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Beagá, 29 de setembro de 2003 d.C.
 
O nosso Peter Shilton
Por Caboclo Alaranjado
 

A camisa 1 da seleção brasileira está órfã de um de seus maiores heróis. Taffarel, campeão do mundo em 94 e personagem de tantas outras glórias do escrete, resolveu abandonar o futebol esta semana. O goleiro sai de cena aos 37 anos, bem depois dos grandes momentos da carreira, mas é impossível dizer que ele pendura as chuteiras (e as luvas) no esquecimento. Até porque vai ser muito difícil esquecer um jogador como ele.

Em quase vinte anos, Taffarel colecionou triunfos como poucos goleiros o fizeram até hoje. Foi titular quase incontestável da seleção brasileira de 89 a 98, jogou mais de cem partidas com a amarelinha, disputou três Copas do Mundo... Foi ele também o primeiro goleiro brasileiro a jogar na Europa. O fato abriu as portas do mercado internacional para os nossos arqueiros, mas poucos tiveram competência e méritos para emplacar lá fora. Depois dele, apenas Dida (hoje estrela do Milan) conseguiu ser bem-sucedido no velho continente. E olha que os clubes que Taffarel defendeu não chegam nem perto de ser um esquadrão como o rubro-negro da Itália. Parma, Reggiana, Reggina, Galatasaray... Só que a tradição desses times é inversamente proporcional ao carinho que as torcidas têm pelo herói do tetra.

Aqui no Brasil não é diferente. Se as torcidas do Inter de Porto Alegre e do Atlético Mineiro escolhessem numa votação o goleiro mais querido que passou pelo clube em todos os tempos, Taffarel certamente seria o vencedor nas duas eleições. No Rio Grande do Sul, ele ainda é tido como um dos mais notáveis jogadores nascidos no estado. Em Minas, ele é visto como um exemplo de caráter e de profissionalismo.

Mas aí você pode perguntar: "de que adianta ser querido, ter caráter e personalidade se o jogador não for bom?". Realmente, Taffarel não era bom. Ele era ótimo, era o melhor. Imbatível na saída do gol, impecável na segurança e especialista na loteria dos pênaltis. E não era frio como o "melhor do mundo" Oliver Kahn. Taffarel jogava com o coração. Basta lembrar das últimas Copas que ele disputou (especificamente dos jogos contra a Itália, em 94, e contra a Holanda, em 98) para ter certeza disso.

Com um histórico tão recheado de grandes momentos, ainda há quem prefira lembrar dos atos falhos de Taffarel, como os gols sofridos contra a Bolívia nas Eliminatórias de 93 e contra o Uruguai na Copa América de 95. Só que como todo grande homem, o grande goleiro também tem um quê de Cristo em frase de pára-choque: vive na cruz, mas só ele salva.

Certamente, não vão faltar candidatos a promotores de uma despedida festiva de Taffarel. Seriam necessárias pelo menos dez partidas para fazer jus à importância dele no futebol nacional. O próprio técnico Carlos Alberto Parreira já acenou com a possibilidade de convocá-lo para os próximos dois jogos da seleção pelas Eliminatórias da Copa como forma de homenagear o goleiro. Aí, quem sabe, a torcida brasileira não pode bradar pela última vez o genial bordão criado pelo famigerado Galvão Bueno: "Sai que é suuuuuuua, Taffarel!!!". E dessa vez, para guarda-lo eternamente.

A primeira fase da Segundona 2003 termina sem surpresas. Palmeiras e Botafogo ficaram em primeiro e segundo lugares, os três times pernambucanos se classificaram e os dois times que subiram da série C no ano passado cavaram um lugarzinho entre os melhores. Tendo em mãos o cruzamento das duas chaves, tenho a ousadia de fazer aqui uns prognósticos...

Grupo B - Palmeiras, Brasiliense, Sport Recife e Santa Cruz.
É o grupo mais forte, sem dúvida. O Palmeiras começou mal o campeonato, mas se tornou um verdadeiro aniquilador nas últimas rodadas, aplicando goleadas até fora de casa. Provavelmente, nem vai precisar da mão amiga da arbitragem ou do favorecimento da CBF para ficar com uma das duas vagas. Sport Recife e Santa Cruz devem fazer uma briga digna de rinha pelo segundo lugar. Os dois times são bons e têm torcida, o que já é meio caminho andado numa segunda divisão. Aposto um pouco mais de fichas no Santa. O Brasiliense, na minha opinião, é o café-com-leite do grupo. Tem no elenco um amontoado de jogadores que passaram por grandes clubes com razoável sucesso. Só que essa receita de medalhões nunca dá certo...

Grupo C - Botafogo, Remo, Marília e Náutico.
Como nenhum dos times é extraordinário, vai prevalecer aquele que tiver mais conjunto. É o caso do Remo e do Náutico. O Leão Azul paraense tem jogadores de segunda, mas um técnico de primeira. Givanildo Oliveira transformou o Remo em um time de chegada, daqueles que brigam pela vitória do início ao fim. O alvirrubro pernambucano tem o melhor elenco e está vivendo uma ótima fase. Conquistou a classificação que parecia impossível ao vencer as quatro últimas partidas. Outro ponto a favor do time do artilheiro Kuki: duas dessas quatro vitórias do Náutico foram sobre companheiros de quadrangular (Remo e Botafogo) nas casas dos adversários. O Botafogo terminou em segundo, mas tem um timinho vagabundo que só tem como ponto forte a tradição do clube e olhe lá. Pelo menos, ainda tem uma grande torcida, ao contrário do Marília. O time do interior de São Paulo é o franco atirador do grupo, e provavelmente o candidato mais fraco às duas vagas. Aposto na classificação do Náutico em primeiro e do Remo em segundo, numa briga feia com o Botafogo.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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