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O Brasil
se despediu prematuramente da Copa das Confederações depois de uma
derrota para Camarões (a primeira da seleção principal para uma
equipe africana), um magro 1x0 sobre os sempre chatos Estados Unidos
e um empate aos 48 minutos do segundo tempo contra a Turquia. Em
outros tempos, uma campanha como essa seria tida como desastrosa,
vexatória, algo que mancha a história do futebol nacional. Mas essa
eliminação precoce não rendeu mais que algumas manchetes irônicas
no dia seguinte e charges debochando do técnico Carlos Alberto Parreira.
Sou
muito jovem para ser um saudosista de memória infalível, mas lembro
muito bem da época em que comecei a acompanhar futebol, no finalzinho
dos anos 80. Lembro muito bem da conquista da Copa América de 89,
daquele jogo contra o Chile nas eliminatórias em que o goleiro Roberto
Rojas simulou ter sido atingido por um rojão no rosto, do fracasso
na Copa de 90, do desastre que foi Paulo Roberto Falcão no comando
do escrete... E lembro muito bem que, nesse tempo, o Brasil poderia
ter o mais vagabundo dos times e o mais fajuto dos técnicos, mas
não perdia pra qualquer um, isso não. No mínimo, tinha que ser uma
Argentina, um Uruguai ou uma Itália para bater a seleção canarinho.
Ainda tínhamos um pouco daquele espírito pedante dos times imbatíveis,
contaminado pelas memórias das gerações de 70 e 82.
O tetra
em 94 nos trouxe a certeza de que continuávamos como os melhores
mas, coincidentemente, foi depois da conquista nos Estados Unidos
que passamos a viver nossos piores pesadelos com o escrete. Perdemos
a final da Copa de 98 com um placar inédito no retrospecto da Seleção
em mundiais. Perdemos para adversários que se tornaram forças efêmeras
do futebol mundial, como a Noruega e a Nigéria, ou para velhos fregueses,
como México, Chile, Equador e Paraguai. E fomos derrotados por seleções
de países onde, pouco tempo atrás, o futebol não era nem o vigésimo
esporte mais popular, como Japão, Estados Unidos, Coréia do Sul
e Honduras.
Só
que esses pesadelos aconteceram com tanta freqüência desde então
que hoje nem nos assustamos mais. Até fazemos piadas de nós mesmos
e acabamos com a mais tradicional forma de valorizar nossa auto-estima
diante do quadro nacional de estagnação econômica e subdesenvolvimento.
Somos subdesenvolvidos sim, mas no futebol sempre fomos de primeiro
mundo e líderes do G-7 (se é que existe um). As grandes derrotas
sempre foram momentos em que partimos para a briga, como a eliminação
na Copa de 54 (que ficou conhecida como a Batalha de Berna), ou
motivos de comoção no país inteiro, como a Tragédia do Sarriá, na
Copa de 82.
Isso
sem falar na mãe de todas as derrotas, a final da Copa de 50, conhecida
também como "Maracanazzo". O gol de Ghiggia não só levou a Jules
Rimet para Montevidéu, mas fez um baita estrago na cabeça de toda
uma geração de brasileiros. No livro Anatomia de uma Derrota,
o escritor Paulo Perdigão relaciona o trauma deixado pelo vice-campeonato
mundial com postulados de teóricos da psicologia e da psicanálise.
Haja divã pra agüentar tanta lamentação... Demoramos duas copas
para superar o baque e levantar a taça, mas fomos eficientes: conquistamos
três copas em vinte anos e nos consolidamos como os melhores do
mundo.
Hoje,
uma derrota não tem a mínima chance de trazer tantos efeitos positivos
assim. Por mais dolorosa ou ridícula que seja, ela é rapidamente
esquecida. Após o fim da Copa das Confederações, por exemplo, vai
cada um para um lado. Os jogadores curtem o intervalo entre as temporadas
na Europa, o torcedor volta a acompanhar o seu clube no Brasileirão
e o técnico Parreira bate cabeça para se perguntar: "onde foi que
eu errei?". Liga não, Parreira. Quem sabe você não possa ensinar
os brasileiros a valorizar uma derrota. A história prova que isso
é possível. E dá certo.
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