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Beagá, 28 de julho de 2003 d.C.
 
Evasão rumo aos euros
Por Caboclo Alaranjado
 

Às vezes as pessoas subestimam meu poder de vidência, mas há um fato que eu posso provar que previ um mês e meio antes de acontecer. Leiam a minha coluna de 09/06: "Aí imagine a seguinte situação... Na virada de temporada dos campeonatos europeus (de junho a agosto), os times de lá fazem propostas irrecusáveis pelos craques de Corinthians, Cruzeiro, São Paulo, Santos e etc. Alguns deles (provavelmente a maioria) têm passe livre e podem muito bem atravessar o Atlântico atraídos por euros.".

Pois bem. Só nas últimas duas semanas, pelo menos três clubes perderam seus principais jogadores para o futebol estrangeiro. O Bordeaux, da França, levou o cruzeirense Deivid. O Vitória perdeu o atacante Nádson para o Samsung, da Coréia do Sul. E o Paysandu vai ficar o resto do campeonato sem o artilheiro Róbson, que trocou Belém pelo Japão. Isso sem falar em alguns cabeças-de-bagre que foram parar em clubes da Bulgária, da Grécia e da Turquia. Parece estranho o fato de tantas transferências acontecerem praticamente ao mesmo tempo, mas existem duas explicações bem fáceis. 1) os clubes do exterior têm muito mais dinheiro que os brasileiros. 2) em todos os países onde são disputados campeonatos por pontos corridos, há dois intervalos na temporada: entre o primeiro e o segundo turno e entre dois campeonatos diferentes.

Se a primeira razão é impossível de se consertar, a segunda é muito mais simples. Do jeito que o Brasileirão está hoje, o risco de um time ser literalmente desmontado no meio da temporada é muito grande. Pra piorar, as regras de contratações e inscrições são bem rígidas: um jogador que fez mais de três partidas por um clube não pode se transferir para outro da mesma divisão. Uma hipótese: já pensou se, da mesma forma que o Bordeaux levou Deivid, os times da Europa levam Aristizábal, Alex, Mota e todos os outros craques do Cruzeiro no meio do campeonato brasileiro? Para tentar manter um elenco competitivo, o clube mineiro teria que recorrer a jogadores da série B. E esse sistema é ruim também para os jogadores. O Paysandu, por exemplo, mandou cinco jogadores embora após a sexta rodada. Entre eles, o goleiro Marcão, os zagueiros Gino e Sérgio, ídolos do time na conquista da Copa dos Campeões. Todos estão impedidos até o fim do ano de jogar em clubes da primeira divisão. Tá certo que eles não resolveriam os possíveis problemas de um Cruzeiro, por exemplo. Mas seriam boas peças num time mal das pernas, como os cariocas.

Então eu escrevo aqui o que sempre falo: se for para imitar o sistema europeu de disputa, que se imite direito. Um intervalo entre turno e returno, com a possibilidade de transferência de jogadores entre clubes da mesma divisão, é fundamental. Se os times brasileiros não têm o mesmo poder aquisitivo dos europeus, essa é a melhor saída para que se diminua o risco de esvaziamento dos bons elencos.

E o Brasil perdeu a Copa Ouro para o México... Eu não levaria o resultado dessa competição tão a sério se não fosse uma frase do Diego nesses dias de disputa:

- Acabou o laboratório. O negócio agora é sério.

Bom, se mesmo depois do fim das experiências, perdemos duas vezes para o México e passamos sufoco contra Honduras e Estados Unidos, estamos perdidos no Pré-Olímpico... O mais triste disso tudo é que a geração de jogadores da seleção sub-23 é excelente: Diego, Kaká, Robinho, Júlio Baptista, Carlos Alberto, Paulo Almeida... Nomes que, se já não estão, certamente estarão no time principal em breve.

Acho que o problema é o técnico Ricardo Gomes, que é fraco demais. É estranho você confiar um cargo tão importante para um profissional que tem pouca experiência, que trabalhou apenas em clubes medianos. Mas já estamos às vésperas do Pré-Olímpico e a um ano das Olimpíadas de Atenas, e uma mudança de comandante neste momento pode tumultuar a preparação da equipe.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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