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Beagá, 23 de junho de 2003 d.C.
 
Clássico das multidões, versão amazônica
Por Caboclo Alaranjado
 

A atração do campeonato brasileiro neste domingo aqui em Belém foi Paysandu x Flamengo, duelo que começou nas arquibancadas do Mangueirão. De um lado, mais de trinta mil torcedores do Papão, agoniados por ver o time com dificuldades de sair de uma zona perigosa na tábua de classificação da série A. Do outro lado, cinco mil barulhentos, fanáticos e estridentes flamenguistas, mantendo a tradição que o rubro-negro tem de arrastar torcedores onde quer que vá.

Os bicolores apostavam numa vitória fácil, já que o Mengão vinha desfalcado de todas as estrelas do time: Júlio César, Athirson, Edílson e Felipe. E essa expectativa foi aumentada com o gol de Iarley, com menos de 20 minutos do primeiro tempo. "Vai ser de goleada", pensaram alguns desavisados. Mas uma constatação que tive ultimamente é que o Flamengo joga bem melhor sem os "craques". Vale lembrar dos últimos jogos contra o Cruzeiro. Com o time completo na decisão da Copa do Brasil, os cariocas quase perderam dentro do Maracanã e foram massacrados no Mineirão. Sem as estrelas, pelo Brasileirão, golearam por 3x0, quando o que estava em jogo era apenas o azedo gosto da vingança.

Voltando à partida do Mangueirão, a ira do Flamengo foi despertada pelo gol do Paysandu. Foi aí que o talento das jovens revelações rubro-negras começou a se destacar sobre o conjunto bem armado do time da casa. O baixinho meio-campo Igor jogou que foi uma beleza. Serviu os atacantes, fez belos passes, criou ótimas jogadas e ainda fez o gol de empate, numa falta que muitos velhos locutores de rádio diriam que foi "batida na forquilha".

O Paysandu teve boas chances de gol ainda no primeiro tempo. Mesmo com o dia nada inspirado de Róbson, o Papão assustou várias vezes com tabelas primorosas e finalizações razoáveis de Iarley e Wélber. Mas o "PQP" mais forte gritado das arquibancadas foi quando Iarley perdeu um gol sozinho, cara a cara com o goleiro, num lançamento em que não havia impedimento. Na hora de chutar, o jogador escorregou feio.

Com tantos gols perdidos, restava à galera do Papão tentar adivinhar a sorte do time no segundo tempo. "O Paysandu não pode levar gol logo no início, senão tá f*****", profetizou um torcedor que assistia ao jogo do meu lado. Maldita boca... Aos 3 minutos, em nova cobrança de falta, o Flamengo virou o placar. A bola, batida por Cássio, bateu estrategicamente em um jogador do Fla que estava na barreira e traiu o goleiro Alexandre Fávaro.

Curiosa foi a maneira como o Papão chegou ao empate. Sabe quando um time está jogando acuado, trocando passes sem objetividade e aparentemente sem coragem de chegar ao ataque? Foi o que o Paysandu fez durante intermináveis dois minutos, até que num momento iluminado Lecheva cruzou e Róbson cabeceou para se redimir da péssima atuação e empatar a partida.

O 2x2 acabou sendo justo porque não houve dominante e dominado no jogo. Os dois times tiveram bons momentos, mandaram bolas na trave e mostraram que têm ataques perigosos. O saldo deste empate só não é amigável para os dois lados, porque enquanto o Flamengo se mantém entre os oito primeiros colocados, o Paysandu está dez degraus abaixo, ainda tendo pesadelos com a zona de rebaixamento e longe de ser o Papão que encantou na Libertadores.

Nas arquibancadas do Mangueirão estava pendurada a faixa de uma torcida organizada que certamente tem o nome (e o slogan) mais engraçado entre todas as torcidas do país: "Fla-Fla de Belém - a torcida mais peituda do Brasil". Cômico.

Outro detalhe de Paysandu x Flamengo, mas que de engraçado não tem nada. O estatuto do torcedor, mais uma vez, passou longe do Mangueirão. A renda do jogo, que estava sendo esperada como uma das maiores do ano em Belém, não foi divulgada. Enquanto a administração do estádio faz o papel dela e divulga relatórios completos sobre a quantidade de público, a diretoria do Papão se omite e esconde o valor arrecadado com a venda de ingressos.

A prática é comum por aqui, já que os clubes vez ou outra estão com a Justiça do Trabalho à espreita para cobrar dívidas com ex-jogadores ou ex-funcionários. Atendendo ao pedido de indenização dos "renegados", os juízes trabalhistas ordenam o bloqueio da renda de determinada partida para o pagamento desses débitos. É aí que os dirigentes dão o pulo do gato: anunciam um valor abaixo do real, inventam "bônus" nos ingressos para que uma parte da renda não faça parte do montante "oficial" ou simplesmente não divulgam nada. Vergonhoso.

Semana passada, uma equipe de uma produtora de TV inglesa esteve em Belém para fazer uma matéria sobre o Paysandu para um programa chamado "Futebol Mundial", que é exibido para mais de 140 países em todos os continentes. O Papão chamou a atenção dos gringos pelo crescimento que teve nos últimos 18 meses, com a conquista da Copa dos Campeões e com a ótima campanha na Taça Libertadores. A reportagem, que deve ter a duração aproximada de 8 minutos e vai ser exibida em julho, vai tentar explicar as razões para o sucesso do Papão, mostrar um pouco da história recente do clube e ilustrar com curiosidades e excentricidades: o engraçadíssimo Didi (feirante do Ver-o-Peso que é torcedor-símbolo do clube), a torcida organizada Terror Bicolor (considerada uma das maiores do Brasil) e aspectos da cultura paraense, como danças típicas e culinária regional.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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