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Beagá, 30 de junho de 2003 d.C.
 
Não há mais derrotas como antigamente
Por Caboclo Alaranjado
 

O Brasil se despediu prematuramente da Copa das Confederações depois de uma derrota para Camarões (a primeira da seleção principal para uma equipe africana), um magro 1x0 sobre os sempre chatos Estados Unidos e um empate aos 48 minutos do segundo tempo contra a Turquia. Em outros tempos, uma campanha como essa seria tida como desastrosa, vexatória, algo que mancha a história do futebol nacional. Mas essa eliminação precoce não rendeu mais que algumas manchetes irônicas no dia seguinte e charges debochando do técnico Carlos Alberto Parreira.

Sou muito jovem para ser um saudosista de memória infalível, mas lembro muito bem da época em que comecei a acompanhar futebol, no finalzinho dos anos 80. Lembro muito bem da conquista da Copa América de 89, daquele jogo contra o Chile nas eliminatórias em que o goleiro Roberto Rojas simulou ter sido atingido por um rojão no rosto, do fracasso na Copa de 90, do desastre que foi Paulo Roberto Falcão no comando do escrete... E lembro muito bem que, nesse tempo, o Brasil poderia ter o mais vagabundo dos times e o mais fajuto dos técnicos, mas não perdia pra qualquer um, isso não. No mínimo, tinha que ser uma Argentina, um Uruguai ou uma Itália para bater a seleção canarinho. Ainda tínhamos um pouco daquele espírito pedante dos times imbatíveis, contaminado pelas memórias das gerações de 70 e 82.

O tetra em 94 nos trouxe a certeza de que continuávamos como os melhores mas, coincidentemente, foi depois da conquista nos Estados Unidos que passamos a viver nossos piores pesadelos com o escrete. Perdemos a final da Copa de 98 com um placar inédito no retrospecto da Seleção em mundiais. Perdemos para adversários que se tornaram forças efêmeras do futebol mundial, como a Noruega e a Nigéria, ou para velhos fregueses, como México, Chile, Equador e Paraguai. E fomos derrotados por seleções de países onde, pouco tempo atrás, o futebol não era nem o vigésimo esporte mais popular, como Japão, Estados Unidos, Coréia do Sul e Honduras.

Só que esses pesadelos aconteceram com tanta freqüência desde então que hoje nem nos assustamos mais. Até fazemos piadas de nós mesmos e acabamos com a mais tradicional forma de valorizar nossa auto-estima diante do quadro nacional de estagnação econômica e subdesenvolvimento. Somos subdesenvolvidos sim, mas no futebol sempre fomos de primeiro mundo e líderes do G-7 (se é que existe um). As grandes derrotas sempre foram momentos em que partimos para a briga, como a eliminação na Copa de 54 (que ficou conhecida como a Batalha de Berna), ou motivos de comoção no país inteiro, como a Tragédia do Sarriá, na Copa de 82.

Isso sem falar na mãe de todas as derrotas, a final da Copa de 50, conhecida também como "Maracanazzo". O gol de Ghiggia não só levou a Jules Rimet para Montevidéu, mas fez um baita estrago na cabeça de toda uma geração de brasileiros. No livro Anatomia de uma Derrota, o escritor Paulo Perdigão relaciona o trauma deixado pelo vice-campeonato mundial com postulados de teóricos da psicologia e da psicanálise. Haja divã pra agüentar tanta lamentação... Demoramos duas copas para superar o baque e levantar a taça, mas fomos eficientes: conquistamos três copas em vinte anos e nos consolidamos como os melhores do mundo.

Hoje, uma derrota não tem a mínima chance de trazer tantos efeitos positivos assim. Por mais dolorosa ou ridícula que seja, ela é rapidamente esquecida. Após o fim da Copa das Confederações, por exemplo, vai cada um para um lado. Os jogadores curtem o intervalo entre as temporadas na Europa, o torcedor volta a acompanhar o seu clube no Brasileirão e o técnico Parreira bate cabeça para se perguntar: "onde foi que eu errei?". Liga não, Parreira. Quem sabe você não possa ensinar os brasileiros a valorizar uma derrota. A história prova que isso é possível. E dá certo.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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