e torcedores fazendo festa? Nem sempre. Se estivermos falando
do campeonato paraense da segunda divisão, nunca. E não é exagero.
Dá até vontade de suplicar por uma partidinha da série C do campeonato
brasileiro que, perto da pelada que acompanhei no último domingo,
se torna quase uma Copa do Mundo.
A
ilha do Outeiro fica um bocado longe do centro de Belém. Cerca de
40km. Lá fica o estádio Alfredo Tragni, mais conhecido como CT do
Carajás, palco da aventura do último fim de semana: o excepcional
jogo Vila Rica x Izabelense. Se chamar esta arena de CT já é exagero,
imaginem de estádio. Não há arquibancadas cercando o campo. Apenas
um alambrado separa o gramado dos espectadores, que são, na maioria,
parentes, amigos ou até namoradas dos jogadores. Como não há instalações
adequadamente confortáveis, muitas pessoas literalmente invadem
as cabines de imprensa para ver o jogo com um pouco mais de sossego.
Se
livrar dos folgados é o primeiro desafio dos poucos jornalistas
que cobrem a partida. A sorte é que nenhum dos invasores é mal educado.
Assim que eles vêem as câmeras de televisão, abrem espaço. Conseguir
as numerações das equipes é outra coisa que se resolve de uma forma
bem diferente dos grandes jogos. Assessor de imprensa? Supervisor?
Radialista? Nada... Quem fornece as escalações é a própria mesa
de arbitragem, ou até mesmo um dos jogadores que está no banco.
Fiquei na expectativa de encontrar algum apelido engraçadíssimo,
mas me decepcionei. O máximo que consegui foi dar alguma risada
da rimada dupla de ataque do Vila Rica, Rico e Tico.
O
árbitro apita o início do jogo e a primeira sensação que dá é pena.
Pena dos uniformes desbotados de tanto lavar, pena das chuteiras
rasgadas e da solidão que os jogadores enfrentam tendo de entrar
em campo para quase ninguém. Mas a partida em si também dá dó. Passes
errados, chutinhos sem graça e lances dignos do bordão "até vovó
faria melhor". Esquema tático? Isso definitivamente não existe...
Vai atrás da bola quem tem mais fôlego, como naqueles jogos do colégio.
Para aqueles que têm um pouco de gás é moleza. O problema é que
alguns dos jogadores em campo demonstram um preparo físico digno
de atleta de dominó.
O
Vila Rica faz 1x0 no primeiro tempo, mas isso não ajuda a melhorar
a qualidade da pelada. Os poucos chutes a gol arrancam sons dos
espectadores. Mas não são os "uuuhh" típicos de um lance de perigo,
e sim gargalhadas daquelas. Tanto é que até o segundo gol do Vila
Rica, o grande momento da partida é o carrinho que o zagueiro do
Izabelense dá próximo à linha lateral e que atinge o técnico do
infeliz. Quem filmava a cena vai garantir uns trocados se vender
as imagens para as videocassetadas do Faustão.
No
segundo tempo, as substituições que os treinadores fazem pegam de
surpresa o narrador de uma das emissoras que estava presente no
estádio. A toda hora que entra um jogador reserva em campo, ele
me pergunta "quem é esse aí?", como se a câmera e o microfone não
estivessem registrando aquela embaraçosa dúvida. Na cabine ao nosso
lado, está o presidente do Vila Rica. Insatisfeito com o desempenho
do time (apesar da vitória), ele não pára de destilar uma lista
de palavrões contra os jogadores. "Que moleza, c******! Tu estás
com verme, é?", esbraveja ele para o zagueiro que deixa um atacante
adversário passar com a maior facilidade. Da cabine também saem
outros gritos. "Vai, tesouro!", berra uma mulher para um jogador
em especial, que ninguém conseguiu descobrir quem era. Risadas gerais.
As
duas pessoas gritantes se calam com o segundo gol da partida. O
presidente amansa a voz porque é o Vila Rica quem estufa as redes.
Não se sabe ao certo o motivo que fez a mulher parar de proferir
suas palavras de incentivo. Especula-se que tenha sido porque o
zagueiro do Izabelense que levou um constrangedor drible da vaca
era namorado dela.
O
Vila Rica ainda faz 3x0 num belo peixinho do zagueiro Magrão e comemora
a vitória que deixa o time a um pé da primeira divisão do futebol
paraense. O objetivo, agora mais próximo, não chega a ser o céu
do futebol. Mas para quem vive o inferno do esquecimento e da pindaíba,
um purgatório já é alguma coisa.
|