|
A cultura
da nomenclatura dos jogadores brasileiros de futebol sempre foi
diferente da maioria dos outros países. Enquanto na Europa (e até
nos nossos vizinhos sul-americanos) os atletas são chamados pelo
sobrenome, muitos dos craques brazucas são conhecidos por apelidos.
Uns ficam para a eternidade, como Pelé. Você já imaginou se na camisa
10 do Santos bicampeão mundial estivesse escrito "Nascimento"? Mas
a maioria não passa de infames alcunhas, que fazem os coitados serem
mais lembrados como motivo de piadas do que pela qualidade do futebol
que jogam.
No
Brasil, alguns desses codinomes fizeram história em menor escala
do que o Rei Pelé: César Maluco, Serginho Chulapa, Rui Rei, Cafuringa...
Esses todo mundo conhece. Mas no Pará existiram (e existem) alguns
apelidos que merecem figurar no Livro de Ouro do Futebol Mundial
(se é que ele já foi criado).
Em
terras paraenses, uma mania constante que os jogadores têm é de
usar como apelido o nome da cidade onde nasceram. E como algumas
delas não são exatamente normais, rendem títulos engraçadíssimos.
Como Chico Monte Alegre (zagueiro do Remo e do Sport no início dos
anos 90), Belterra (zagueiro de Remo, Paysandu e Tuna na década
de 90), Irituia (zagueiro do Remo), Marcelo Parauapebas (meio-campo
do Remo) e Wilson Itupiranga (meio-campo do Águia).
A categoria
seguinte é a da criatividade na escolha da alcunha. Nela se encaixa
o maior craque da história do Paysandu: o atacante Quarentinha,
que também fez sucesso no Botafogo antes da era Garrincha. Outros
nomes que figuram nessa ilustre galeria são o ex-centroavante do
Paysandu Pau Preto (aquele que deixava os locutores ressabiados
quando entrava com bola e tudo, na década de 50), o ex-lateral do
Remo Meio Quilo (que era levinho, levinho) e o ex-atacante Luizinho
das Arábias. Luizinho, aliás, teve um fim que nem os sheiks árabes
explicariam. Morreu de causas desconhecidas e só teve o corpo encontrado
dentro do próprio apartamento três dias depois.
Uma
outra história lendária é a do atacante Castor. Para entender o
apelido, era só olhar para o garoto: os dentes protuberantes faziam
ele parecer um dos Chipmunks. Em 1996, ele era uma das promessas
do Remo: habilidoso, rápido e bom finalizador. E ele teve chances
de aparecer para o futebol nacional na Copa do Brasil daquele ano,
quando o Remo esteve bem perto de eliminar o Corinthians. Depois
de um 0x0 em São Paulo, os paraenses venciam por 1x0 no Mangueirão
até os 47 minutos do segundo tempo. Foi quando o Corinthians teve
a última chance de ataque. Num bate-rebate na área do Remo, a bola
sobrou para... Castor!!! Como se estivesse na área do adversário,
ele encheu o pé e o goleiro remista nada pôde fazer. Foi um dos
gols contra mais bonitos da história do futebol e talvez o mais
doloroso para a torcida do Remo. Depois desse papelão, Castor não
conseguiu roer nenhuma boa oportunidade. Passou um tempo no ostracismo
e reapareceu em clubes pequenos do futebol paraense.
A fábrica
de apelidos boleiros no Pará segue a todo vapor e, mesmo sem histórias
como a de Castor, produz risadas memoráveis. Quem acompanhou o campeonato
estadual de 2003, viu uma atração paralela: o concurso dos nomes
mais engraçados. Do São Raimundo, de Santarém, saíram candidatos
como o goleiro Labilá, o meio-campo Peruca e o atacante Balança.
Do Paysandu, se apresentaram o meio-campo Lecheva e o atacante Balão.
Mas nenhum clube exportou tanta criatividade em apelidos como a
Tuna Luso. De lá saíram o goleiro Lubrax (que, dizem as más línguas,
tem as mãos lisas como se estivessem besuntadas pelo óleo lubrificante
da Petrobrás), os zagueiros Tarubá e Guará e a meiúca mais recheada
de duplos sentidos da história do futebol brasileiro: Tromba, Bironga
e Mário Bocão, além do reserva Revé.
Se
o Pará revelou poucos craques para o futebol nacional, pelo menos
a criatividade nos apelidos é padrão exportação.
|