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Beagá, 24 de março de 2003 d.C.
 
Estaduais: a farra dos pequenos
Por Caboclo Alaranjado
 

Queimei a língua. Pensei que os campeonatos estaduais seriam o grande engodo da temporada 2003, marcada pela tão esperada implantação da fórmula de pontos corridos no campeonato brasileiro, pela organização do calendário e pela moralização do futebol. Imaginei que seriam campeonatos dispensáveis, marcados pelo óbvio e por jogos ruins.

Não sei se vocês também raciocinam dessa maneira, mas pra mim o futebol tem uma coisa em comum com os relacionamentos: se cair na rotina e na mesmice, fica chato. Chatos como eram os estaduais até o ano passado: longos, previsíveis e ruins. Nada é mais saturante do que ver uma final repetida todos os anos, como acontece em geral nas cidades polarizadas entre apenas dois grandes clubes. Por isso, nada mais saudável e empolgante do que ver clubes pequenos chegando às decisões, do Norte ao Sul do país.

Aqui no Pará, a Tuna Luso conseguiu eliminar o todo-poderoso Paysandu no quadrangular final, vai decidir o campeonato com o Remo e fazer feliz mais uma torcida-de-Kombi no Brasil. No Ceará, o Ferroviário, que há muito tempo não chegava a uma final, perdeu o título na decisão contra o Fortaleza. Na Bahia não teve Ba-Vi, mas um inesperado Vitória x Catuense, que acabou sendo um jogo desigual: 4x0 para os rubro-negros bicampeões. Mais disputada foi a final do campeonato goiano. O Novo Horizonte, finalista pelo segundo ano consecutivo, venceu o primeiro jogo contra o Goiás e só perdeu o título na decisão por pênaltis.

O surpreendente Paranavaí superou Atlético e Paraná Clube e decidiu o campeonato paranaense contra o Coritiba. Perdeu, assim como o surpreendente Caxias em Santa Catarina. O time de Joinville, que estava afastado do futebol até três anos atrás, chegou à final como favorito mas perdeu para o Figueirense nos pênaltis. No Rio Grande do Sul ainda não teve decisão, mas o Grêmio eliminado já é a certeza de sangue novo na reta final do gauchão.

Mesmo em São Paulo e no Rio, onde é mais difícil acontecer surpresas, a rotina foi quebrada. O Santos, campeão brasileiro e representante do Brasil na Libertadores, não chegou nem nas semifinais do paulistão. Da mesma forma que o co-irmão alvinegro Botafogo, eliminado na primeira fase do campeonato carioca (se bem que, pela penúria de talento que é o time botafoguense, isso não foi surpresa nenhuma).

O melhor disso tudo é que o campeonato brasileiro já começa no próximo fim de semana, sem intervalo e sem tempo para pré-temporada ou para o presidente demitir o time todo e contratar um outro. Assim como nas novas regras da Fórmula 1, não há possibilidade de ajuste entre o treino oficial dos estaduais e a corrida do Brasileirão. Se as mudanças nas pistas conseguiram tirar Michael Schumacher do pódio nas duas primeiras corridas do ano, o que não podem fazer nos gramados? Então, quem se deu mal nos regionais que se cuide a partir deste sábado. Seja na série A ou na segundona...

Outra disputa que deve estar apenas começando é entre Globo e SBT. A Vênus Platinada saiu no tapa pela exclusividade do paulistão e acabou tendo de se contentar em dividir os direitos de transmissão com a turma de Silvio Santos. O pior de tudo foi que o SBT ainda conseguiu impor os horários dos jogos. Com isso, a Globo teve de antecipar a novela das 8 para transmitir Corinthians x Palmeiras e deixar de reprisar o último capítulo da novela das 6 para encaixar São Paulo x Corinthians na grade.

A briga deve atingir também o campeonato brasileiro das séries A e B. O SBT está de olho no grupo dos renegados da primeirona (Paysandu, Figueirense, Fortaleza, Criciúma e Ponte Preta, entre outros). São clubes que recebem uma cota bem inferior que os membros do Clube dos Treze pela transmissão dos jogos e topariam mudar de canal ao simples cheiro de mais grana. E pensando nos jogos do Palmeiras, a emissora paulista também já fez uma boa proposta aos clubes da série B. Mas a Globo (que tem os direitos, mas só transmite em canal fechado pela Sky) não abre mão.

De qualquer maneira, pra ganhar de vez a concorrência o SBT precisa investir um pouco mais na qualidade de suas transmissões. Os locutores e repórteres são ruins, os comentaristas são péssimos (o que o cantor Léo Jaime entende de futebol?) e o mala do Elia Júnior como âncora é dose. Falta o show de números, estatísticas e informação que a Globo tem. Mas nada que o dinheiro não resolva. Não é, Silvio?

Só uma cidade brasileira vive um clima futebolístico digno de Copa do Mundo, mesmo quase um ano depois daquela bendita decisão em Yokohama. É Belém do Pará, que pela primeira vez tem um representante na Taça Libertadores da América. O gosto da competição mais importante do futebol sul-americano é manjado para paulistas, cariocas, gaúchos e mineiros. Mas para os paraenses (ou pelo menos para a metade deles que torce pelo Paysandu) tudo é uma grande e bela novidade.

Nos dias dos jogos que o Papão da Curuzu disputou pela Libertadores, Belém se pintou de azul celeste. Casas enfeitadas, bandeiras nos carros, amigos reunidos na frente da TV... E muita, mas muita gente com a camisa do Paysandu circulando pela rua. Graças às conquistas do time nos últimos anos, essas camisas já não têm tanto cheiro de naftalina.

Em quatro jogos disputados, o Paysandu se saiu muito bem, obrigado. A campanha começou com uma vitória fora de casa por 2x0 contra o fraquíssimo Sporting Cristal, do Peru. Depois, três partidas consecutivas em Belém: um empate em 0x0 com o Cerro Porteño, uma vitória de 3x1 sobre o Universidad Católica e uma vitória de 2x1 sobre o Sporting Cristal. No total, dez pontos ganhos, a liderança do grupo 2 e a classificação à segunda fase praticamente assegurada.

A torcida do Papão, empolgada e sonhadora como lhe é peculiar, já fala até no título. Mas não vai ser surpresa se os paraenses chegarem, pelo menos, às quartas-de-final. Primeiro, porque muitos clubes medianos já foram até finalistas da Libertadores. Segundo, porque o time do Paysandu é bom. O elenco é bem melhor do que aquele que foi um dos papa-títulos de 2002. Chegaram o atacante Robgol, ex-Bahia, o lateral direito Rodrigo, ex-Vitória e seleção brasileira, e o meio-campo Iarley, ex-Ceará. E terceiro, porque o nível dos clubes sul-americanos e da própria Taça Libertadores está fraquíssimo. Se aquele time frouxo do São Caetano foi finalista no ano passado, porque o Paysandu não pode ir longe?

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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