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Beagá, 11 de agosto de 2003 d.C.
 
Causos do futebol paraense
Episódio II - Os apelidos
Por Caboclo Alaranjado
 

A cultura da nomenclatura dos jogadores brasileiros de futebol sempre foi diferente da maioria dos outros países. Enquanto na Europa (e até nos nossos vizinhos sul-americanos) os atletas são chamados pelo sobrenome, muitos dos craques brazucas são conhecidos por apelidos. Uns ficam para a eternidade, como Pelé. Você já imaginou se na camisa 10 do Santos bicampeão mundial estivesse escrito "Nascimento"? Mas a maioria não passa de infames alcunhas, que fazem os coitados serem mais lembrados como motivo de piadas do que pela qualidade do futebol que jogam.

No Brasil, alguns desses codinomes fizeram história em menor escala do que o Rei Pelé: César Maluco, Serginho Chulapa, Rui Rei, Cafuringa... Esses todo mundo conhece. Mas no Pará existiram (e existem) alguns apelidos que merecem figurar no Livro de Ouro do Futebol Mundial (se é que ele já foi criado).

Em terras paraenses, uma mania constante que os jogadores têm é de usar como apelido o nome da cidade onde nasceram. E como algumas delas não são exatamente normais, rendem títulos engraçadíssimos. Como Chico Monte Alegre (zagueiro do Remo e do Sport no início dos anos 90), Belterra (zagueiro de Remo, Paysandu e Tuna na década de 90), Irituia (zagueiro do Remo), Marcelo Parauapebas (meio-campo do Remo) e Wilson Itupiranga (meio-campo do Águia).

A categoria seguinte é a da criatividade na escolha da alcunha. Nela se encaixa o maior craque da história do Paysandu: o atacante Quarentinha, que também fez sucesso no Botafogo antes da era Garrincha. Outros nomes que figuram nessa ilustre galeria são o ex-centroavante do Paysandu Pau Preto (aquele que deixava os locutores ressabiados quando entrava com bola e tudo, na década de 50), o ex-lateral do Remo Meio Quilo (que era levinho, levinho) e o ex-atacante Luizinho das Arábias. Luizinho, aliás, teve um fim que nem os sheiks árabes explicariam. Morreu de causas desconhecidas e só teve o corpo encontrado dentro do próprio apartamento três dias depois.

Uma outra história lendária é a do atacante Castor. Para entender o apelido, era só olhar para o garoto: os dentes protuberantes faziam ele parecer um dos Chipmunks. Em 1996, ele era uma das promessas do Remo: habilidoso, rápido e bom finalizador. E ele teve chances de aparecer para o futebol nacional na Copa do Brasil daquele ano, quando o Remo esteve bem perto de eliminar o Corinthians. Depois de um 0x0 em São Paulo, os paraenses venciam por 1x0 no Mangueirão até os 47 minutos do segundo tempo. Foi quando o Corinthians teve a última chance de ataque. Num bate-rebate na área do Remo, a bola sobrou para... Castor!!! Como se estivesse na área do adversário, ele encheu o pé e o goleiro remista nada pôde fazer. Foi um dos gols contra mais bonitos da história do futebol e talvez o mais doloroso para a torcida do Remo. Depois desse papelão, Castor não conseguiu roer nenhuma boa oportunidade. Passou um tempo no ostracismo e reapareceu em clubes pequenos do futebol paraense.

A fábrica de apelidos boleiros no Pará segue a todo vapor e, mesmo sem histórias como a de Castor, produz risadas memoráveis. Quem acompanhou o campeonato estadual de 2003, viu uma atração paralela: o concurso dos nomes mais engraçados. Do São Raimundo, de Santarém, saíram candidatos como o goleiro Labilá, o meio-campo Peruca e o atacante Balança. Do Paysandu, se apresentaram o meio-campo Lecheva e o atacante Balão. Mas nenhum clube exportou tanta criatividade em apelidos como a Tuna Luso. De lá saíram o goleiro Lubrax (que, dizem as más línguas, tem as mãos lisas como se estivessem besuntadas pelo óleo lubrificante da Petrobrás), os zagueiros Tarubá e Guará e a meiúca mais recheada de duplos sentidos da história do futebol brasileiro: Tromba, Bironga e Mário Bocão, além do reserva Revé.

Se o Pará revelou poucos craques para o futebol nacional, pelo menos a criatividade nos apelidos é padrão exportação.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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