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Beagá, 14 de julho de 2003 d.C.
 
Equilíbrio de primeira, times de segunda
Por Caboclo Alaranjado
 

Antes da bola começar a rolar, o campeonato brasileiro da segunda divisão estava cercado de expectativas. A competição ganharia um aditivo com a presença de vários clubes considerados "grandes". O orgulho ferido do Palmeiras, do Botafogo e da Portuguesa, aliado à insistência daqueles times que há séculos morrem na praia e não conseguem acesso à Primeirona (Remo, Londrina, Ceará, CRB...) resultaria num campeonato inesquecível.

Passadas doze rodadas, a Segundona realmente é a disputa mais apertada do futebol nacional este ano. Nesta primeira metade de competição, aconteceu de tudo: cinco clubes já lideraram a tabela de classificação, times que começaram lá em cima despencaram, times que começaram lá em baixo ascenderam... Isso sem falar no emocionante sobe-e-desce no chamado G-8, o grupo dos oito melhores da série B que se classificam para a segunda fase do torneio. Por causa da pequena diferença de pontuação entre os participantes, um time pode perder até oito posições em caso de derrota. Um empate em casa, então, é resultado que pode até derrubar treinador, tamanha a importância de uma vitória de um clube nos próprios domínios.

Mas nem tudo é um mar de rosas. Nessas doze jornadas, ainda não surgiu um time que se possa considerar favorito absoluto, aquela equipe com cheiro de campeã. Muito menos se viu um esquadrão daqueles de encher os olhos, como um Cruzeiro da divisão de acesso. Pelo contrário, nem aqueles clubes que encabeçam a tabela estão dando espetáculo. Muito menos o Verdão, o Fogão, a Lusinha ou os sempre enjoados times pernambucanos.

O Botafogo carioca é o atual primeiro lugar, mas tem um escrete que faz Nilton Santos se encher de desgosto e Garrincha se contorcer no túmulo (e não é pra driblar as minhocas). A bomba de Levir Culpi demorou a engrenar neste Brasileirão, e não foi por azar: o time tem uma meiúca nada criativa e um ataque tão inoperante que praticamente só marca gols quando a defesa do adversário é ruim. Mas a máxima do futebol hoje é "o que vale são os três pontos". A equipe está fazendo sua parte, mas se o Fogão subir para a primeira divisão e continuar dessa maneira, sobe com a passagem de volta agendada para 2005.

A campanha do Palmeiras, que hoje é o vice-líder, também só se estabilizou agora. Depois de inúmeros empates estúpidos que deixaram a torcida com pesadelos de Fluminense, o Verdão recuperou a confiança e ganhou alguns jogos fora de casa. Mas também tem um time meia-boca, que não chega a um milésimo do "ataque dos cem gols" de 96, ou do "esquadrão da Parmalat" de 93 e 94. Atualmente, a torcida palmeirense se diverte mais em tentar adivinhar o nome dos jogadores que estão em campo com a camisa alviverde. Bons tempos em que ainda se tinha o Galeano e o Magrão para tirar uma bronca... Pelo menos, os torcedores sabiam a quem xingar! Para sentir o drama, a esperança do Palmeiras hoje é um artilheiro que atende por um nome que mais parece o de um go-go boy: Vágner Love.

Do Recife, que prometia emplacar campeão e vice da Segundona em 2003, também pouco se viu. O Náutico é o mais estável dos três clubes pernambucanos e é o único que está entre os oito primeiros. Mas perdeu três preciosos pontos no STJD, que podem fazer uma baita diferença na reta final. Sport e Santa Cruz começaram arrasadores, mas entraram numa descida vertiginosa. Perderam jogos em casa, foram goleados e não demonstram tanta força como esbanjavam.

Nem os outros integrantes cativos do G-8 parecem ser apostas seguras rumo ao acesso. Ao Marília, do interior de São Paulo, falta um goleador e mais regularidade nas partidas em casa. Ao Remo, aqui de Belém, falta a sorte de entrar em campo com o time completo, já que os jogadores vivem suspensos por cartões amarelos ou expulsões.

Trocando em miúdos, o equilíbrio da série B é conseqüência de um campeonato que está nivelado por baixo. Sem equipes brilhantes, sem craques, sem grandes jogos... Fazendo uma metáfora de qualidade questionável, a Segundona hoje é um purgatório. O que motiva as 24 almas penadas que participam deste campeonato é o desejo de subir para o céu da primeira divisão e o desespero para não descer ao inferno da Terceirona.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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