Fazer projeções para
o Brasileirão da série A é fácil. Os
clubes estão quase todos na mídia desde o início
do ano, ou nas transmissões dos campeonatos já iniciados
ou nos noticiários esportivos nacionais. Quero ver é
fuçar e analisar os participantes da Segundona, um campeonato
menos badalado mas igualmente forte e competitivo. Aliás,
há pelo menos duas temporadas a série B é tão
atraente quanto a dita elite do futebol brasileiro. Clubes tradicionais
marcam presença, bons jogadores são revelados e a
fórmula de disputa torna os jogos interessantes até
a rodada final.
Mesmo turbinada com a presença de representantes ilustres,
a Segundona começa com favoritos incertos. Primeiro, porque
a maioria dos clubes ainda está com o elenco em formação.
Nem todo mundo tem dinheiro para segurar jogadores que se destacaram
no início do ano ou para contratar outros que façam
jus à palavra “reforço”. E, segundo, muitas
das equipes que pintavam como fortes candidatos ao título
foram mal nos campeonatos estaduais. É o caso do Grêmio,
do Sport Recife, do Ceará, do Guarani e da Portuguesa. Outros
estão embalados pela conquista de títulos estaduais,
como Santa Cruz, Vila Nova, Criciúma e Vitória.
Como quase ninguém deve ficar com a mesma base dos campeonatos
estaduais, leva vantagem quem tem uma melhor estrutura administrativa
ou poder de fogo para equilibrar o entra-e-sai de jogadores que
deve continuar até o meio do ano. Quem já chega em
crise é sério candidato ao rebaixamento. É
o caso do São Raimundo, que além de ter ido muito
mal no campeonato amazonense, anda com os salários atrasados.
Anapolina: foi mal no estadual. Terminou em oitavo
lugar, com um aproveitamento de 45% dos pontos, e chegou a levar
uma goleada de 6x1 do Goiás. Na série B, costuma fazer
jus ao apelido de Xata (com X mesmo) e rouba pontos de quem briga
pelo título. Mas nunca vai muito longe. Teve o vice-artilheiro
do campeonato goiano (Ricardo Boiadeiro, com 11 gols), mas a principal
atração está no banco: o técnico Aderbal
Lana, tricampeão da Copa Norte pelo São Raimundo entre
99 e 2001. Palpite: briga para não cair.
Avaí: ficou nas semifinais do campeonato
catarinense, derrotado pelo campeão Criciúma. Não
perdeu nenhum clássico para o Figueirense, o que já
serve de consolo. O elenco é mediano, mas está entrosado.
Destaque para os meias Marcos Basílio e Léo Mineiro.
Ano passado, quase conseguiu o acesso. Perdeu o vice-campeonato
para o Fortaleza no saldo de gols. Este ano, estréia sem
poder contar com a força da torcida. Perdeu o mando de campo
e jogará a primeira partida em Itajaí, com portões
fechados. Palpite: briga para ficar entre os oito melhores.
Bahia: a segunda temporada consecutiva na série
B é crucial. Ano passado, o Bahia foi bem na fase de classificação,
mas decepcionou no quadrangular decisivo. No estadual, perdeu o
título para o Vitória numa campanha absolutamente
normal. O técnico Zetti foi contratado a quatro dias do início
do campeonato e pode demorar a engrenar. Os jogadores mais conhecidos
são atacantes: Viola, Dill e Jajá. Palpite: fica entre
os oito, mas não passa para o quadrangular final.
Caxias: outro cavalo paraguaio histórico,
o Caxias nunca foi uma grande força da série B. A
não ser em 2001, quando foi um dos quatro finalistas. Em
2005, deve repetir as campanhas medianas das últimas três
temporadas. Tem como destaque o experiente meia Gil Baiano, último
grande ídolo do clube, que foi “roubado” do CRB
em cima do início do campeonato. A equipe ainda deve ser
reforçada com cinco contratações, mas teve
uma perda importante: o técnico Mano Menezes, que salvou
o Caxias do rebaixamento em 2004, foi contratado pelo Grêmio
na véspera da primeira rodada. Palpite: fica em 15º
ou 16º.
Ceará: não deveria estar disputando
a série B, já que foi punido pela CBF no início
deste ano por ter se recusado a disputar a final do campeonato cearense
de 2004. Manobras de bastidores garantiram a presença do
Vovô Alencarino, um dos poucos clubes que estão há
mais de 10 anos seguidos na Segundona. Teve um início de
temporada pavoroso, com três derrotas para times pequenos
(0x2 Quixadá, 1x4 Itapipoca e 0x4 Uniclinic). Não
se recuperou e ficou de fora da final. O time é todo mediano,
do gramado à comissão técnica. O treinador
é Jair Pereira e os destaques são os atacantes Camanducaia
e Maurílio. Palpite: vai passar apertos.
CRB: fora da disputa do campeonato alagoano, o
CRB tenta sorte melhor na Segundona. A diretoria promete uma folha
salarial três vezes maior que a do ano passado. O último
reforço contratado foi o lateral Túlio, que jogou
pelo clube em 2004. Fala-se na contratação do goleiro
Gléguer. Mas o time alagoano tem um candidato a revelação
do campeonato: o atacante Josimar, de 19 anos, que marcou 15 gols
no estadual. O técnico é Luiz Carlos Cruz. Palpite:
não fica entre os oito, mas não cai.
Criciúma: é um dos poucos participantes
que já conquistou o título da Segundona. Depois de
ganhar o campeonato catarinense, a equipe fez apenas contratações
modestas, como o volante Alessandro (ex-União São
João), o atacante Diego Viana, o lateral Vanderson e o meia
Sidinei (todos ex-Metropolitano/SC). Não deve perder muitos
jogadores que disputaram o estadual. Mesmo com diversas propostas,
a diretoria deve segurar destaques do time, como os meias Cléber
Gaúcho e Douglas. Palpite: será um dos quatro finalistas.
Gama: o único representante do Distrito
Federal tenta manter uma escrita - os times recém-promovidos
da série C sempre fazem ótimas campanhas. O time é
formado por jogadores desconhecidos, na maioria. Do pacote de seis
reforços contratados para a série B, o mais conhecido
é o lateral-esquerdo Jean, ex-Vasco, que perdeu dois pênaltis
na decisão da Taça Rio. O técnico é
Mauro Fernandes, que assumiu o time a poucos dias do início
do campeonato. Palpite: não vai fazer barulho. No máximo,
consegue um 10º lugar.
Grêmio: os gaúchos voltam à
série B extremamente fragilizados. São dois anos seguidos
sem um time decente e quatro sem um título. Para iniciar
uma volta aos bons tempos, foi montado um elenco com força
suficiente para ir bem na Segundona. A torcida aposta no atacante
Somália como candidato a artilheiro. Mas as melhores contratações
foram as do atacante Pedro Júnior e a do meia Paulo Ramos,
que se destacaram no Vila Nova/GO. Talvez o time demore a engrenar
por causa da mudança repentina de técnico. Saiu Hugo
De León, entrou Mano Menezes, ex-Caxias. Palpite: chega no
quadrangular final.
Guarani: os últimos meses mostraram a decadência
de um time que era mantido entre os grandes sem merecer. Rebaixado
no Brasileiro, quase rebaixado no Paulistão e com um time
fraquíssimo, o Bugre não deve viver uma temporada
das melhores na Segundona. Perdeu o meia Hárison, um dos
jogadores que se salvaram na campanha do ano passado. Contratou
aos 45 do segundo tempo um técnico desconhecido, José
Carlos Serrão. E não tem reforços significativos.
Palpite: briga para não cair.
Ituano: com um elenco desconhecido porém
eficiente, o Ituano fez boa campanha na série B em 2004 e
no Paulistão de 2005. Ficou em sétimo lugar, à
frente de concorrentes na Segundona como Portuguesa, Marília
e Guarani. O time trocou diversas vezes de técnico e acabou
contratando errado: Valter Ferreira, uma das maiores nulidades que
já sentou em um banco de reservas. O destaque em campo é
o atacante Rômulo, artilheiro da equipe na série B
do ano passado. Palpite: faz boa campanha, mas tropeça nas
rodadas finais e fica de fora dos quadrangulares.
Marília: às vésperas da Segundona,
o MAC fez um verdadeiro mercadão. Dispensou nove atletas
e contratou oito. Mas se o nível dos jogadores que chegam
for parecido com o dos que saem, o time não vai muito longe.
A campanha no Paulistão foi ruim. O Marília chegou
a correr risco de rebaixamento, mas acabou em 13º lugar. Para
o Brasileiro foram contratados nomes como o lateral direito Luizinho
Neto, ex-Avaí; o lateral esquerdo Júlio César,
ex-Flamengo; o volante Luís Maranhão, ex-América.
Todos pouco conhecidos, mas é bom não subestimar os
enjoados times do interior de São Paulo. Palpite: deve ficar
em 9º ou 10º.
Náutico: já são dois anos
seguidos batendo na trave e ficando de fora da série B na
semifinal. E, mais insistente impossível, o Náutico
de 2005 aposta no mesmo craque das duas temporadas anteriores: o
goleador Kuki, ídolo da torcida alvi-rubra. Este ano ele
mudou de companhia no ataque. Saiu Jorge Wagner (hoje no Inter-RS)
e chegou Renna (ex-Fortaleza). Outro destaque é o experiente
lateral Bruno Carvalho, ex-Vasco. O técnico é Roberto
Cavalo, recém-dispensado pelo Paysandu. Palpite: vai suar,
mas consegue a oitava vaga na segunda fase.
Paulista: o time mantém o técnico
e a base do ano passado para não morrer na praia mais uma
vez. São dois anos seguidos terminando a fase de classificação
em nono lugar. Para este ano, foram poucas contratações.
O destaque é o zagueiro Thiago Mathias. A equipe fez um bom
campeonato paulista, terminando em 7º lugar. Palpite: deve
repetir as últimas campanhas e ficar em 9º.
Portuguesa: parece seguir o caminho que alguns
conterrâneos como o Bragantino e o XV de Piracicaba trilharam
recentemente. Os jogadores e a diretoria falam em reestruturação
e não repetir erros, mas a coisa anda preta pelos lados do
Canindé. Depois da campanha ruim no Paulistão (em
que correu risco de rebaixamento), não é difícil
esperar coisa pior. Para se ter uma noção, um dos
principais nomes do time é o goleiro Gléguer. Não
precisa falar mais nada. Palpite: briga para não cair.
Santa Cruz: se o Nordeste sempre tem candidatos
ao título, este ano o Santa é o mais forte. O Tricolor
conquistou fácil o campeonato pernambucano, com 15 vitórias
em 18 jogos. A conquista é mérito de uma talentosa
geração de jovens jogadores - como os atacantes Rosembrink
e Carlinhos Bala - e do técnico Givanildo Oliveira, tão
vitorioso quanto marrento. Palpite: estará no quadrangular
final.
Santo André: em um ano, muita coisa mudou
no ABC. Um título da Copa do Brasil, com oito pontos roubados
na série B e uma participação na Libertadores
depois, o Santo André chega como forte candidato ao título.
O elenco está mais forte, tanto é que foi quarto colocado
no Paulistão, ficando atrás apenas dos grandes. Os
destaques são os remanescentes da conquista da Copa do Brasil
- o atacante Sandro Gaúcho e o meia Ramalho. Palpite: chega
no quadrangular final.
São Raimundo: os amazonenses talvez sejam
os mais fortes candidatos ao rebaixamento este ano. Não ficaram
nem com o vice-campeonato estadual, estão com um elenco fraco
e ainda passam por apertos financeiros. Os salários chegaram
a atrasar. A diretoria resolveu apostar em jogadores baratos, como
o meia Leandro Marangon e o volante Alberoni, que vieram do Grêmio
Coariense. Mas o destaque continua sendo o atacante Delmo, herói
do time há pelo menos cinco temporadas. Palpite: deve ser
rebaixado.
Sport: o rubro-negro espera quebrar o estigma
que envolve alguns clubes do Brasil. Em 2005 se comemora o centenário
do Sport, e os pernambucanos querem comemorar um título,
em vez de viver fiascos como o Flamengo. Para conquistar pelo menos
o acesso, o clube contratou uma dupla de especialistas em série
B: os atacantes Vinícius e Rinaldo, artilheiros das duas
últimas edições do campeonato. Também
chegou na Ilha do Retiro o volante Cleiton Xavier, ex-Internacional.
Palpite: fica entre os oito melhores.
União Barbarense: depois da euforia pela
conquista da série C de 2004, a União Barbarense teve
um início de ano desastroso. Trocou de técnico quatro
vezes e acabou rebaixada no Paulistão. Pior: perdeu o ótimo
Frontini, artilheiro do clube na Terceirona do ano passado. No time,
sobraram os experientes atacantes Brenner (ex-Vasco) e Gilso Batata
(que passou por quase todos os clubes medianos de São Paulo).
O técnico é o estreante Leandro Samarone. Palpite:
será um dos rebaixados.
Vila Nova: o Vila foi uma das boas surpresas do
primeiro semestre. Ganhou o campeonato goiano e revelou bons jogadores.
O problema é que os principais, o meia Paulo Ramos e o atacante
Pedro Júnior, foram vendidos para o Grêmio. Sobraram
alguns bons nomes, como o atacante Leonardo Manzi e o meia Fábio
Bahia. Problema: o time estréia sem técnico definido.
Palpite: chega entre os oito.
Vitória: assim como o Grêmio, o Vitória
está de volta à Segundona depois de 13 anos. O clima
ruim pelo rebaixamento diminuiu um pouco por causa do tetracampeonato
baiano. E o elenco é forte, apesar de ter perdido o atacante
Obina, revelação do ano passado. Destaque para os
zagueiros Marcelo Heleno e Claudiomiro. O time ainda aposta em dois
atacantes medalhões: Alex Alves e Marcelo Ramos. René
Simões continua como técnico, apesar do assédio
que sofreu. Ele teria tido propostas de São Paulo e Palmeiras
para o Brasileirão. Palpite: fica entre os oito. |