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Beagá, 21 de julho de 2003 d.C.
 
A comédia de Silverstone
Por Caboclo Alaranjado
 

Valeu a pena abrir mão de umas horinhas a mais de descanso neste domingo para ver o GP da Inglaterra de Fórmula 1. Não apenas pela grande vitória de Rubens Barrichello, mas principalmente pelo acontecimento mais inusitado já visto numa corrida em muito tempo. A cena do fanático religioso de kilt entrando na pista de Silverstone e atravessando o asfalto enquanto os carros passavam a toda velocidade vai entrar na galeria de imagens inesquecíveis deste início de século.

A corrida já estava bem interessante antes daquilo tudo acontecer: uma boa largada (marcada pela bela saída de Jarno Trulli) e uma entrada do safety car logo nas primeiras voltas (o que atrapalhou a vida de muitos pilotos) garantiam o equilíbrio da prova. Mas aquela invasão, que mais parecia um apelo por qualquer coisa, foi demais. Primeiro, o fato foi divertido por si só. Segundo, foi um barato ouvir um Galvão Bueno desesperado gritando "ele está querendo morrer!". E terceiro, deu para perceber o quanto uma ocorrência pitoresca pode embananar a história de um GP.

Assim que o maluco foi visto na pista, a direção de prova decretou a segunda entrada do safety car. E coincidiu de ser justamente no início da primeira rodada de pit stops. Então, antes mesmo do carrinho prateado entrar em cena, houve uma verdadeira carreata rumo aos boxes. Quatorze dos vinte carros foram trocar pneus e colocar combustível ao mesmo tempo. Isso gerou um outro acontecimento bem inusitado em se tratando da Fórmula 1 contemporânea. Enquanto Rubens Barrichello (que liderava a corrida até então) fazia a sua parada, o sempre cheio de privilégios Michael Schumacher aguardava os mecânicos da Ferrari terminarem os trabalhos no carro do brasileiro para ser atendido. Mas imaginem só o caos... Dezenas de carros passando pelo box da escuderia italiana e o Schumão esperando a equipe terminar de acertar o carro do Rubinho. Um momento único na história dessa dupla.

Alguns dos pilotos se livraram dessa bagunça porque tinham feito pit stops na entrada do primeiro safety car. Acabaram ganhando de lambuja os primeiros lugares durante um bom número de voltas. Mas ninguém foi mais sortudo que o brasileiro Cristiano da Matta, que ficou na liderança durante um bom tempo e só não foi além do sétimo lugar porque tem um carro muito ruim. Da Matta deveria agradecer eternamente ao maluco do kilt (Parêntese: será que não era um escocês torcedor do David Coulthard?).

A temporada 2003 está equilibrada, mas vinha sendo caracterizada por corridas mornas. Por isso, o GP da Inglaterra devolve um pouco de diversão à Fórmula 1, num nível só superado este ano pela corrida de Interlagos. Na próxima prova, em Hockenheim, bem que poderia aparecer um cara com uma gaita de fole ou uma modelo pelada arriscando a vida no meio dos bólidos voadores. Nossas manhãs de domingo precisam de coisas assim.

Apesar da preocupação do estatuto do torcedor com os problemas de arbitragem, há uma coisa que vem me chamando a atenção de maneira negativa em relação a isso no campeonato brasileiro da série B. Os juízes escalados para as partidas sempre são de estados próximos ao local desses jogos. Por exemplo: numa partida em Belém, quem apita é um árbitro do Maranhão. Num jogo em Goiânia, o juiz é de Brasília e por aí vai. Isso por si só já é um pouco desconfiante. Mas o pior de tudo é que um dos componentes do trio de arbitragem SEMPRE é da federação do estado onde está sendo disputada a partida.

Entendo que a razão disso seja a diminuição dos custos de transporte dos homens do apito, mas a CBF poderia dar menos pano para manga. Afinal, um bandeirinha tendencioso pode mudar a história de um jogo.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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