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Diz
a lenda que todo time tem o goleador que merece. Mas nós, fãs de
futebol, sabemos que esse pressuposto nem sempre é correto. De vez
em quando aparece um atacante vigarista para acabar com o poder
ofensivo do nosso clube favorito, e uma hora ou outra surge um daqueles
matadores natos no time dos outros. Uns passam, outros ficam para
a posteridade futebolística, não necessariamente pelos gols marcados.
Porque artilheiro que é artilheiro tem que ser falastrão, tem que
ser polêmico, tem que ter estilo, tem que fazer história.
Dadá
Maravilha, Roberto Dinamite, Reinaldo, Romário... Esses atacantes
todo mundo conhece. Desses, todo mundo já sabe a vida até de trás
para frente. Mas existem uns, bem menos conhecidos, que têm histórias
até mais divertidas e interessantes. E o futebol paraense está cheio
desses personagens curiosos, que se sairiam muito bem como comentaristas
do MTV Rock e Gol.
O aspecto
peculiar dos goleadores de Belém é de longa data. Nos anos 50, o
Paysandu teve um artilheiro com um nome de triplo sentido: Pau Preto.
E o cara era matador... Marcou vários gols decisivos e ganhou diversos
títulos para o Papão. O mais engraçado na história desse jogador
era a desatenção dos locutores ao narrar certos gols dele. Houve
uma vez que Pau Preto fez e aconteceu: partiu da intermediária,
driblou meio time adversário, o goleiro e fez o gol. Sem perceber
a ambigüidade, o narrador gritou: "Pau Preto entra com bola e tuuuuuuudo!!!!".
Na
década de 70, a torcida do Remo teve muitas alegrias com Alcino,
conhecido como Negão Motora. Não dava pra olhar pro cara e não sacar
que ele era centroavante. Alto (1,92m), forte e rápido, Alcino chutava
forte, cabeceava bem e fazia gols de todo jeito. O mais lendário
de todos, ele marcou num clássico contra o Paysandu. Depois de fazer
um carnaval na zaga do adversário e driblar até o goleiro, Alcino
colocou a bola em cima da linha e sentou sobre ela antes de fazer
um gol de bunda. Inédito. Essa verdadeira humilhação fez com que
a torcida do Paysandu criasse uma ojeriza das piores contra Alcino.
Mas o Negão Motora não se fazia de rogado e sempre os provocava.
A cada gol contra o Papão, Alcino baixava o short e mostrava as
partes baixas para a galera adversária. Não necessariamente por
isso, ele é tido até hoje como um dos mais importantes jogadores
da história do Remo.
Uma
dupla fez história (e muitos, muitos gols) nos principais clubes
do Pará por mais de dez anos, nas décadas de 80 e 90: Ageu Sabiá
e Edil. Ageu começou a carreira nas divisões de base da Tuna Luso
e, em pouco tempo, chamou a atenção pelo jeito desengonçado e pelo
faro de gol. Mesmo com apenas 1,62m de altura e um protuberante
barrigão de chopp (desde o início da carreira), o Sabiá nunca viu
na falta de forma um problema para jogar futebol. Além de ser matador,
ele corria bem mais rápido do que muito jogador magrelo ou fortão.
Uma arrancada de Ageu da intermediária rumo à grande área era certeza
de duas coisas: um gol e longas gargalhadas. Talvez o segredo do
sucesso de Ageu estivesse na falta de forma. Qualquer zagueiro que
visse aquele corpo de tartaruga imaginaria que Ageu dispensava ser
marcado.
Ageu
Sabiá chegou a jogar um curto período no Paysandu. Mas foi no Remo,
a partir de 1993, que ele teve os melhores momentos da carreira.
Disputou campeonatos brasileiros, foi herói em clássicos contra
o Papão e seguiu divertindo os torcedores paraenses por muitos e
muitos anos. Em 1998, Ageu encerrou a carreira, mas acabou voltando
anos mais tarde, sempre jogando em clubes pequenos. Foi por um deles
que o Sabiá falou uma das frases mais engraçadas já ditas por um
atacante. Com uns 36 anos de idade, Ageu jogava pelo Tiradentes,
clube nanico que surpreendeu no Parazão e estava prestes a decidir
o segundo turno do campeonato contra o Remo. Às vésperas do jogo,
uma repórter de TV perguntou a Ageu se seria difícil vencer. De
bate-pronto, Ageu respondeu: "Difícil é dar rasteira em cobra e
cachuleta em jabuti". Mais um no hall dos inesquecíveis.
Contemporâneo
a Ageu, o Pará teve Edil, que talvez seja o mais folclórico matador
que jogou pelos gramados nortistas. Pense numa versão amazônica
de Túlio e você o imaginará. A diferença é o porte físico: Edil
tem mais de 1,80m de altura, nariz de tucano e um cabelo cacheado
com mullet, no estilo anos 80. Ele começou nos juniores do Paysandu
e, aos 19 anos, quando subiu para os profissionais pela primeira
vez, foi campeão paraense em 87. Passou um tempo jogando no nordeste
e voltou no início da década de 90 para fazer história no Paysandu.
Começou a marcar gols, ganhar títulos e virar um falastrão.
Edil
foi o jogador que introduziu as comemorações irreverentes no futebol
paraense. Com o tempo, ele foi aperfeiçoando essa criatividade e
criando personagens fixos para celebrar os próprios (muitos) gols.
Em 1992, com a camisa do Paysandu, Edil foi o "Carrasco". Ele jogava
sempre com um capuz preso na cintura do short. Assim que balançava
as redes, cobria o rosto e, com a ajuda de um companheiro de clube,
simulava a degolação de um condenado com uma machadada imaginária.
A torcida, que nunca tinha visto nada parecido, adorava... Em 1996,
quando Edil foi jogar no Remo, era preciso mudar. Foi aí que ele
criou o "Braddock", inspirado na série de filmes estrelada pelo
igualmente matador Chuck Norris. A cada gol, dois ou três jogadores
se alinhavam num paredão invisível e eram "metralhados" por Edil.
O personagem foi aposentado anos depois e Edil também deu um tempo
no futebol.
Até
que em 2000, ele foi contratado pelo Castanhal, um clube do interior
do Pará. Aquilo surpreendeu todos, já que era estranho para os paraenses
ver um artilheiro experiente daqueles tentar a sorte num time pequeno.
Foi para mostrar a própria longevidade que Edil inventou "Highlander,
o goleador imortal". Ele deixava sempre uma espada de plástico (daquelas
do estilo Thundercats) no banco de reservas. O brinquedo servia
para as performances "christopherlambertianas" que entretiveram
a torcida do Castanhal em 2000, a do Paysandu em 2001 e a do Confiança
de Sergipe em 2002. Hoje, aos 37 anos, Edil está sem clube, mas
nem cogita a hipótese de se aposentar.
Na
próxima coluna, falarei sobre os apelidos mais engraçados da história
do futebol paraense. E olha que, perto de alguns exemplos de quádruplo
sentido, o Pau Preto é fichinha...
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