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Beagá, 04 de agosto de 2003 d.C.
 
Causos do futebol paraense
Episódio I - Os artilheiros lendários
Por Caboclo Alaranjado
 

Diz a lenda que todo time tem o goleador que merece. Mas nós, fãs de futebol, sabemos que esse pressuposto nem sempre é correto. De vez em quando aparece um atacante vigarista para acabar com o poder ofensivo do nosso clube favorito, e uma hora ou outra surge um daqueles matadores natos no time dos outros. Uns passam, outros ficam para a posteridade futebolística, não necessariamente pelos gols marcados. Porque artilheiro que é artilheiro tem que ser falastrão, tem que ser polêmico, tem que ter estilo, tem que fazer história.

Dadá Maravilha, Roberto Dinamite, Reinaldo, Romário... Esses atacantes todo mundo conhece. Desses, todo mundo já sabe a vida até de trás para frente. Mas existem uns, bem menos conhecidos, que têm histórias até mais divertidas e interessantes. E o futebol paraense está cheio desses personagens curiosos, que se sairiam muito bem como comentaristas do MTV Rock e Gol.

O aspecto peculiar dos goleadores de Belém é de longa data. Nos anos 50, o Paysandu teve um artilheiro com um nome de triplo sentido: Pau Preto. E o cara era matador... Marcou vários gols decisivos e ganhou diversos títulos para o Papão. O mais engraçado na história desse jogador era a desatenção dos locutores ao narrar certos gols dele. Houve uma vez que Pau Preto fez e aconteceu: partiu da intermediária, driblou meio time adversário, o goleiro e fez o gol. Sem perceber a ambigüidade, o narrador gritou: "Pau Preto entra com bola e tuuuuuuudo!!!!".

Na década de 70, a torcida do Remo teve muitas alegrias com Alcino, conhecido como Negão Motora. Não dava pra olhar pro cara e não sacar que ele era centroavante. Alto (1,92m), forte e rápido, Alcino chutava forte, cabeceava bem e fazia gols de todo jeito. O mais lendário de todos, ele marcou num clássico contra o Paysandu. Depois de fazer um carnaval na zaga do adversário e driblar até o goleiro, Alcino colocou a bola em cima da linha e sentou sobre ela antes de fazer um gol de bunda. Inédito. Essa verdadeira humilhação fez com que a torcida do Paysandu criasse uma ojeriza das piores contra Alcino. Mas o Negão Motora não se fazia de rogado e sempre os provocava. A cada gol contra o Papão, Alcino baixava o short e mostrava as partes baixas para a galera adversária. Não necessariamente por isso, ele é tido até hoje como um dos mais importantes jogadores da história do Remo.

Uma dupla fez história (e muitos, muitos gols) nos principais clubes do Pará por mais de dez anos, nas décadas de 80 e 90: Ageu Sabiá e Edil. Ageu começou a carreira nas divisões de base da Tuna Luso e, em pouco tempo, chamou a atenção pelo jeito desengonçado e pelo faro de gol. Mesmo com apenas 1,62m de altura e um protuberante barrigão de chopp (desde o início da carreira), o Sabiá nunca viu na falta de forma um problema para jogar futebol. Além de ser matador, ele corria bem mais rápido do que muito jogador magrelo ou fortão. Uma arrancada de Ageu da intermediária rumo à grande área era certeza de duas coisas: um gol e longas gargalhadas. Talvez o segredo do sucesso de Ageu estivesse na falta de forma. Qualquer zagueiro que visse aquele corpo de tartaruga imaginaria que Ageu dispensava ser marcado.

Ageu Sabiá chegou a jogar um curto período no Paysandu. Mas foi no Remo, a partir de 1993, que ele teve os melhores momentos da carreira. Disputou campeonatos brasileiros, foi herói em clássicos contra o Papão e seguiu divertindo os torcedores paraenses por muitos e muitos anos. Em 1998, Ageu encerrou a carreira, mas acabou voltando anos mais tarde, sempre jogando em clubes pequenos. Foi por um deles que o Sabiá falou uma das frases mais engraçadas já ditas por um atacante. Com uns 36 anos de idade, Ageu jogava pelo Tiradentes, clube nanico que surpreendeu no Parazão e estava prestes a decidir o segundo turno do campeonato contra o Remo. Às vésperas do jogo, uma repórter de TV perguntou a Ageu se seria difícil vencer. De bate-pronto, Ageu respondeu: "Difícil é dar rasteira em cobra e cachuleta em jabuti". Mais um no hall dos inesquecíveis.

Contemporâneo a Ageu, o Pará teve Edil, que talvez seja o mais folclórico matador que jogou pelos gramados nortistas. Pense numa versão amazônica de Túlio e você o imaginará. A diferença é o porte físico: Edil tem mais de 1,80m de altura, nariz de tucano e um cabelo cacheado com mullet, no estilo anos 80. Ele começou nos juniores do Paysandu e, aos 19 anos, quando subiu para os profissionais pela primeira vez, foi campeão paraense em 87. Passou um tempo jogando no nordeste e voltou no início da década de 90 para fazer história no Paysandu. Começou a marcar gols, ganhar títulos e virar um falastrão.

Edil foi o jogador que introduziu as comemorações irreverentes no futebol paraense. Com o tempo, ele foi aperfeiçoando essa criatividade e criando personagens fixos para celebrar os próprios (muitos) gols. Em 1992, com a camisa do Paysandu, Edil foi o "Carrasco". Ele jogava sempre com um capuz preso na cintura do short. Assim que balançava as redes, cobria o rosto e, com a ajuda de um companheiro de clube, simulava a degolação de um condenado com uma machadada imaginária. A torcida, que nunca tinha visto nada parecido, adorava... Em 1996, quando Edil foi jogar no Remo, era preciso mudar. Foi aí que ele criou o "Braddock", inspirado na série de filmes estrelada pelo igualmente matador Chuck Norris. A cada gol, dois ou três jogadores se alinhavam num paredão invisível e eram "metralhados" por Edil. O personagem foi aposentado anos depois e Edil também deu um tempo no futebol.

Até que em 2000, ele foi contratado pelo Castanhal, um clube do interior do Pará. Aquilo surpreendeu todos, já que era estranho para os paraenses ver um artilheiro experiente daqueles tentar a sorte num time pequeno. Foi para mostrar a própria longevidade que Edil inventou "Highlander, o goleador imortal". Ele deixava sempre uma espada de plástico (daquelas do estilo Thundercats) no banco de reservas. O brinquedo servia para as performances "christopherlambertianas" que entretiveram a torcida do Castanhal em 2000, a do Paysandu em 2001 e a do Confiança de Sergipe em 2002. Hoje, aos 37 anos, Edil está sem clube, mas nem cogita a hipótese de se aposentar.

Na próxima coluna, falarei sobre os apelidos mais engraçados da história do futebol paraense. E olha que, perto de alguns exemplos de quádruplo sentido, o Pau Preto é fichinha...

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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