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Beagá, 07 de abril de 2003 d.C.
 
Brasileirão: depois de nove meses é que se vê o resultado
Por Caboclo Alaranjado
 

O campeão brasileiro de 2003 vai ser conhecido após uma verdadeira gestação: quase nove meses de jogos, com todos os clubes se enfrentando em turno e returno. E pela primeira vez pode-se afirmar com certeza que o melhor vai vencer, já que o formato de pontos corridos não permite injustiças.

Acredito que a grande vantagem desse sistema de disputa no nosso país é a grande quantidade de candidatos ao título. Enquanto em alguns campeonatos, como o português e o espanhol, a briga é polarizada entre no máximo três equipes, o Brasileirão sempre tem pelo menos dez times com potencial para chegar em primeiro. Isso sem contar com as zebras ocasionais...

Se por um lado o campeonato tem boas chances de ter emoção até a última rodada, também vai ser um teste para o torcedor brasileiro. Ele, que tem a má fama de imediatista, de não apreciar nada a longo prazo e de ser exterminador de treinadores, vai ter a paciência e os nervos à prova. Por exemplo, num torneio de turno único, uma seqüência de três derrotas significa derrocada à vista, certo? Mas numa competição de turno e returno, é um revés altamente recuperável.

Teste para o torcedor e para os cartolas, também. As diretorias que costumam, ao longo da temporada, demitir e contratar jogadores com a velocidade de uma McLaren vão ter de planejar melhor a formação dos elencos. Quem fez má campanha nos estaduais, na Copa do Brasil ou na Libertadores é quem sai perdendo, afinal não houve tempo para aquelas contratações em cima da hora e muito menos para uma pré-temporada. Desvantagem também para quem trocou de técnico agora e tem que recomeçar todo o trabalho de preparação e entrosamento.

Pelo que se viu nos jogos deste início de ano, os times paulistas são favoritos incontestáveis. Santos, Corinthians e São Paulo têm os melhores times do Brasil, tanto no talento individual quanto na aplicação tática. Os cariocas, coitadinhos, estão a anos-luz... O Fluminense, que encontrou em Renato Gaúcho um grande estrategista e líder, é quem mais parece estar em condições de brigar pelo caneco. Fora desse eixo, os candidatos são o Cruzeiro (um time renovado e fortalecido, que o técnico Luxemburgo tem na mão) e o Grêmio (favorito de sempre, com a mesma base do ano passado).

Os aspirantes a azarão apostam nos gols de seus respectivos matadores. O Criciúma, campeão da série B do ano passado, tem Delmer e Dejair. A torcida do Fortaleza, que também volta à Primeirona este ano, já fez até música para um atacante baixinho, feioso e decisivo. É Clodoaldo, que deve ter feito um contrato de publicidade com a Rede Globo, tamanho é o oba-oba feito pela emissora em torno dele. Aqui de Belém, o Paysandu apresenta Róbson, oportunamente chamado de Robgol. O centroavante paraibano, artilheiro do campeonato paraense e da Taça Libertadores, tem uma média invejável de 1,2 gols por partida nesta temporada.

Mas tudo ainda é incerteza. Nessas 46 rodadas, os favoritos podem virar fiascos, os azarões podem se tornar decepções e os times com menos expectativas podem terminar entre os primeiros. É essa imprevisibilidade que dá graça ao campeonato brasileiro, que tem tudo pra ser o melhor da história. Façam suas apostas!

Mudando um pouco de assunto, como meu editor deu carta branca para falar de qualquer esporte na coluna, achei interessante escrever sobre a Fórmula 1. A temporada já começou há mais de um mês, mas teve no último fim de semana o tão esperado Grande Prêmio do Brasil. E, só pra manter uma escrita de nove temporadas consecutivas, Rubens Barrichello não conseguiu nem terminar a prova.

Ao contrário das corridas anteriores em Interlagos, Rubinho contava com todos os elementos necessários para vencer. Vamos conferir? Antes: quando ele era da Jordan ou da Stewart, dizia que o motor não era bom o suficiente. 2003: guia simplesmente uma Ferrari. Antes: não conseguia uma posição muito boa no grid. 2003: larga na pole position. Antes: reclamava da preferência da equipe italiana ao companheiro Michael Schumacher. Hoje: o alemão não conseguiu mais que o sétimo lugar na largada. Antes: "se chovesse, eu não perderia...". Hoje: choveu nos dias de treino oficial e no domingo do GP.

A decepção já começou na largada. Aparentando estar com o carro mais pesado ou com uma estratégia para pista seca, Barrichello foi perdendo posições. Só conseguiu recuperar quando parte da pista secou. O brasileiro chegou a travar um duelo com David Coulthard pela primeira posição, que acabou numa bela ultrapassagem. Mas a alegria dos torcedores em Interlagos durou duas voltas. Rubinho saiu da prova pelo mais idiota dos motivos que poderia fazê-lo sair: falta de gasolina. O cara tem toda a tecnologia de ponta à disposição e esquece da hora de colocar combustível... Tsc, tsc, tsc… Mesmo se o dispositivo que regula o nível de gasosa no tanque do carro quebrou, a equipe teria como saber que a hora do pit stop estava chegando. Tá pensando o quê? Até a Ferrari tem gente despreparada!

Mas o abandono de Barrichello não foi a única atração do GP. A corrida, por causa da chuva, das lambanças e dos acidentes, acabou se tornando inesquecível. Um mesmo trecho da pista foi responsável pela derrapagem e pelo abandono de quase dez pilotos, entre eles o todo-poderoso Michael Schumacher. Depois, foi o australiano Mark Webber quem bateu em um outro local e deixou terra e destroços de carro no asfalto. O pobre coitado Fernando Alonso, que passou por lá pouco depois, não conseguiu desviar e acabou sofrendo um grave acidente. A direção da prova acabou tendo de dar bandeira vermelha. A equipe Jordan comemorava a vitória, já que Giancarlo Fisichella tinha ultrapassado o líder Kimi Raikonnen. Fisichella ganhou mas não levou, já que, pelas regras, após a bandeira vermelha valem os resultados da antepenúltima volta. O pódio acabou ficando só com os dois, já que o acidentado Alonso deve ter comemorado o terceiro lugar num hospital próximo de Interlagos.

Esta foi só a terceira corrida do ano, mas a Fórmula 1 parece ter recuperado a graça. Pilotos diferentes estão emplacando nas primeiras filas do grid, chegando ao pódio e pontuando. Depois do GP Brasil, apenas seis dos vinte pilotos da categoria ainda não marcaram pontos. E o melhor de tudo: Michael Schumacher, que ainda não chegou nenhuma vez entre os três primeiros, está num modesto oitavo lugar. Obrigado, novas regras!

E voltando ao futebol... Um dado curioso das duas primeiras rodadas do campeonato brasileiro: nenhum time conseguiu vencer duas vezes e nem perder duas vezes neste início de competição. Todos os times estão com pelo menos um ponto na tabela. Sinal do equilíbrio que deve durar oito meses.

A piada da vez: com o formato de pontos corridos no Brasileirão, a única certeza é que dessa vez o Atlético Mineiro não vai morrer nas semifinais.

Pela quantidade de jogos previstos para este ano, um recorde certamente vai ser batido: o de gols marcados pelo artilheiro do campeonato brasileiro. O recordista, até agora, é Edmundo, que marcou 29 gols pelo Vasco na temporada 1997. Para superar essa marca, os atacantes têm que manter uma média de 0,63 gols por partida até o fim do campeonato, considerando que os fulanos joguem em todas as 46 rodadas. Como as médias dos artilheiros dos últimos três certames oscilaram entre 0,71 e 1,03 gol por jogo, não é um trabalho muito difícil.

Falando em gols, recordes e artilheiros, Romário tem um bom motivo para voltar do Qatar e disputar o Brasileirão. Ele é o sexto maior goleador da história do campeonato brasileiro, com 111 gols e, se realmente voltar e mantiver a boa média dos últimos anos, pode subir até quatro degraus neste ranking. Bastam 34 gols para que o baixinho ultrapasse Dario, Serginho Chulapa, Túlio e Zico e fique no segundo lugar, atrás apenas de Roberto Dinamite, que tem inalcançáveis 190 gols. E aí peixe, topa o desafio?

Se a série A já começa a todo vapor, a Segundona teve o seu início adiado para 18 de abril. Tudo por causa de grana. A associação de clubes que disputa a série B argumenta que sem 3,5 milhões de reais na mão, não há como começar o campeonato. A quantia, que viria das cotas de televisão, ainda está presa na discussão entre Globo e SBT. A emissora do plim-plim ofereceu 10 milhões, contra 9,6 milhões de Silvio Santos. Os recém-rebaixados Palmeiras, Botafogo e Portuguesa acham pouco e pedem mais. Para sair dessa pindaíba e dar logo o pontapé inicial na competição, já houve quem sugerisse a mudança da fórmula de disputa para turno único.

Quarta-feira vai ser dia de tentativa de forra aqui em Belém. O Santos volta à cidade para repetir o duelo campal contra o Paysandu. Pra quem não lembra, no jogo do ano passado entre Papão e Peixe os comandados de Emerson Leão reclamaram tanto de impedimento em um gol (legítimo) do adversário que o volante Preto acabou apanhando de um policial militar. O sempre irritadinho Leão levou um jato de spray de pimenta nos olhos e até registrou ocorrência numa delegacia. Com certeza, eles vão querer revanche. E se essa sede de vingança ficar só dentro de campo, o jogo promete, já que os dois times estão fazendo excelente campanha na Libertadores.

É impressionante ver como o Flamengo de hoje só joga com a tradição da camisa. A partida contra o Ceará, valendo uma vaga nas oitavas-de-final da Copa do Brasil, não merece um adjetivo mais cruel do que sofrível. Os cariocas conseguiram marcar um magro 1x0 no tempo normal e foram decidir nos pênaltis. Começaram contando com o azar dos jogadores do Ceará, que desperdiçaram as duas primeiras cobranças, mas gelaram quando também perderam dois pênaltis. Levaram a melhor no final, mas sem brilho algum.

E no fim de semana, apesar da vitória sobre o Bahia em Salvador, um lance digno de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Por favor, me expliquem: o que foi aquela lambança do goleiro Júlio César com o zagueiro? Nem Dida e Aldair fariam melhor!

O que me dá alegria nisso tudo é que o adversário do Flamengo na próxima fase da Copa do Brasil é o meu querido Clube do Remo!

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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