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Beagá, 07 de julho de 2003 d.C.
 
Os Forrest Gumps da Libertadores
Por Caboclo Alaranjado
 

Para a tristeza das tietes de Diego e para a alegria dos desafetos de Emerson Leão, o Santos perdeu a Libertadores dentro de casa. Mas qualquer pessoa com o mínimo de bom senso futebolístico sabia que a fatura já estava liquidada logo após a primeira partida, em Buenos Aires. Não adiantava toda aquela conversa xarope de "no Brasil somos os favoritos" e "a virada é totalmente possível" e etc. O time do Boca era infinitamente melhor e ponto final.

E não faltaram razões para que essa derrota fosse absorvida pela opinião pública como extremamente dolorosa. Tudo graças à imprensa esportiva nacional (sempre ela). Engraçada foi a forma como a mídia construiu o ambiente para o tricampeonato do Santos, até então mais certo do que a virgindade da Sandy. Buscou referências à decisão de quarenta anos atrás, lembrou que Mengálvio em 63, assim como Elano em 2003, estava machucado, comparou Robinho a Pelé... Todo esse lengalenga, somado à babação que acompanha o time do Santos desde as finais do campeonato brasileiro do ano passado, tornou a "corrente pra frente" em torno do Peixe uma coisa meio difícil de se fazer.

Para o ABACAXI ATÔMICO, o senso comum é pior do que um disco do Jota Quest no repeat. Por isso, ninguém aqui vai ficar lamentando e choramingando porque os Meninos da Vila perderam para o Boca. O Santos de Leão é o melhor time do Brasil dos últimos anos? Diego e Robinho, além de serem lindos, são as maiores revelações do futebol nacional na última década? Então eles vão ficar morrendo de inveja de alguns pernas-de-pau, cabeças-de-bagre e feiosos que chegaram à final da Libertadores e levantaram o caneco mais importante do futebol sul-americano nos últimos onze anos.

Vamos começar lembrando do fantástico São Paulo de Telê Santana, campeão da Libertadores de 1992 e 1993. O time era realmente impecável, tinha verdadeiros craques e o melhor: era perfeitamente conduzido pela mão e pelo cérebro do treinador. Mas para cada Raí e para cada Cafu, tinha pelo menos um Pintado e um Ronaldo Luís. Vejam só: o bronco volante Pintado, que ninguém nem sabe mais por onde anda, tem um título de Libertadores. O talentosíssimo Paulo Almeida, que agora é volante da seleção olímpica, não.

O Grêmio de 1995 era um espelho do próprio técnico. Felipão comandava (muito bem, por sinal) um monte de jogadores medianos que acabaram tendo como principais armas a força, o conjunto e o entrosamento. O atacante Jardel, que sempre foi ofuscado nos tempos do Vasco, virou artilheiro e cabeceador nato. Pra alguma coisa ele tinha que saber usar a cabeça, né? Mas jogando em função dele, havia vários pernas-de-pau: o zagueiro-avenida Scheidt, o volante nota 5 Luís Carlos Goiano e o bichado meio-campo Carlos Miguel. Todos podem bater no peito e dizer: fui campeão da Libertadores. Alex, Renato, Elano e os outros craques da nova geração, ficaram apenas no quase.

A lista de Forrest Gumps engorda um bocado se lembrarmos do Vasco de 98 e do Palmeiras de 99. O vascaíno Nasa (que até fez um gol contra na decisão de Yokohama contra o Real Madrid) e o palmeirense Galeano são os maiores exemplos de como um cidadão como você, que bate uma bolinha nos finais de semana e é chamado pelos amigos de "pereba", pode chegar ao estrelato do futebol sul-americano.

Mas as crias de Emerson Leão se roem mais ainda de inveja quando lembram daqueles que ganharam a Libertadores mais de uma vez. O volante Dinho (campeão pelo São Paulo em 93 e pelo Grêmio em 95), o atacante Paulo Nunes (campeão pelo Grêmio em 95 e pelo Palmeiras em 99) e o lateral-direito Vítor (o único tricampeão: São Paulo-92, Cruzeiro-97 e Vasco-98) podem esbanjar todas essas conquistas. E o pior: além de serem jogadores de qualidade duvidosa, são feios de doer. Viu só, Diego? Não é só com beleza e um bom futebolzinho que se conquista a América...

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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