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Beagá, 25 de abril de 2005 d.C.
 
O Guia da Série B
Por Caboclo Alaranjado
 

Fazer projeções para o Brasileirão da série A é fácil. Os clubes estão quase todos na mídia desde o início do ano, ou nas transmissões dos campeonatos já iniciados ou nos noticiários esportivos nacionais. Quero ver é fuçar e analisar os participantes da Segundona, um campeonato menos badalado mas igualmente forte e competitivo. Aliás, há pelo menos duas temporadas a série B é tão atraente quanto a dita elite do futebol brasileiro. Clubes tradicionais marcam presença, bons jogadores são revelados e a fórmula de disputa torna os jogos interessantes até a rodada final.

Mesmo turbinada com a presença de representantes ilustres, a Segundona começa com favoritos incertos. Primeiro, porque a maioria dos clubes ainda está com o elenco em formação. Nem todo mundo tem dinheiro para segurar jogadores que se destacaram no início do ano ou para contratar outros que façam jus à palavra “reforço”. E, segundo, muitas das equipes que pintavam como fortes candidatos ao título foram mal nos campeonatos estaduais. É o caso do Grêmio, do Sport Recife, do Ceará, do Guarani e da Portuguesa. Outros estão embalados pela conquista de títulos estaduais, como Santa Cruz, Vila Nova, Criciúma e Vitória.

Como quase ninguém deve ficar com a mesma base dos campeonatos estaduais, leva vantagem quem tem uma melhor estrutura administrativa ou poder de fogo para equilibrar o entra-e-sai de jogadores que deve continuar até o meio do ano. Quem já chega em crise é sério candidato ao rebaixamento. É o caso do São Raimundo, que além de ter ido muito mal no campeonato amazonense, anda com os salários atrasados.

Anapolina: foi mal no estadual. Terminou em oitavo lugar, com um aproveitamento de 45% dos pontos, e chegou a levar uma goleada de 6x1 do Goiás. Na série B, costuma fazer jus ao apelido de Xata (com X mesmo) e rouba pontos de quem briga pelo título. Mas nunca vai muito longe. Teve o vice-artilheiro do campeonato goiano (Ricardo Boiadeiro, com 11 gols), mas a principal atração está no banco: o técnico Aderbal Lana, tricampeão da Copa Norte pelo São Raimundo entre 99 e 2001. Palpite: briga para não cair.

Avaí: ficou nas semifinais do campeonato catarinense, derrotado pelo campeão Criciúma. Não perdeu nenhum clássico para o Figueirense, o que já serve de consolo. O elenco é mediano, mas está entrosado. Destaque para os meias Marcos Basílio e Léo Mineiro. Ano passado, quase conseguiu o acesso. Perdeu o vice-campeonato para o Fortaleza no saldo de gols. Este ano, estréia sem poder contar com a força da torcida. Perdeu o mando de campo e jogará a primeira partida em Itajaí, com portões fechados. Palpite: briga para ficar entre os oito melhores.

Bahia: a segunda temporada consecutiva na série B é crucial. Ano passado, o Bahia foi bem na fase de classificação, mas decepcionou no quadrangular decisivo. No estadual, perdeu o título para o Vitória numa campanha absolutamente normal. O técnico Zetti foi contratado a quatro dias do início do campeonato e pode demorar a engrenar. Os jogadores mais conhecidos são atacantes: Viola, Dill e Jajá. Palpite: fica entre os oito, mas não passa para o quadrangular final.

Caxias: outro cavalo paraguaio histórico, o Caxias nunca foi uma grande força da série B. A não ser em 2001, quando foi um dos quatro finalistas. Em 2005, deve repetir as campanhas medianas das últimas três temporadas. Tem como destaque o experiente meia Gil Baiano, último grande ídolo do clube, que foi “roubado” do CRB em cima do início do campeonato. A equipe ainda deve ser reforçada com cinco contratações, mas teve uma perda importante: o técnico Mano Menezes, que salvou o Caxias do rebaixamento em 2004, foi contratado pelo Grêmio na véspera da primeira rodada. Palpite: fica em 15º ou 16º.

Ceará: não deveria estar disputando a série B, já que foi punido pela CBF no início deste ano por ter se recusado a disputar a final do campeonato cearense de 2004. Manobras de bastidores garantiram a presença do Vovô Alencarino, um dos poucos clubes que estão há mais de 10 anos seguidos na Segundona. Teve um início de temporada pavoroso, com três derrotas para times pequenos (0x2 Quixadá, 1x4 Itapipoca e 0x4 Uniclinic). Não se recuperou e ficou de fora da final. O time é todo mediano, do gramado à comissão técnica. O treinador é Jair Pereira e os destaques são os atacantes Camanducaia e Maurílio. Palpite: vai passar apertos.

CRB: fora da disputa do campeonato alagoano, o CRB tenta sorte melhor na Segundona. A diretoria promete uma folha salarial três vezes maior que a do ano passado. O último reforço contratado foi o lateral Túlio, que jogou pelo clube em 2004. Fala-se na contratação do goleiro Gléguer. Mas o time alagoano tem um candidato a revelação do campeonato: o atacante Josimar, de 19 anos, que marcou 15 gols no estadual. O técnico é Luiz Carlos Cruz. Palpite: não fica entre os oito, mas não cai.

Criciúma: é um dos poucos participantes que já conquistou o título da Segundona. Depois de ganhar o campeonato catarinense, a equipe fez apenas contratações modestas, como o volante Alessandro (ex-União São João), o atacante Diego Viana, o lateral Vanderson e o meia Sidinei (todos ex-Metropolitano/SC). Não deve perder muitos jogadores que disputaram o estadual. Mesmo com diversas propostas, a diretoria deve segurar destaques do time, como os meias Cléber Gaúcho e Douglas. Palpite: será um dos quatro finalistas.

Gama: o único representante do Distrito Federal tenta manter uma escrita - os times recém-promovidos da série C sempre fazem ótimas campanhas. O time é formado por jogadores desconhecidos, na maioria. Do pacote de seis reforços contratados para a série B, o mais conhecido é o lateral-esquerdo Jean, ex-Vasco, que perdeu dois pênaltis na decisão da Taça Rio. O técnico é Mauro Fernandes, que assumiu o time a poucos dias do início do campeonato. Palpite: não vai fazer barulho. No máximo, consegue um 10º lugar.

Grêmio: os gaúchos voltam à série B extremamente fragilizados. São dois anos seguidos sem um time decente e quatro sem um título. Para iniciar uma volta aos bons tempos, foi montado um elenco com força suficiente para ir bem na Segundona. A torcida aposta no atacante Somália como candidato a artilheiro. Mas as melhores contratações foram as do atacante Pedro Júnior e a do meia Paulo Ramos, que se destacaram no Vila Nova/GO. Talvez o time demore a engrenar por causa da mudança repentina de técnico. Saiu Hugo De León, entrou Mano Menezes, ex-Caxias. Palpite: chega no quadrangular final.

Guarani: os últimos meses mostraram a decadência de um time que era mantido entre os grandes sem merecer. Rebaixado no Brasileiro, quase rebaixado no Paulistão e com um time fraquíssimo, o Bugre não deve viver uma temporada das melhores na Segundona. Perdeu o meia Hárison, um dos jogadores que se salvaram na campanha do ano passado. Contratou aos 45 do segundo tempo um técnico desconhecido, José Carlos Serrão. E não tem reforços significativos. Palpite: briga para não cair.

Ituano: com um elenco desconhecido porém eficiente, o Ituano fez boa campanha na série B em 2004 e no Paulistão de 2005. Ficou em sétimo lugar, à frente de concorrentes na Segundona como Portuguesa, Marília e Guarani. O time trocou diversas vezes de técnico e acabou contratando errado: Valter Ferreira, uma das maiores nulidades que já sentou em um banco de reservas. O destaque em campo é o atacante Rômulo, artilheiro da equipe na série B do ano passado. Palpite: faz boa campanha, mas tropeça nas rodadas finais e fica de fora dos quadrangulares.

Marília: às vésperas da Segundona, o MAC fez um verdadeiro mercadão. Dispensou nove atletas e contratou oito. Mas se o nível dos jogadores que chegam for parecido com o dos que saem, o time não vai muito longe. A campanha no Paulistão foi ruim. O Marília chegou a correr risco de rebaixamento, mas acabou em 13º lugar. Para o Brasileiro foram contratados nomes como o lateral direito Luizinho Neto, ex-Avaí; o lateral esquerdo Júlio César, ex-Flamengo; o volante Luís Maranhão, ex-América. Todos pouco conhecidos, mas é bom não subestimar os enjoados times do interior de São Paulo. Palpite: deve ficar em 9º ou 10º.

Náutico: já são dois anos seguidos batendo na trave e ficando de fora da série B na semifinal. E, mais insistente impossível, o Náutico de 2005 aposta no mesmo craque das duas temporadas anteriores: o goleador Kuki, ídolo da torcida alvi-rubra. Este ano ele mudou de companhia no ataque. Saiu Jorge Wagner (hoje no Inter-RS) e chegou Renna (ex-Fortaleza). Outro destaque é o experiente lateral Bruno Carvalho, ex-Vasco. O técnico é Roberto Cavalo, recém-dispensado pelo Paysandu. Palpite: vai suar, mas consegue a oitava vaga na segunda fase.

Paulista: o time mantém o técnico e a base do ano passado para não morrer na praia mais uma vez. São dois anos seguidos terminando a fase de classificação em nono lugar. Para este ano, foram poucas contratações. O destaque é o zagueiro Thiago Mathias. A equipe fez um bom campeonato paulista, terminando em 7º lugar. Palpite: deve repetir as últimas campanhas e ficar em 9º.

Portuguesa: parece seguir o caminho que alguns conterrâneos como o Bragantino e o XV de Piracicaba trilharam recentemente. Os jogadores e a diretoria falam em reestruturação e não repetir erros, mas a coisa anda preta pelos lados do Canindé. Depois da campanha ruim no Paulistão (em que correu risco de rebaixamento), não é difícil esperar coisa pior. Para se ter uma noção, um dos principais nomes do time é o goleiro Gléguer. Não precisa falar mais nada. Palpite: briga para não cair.

Santa Cruz: se o Nordeste sempre tem candidatos ao título, este ano o Santa é o mais forte. O Tricolor conquistou fácil o campeonato pernambucano, com 15 vitórias em 18 jogos. A conquista é mérito de uma talentosa geração de jovens jogadores - como os atacantes Rosembrink e Carlinhos Bala - e do técnico Givanildo Oliveira, tão vitorioso quanto marrento. Palpite: estará no quadrangular final.

Santo André: em um ano, muita coisa mudou no ABC. Um título da Copa do Brasil, com oito pontos roubados na série B e uma participação na Libertadores depois, o Santo André chega como forte candidato ao título. O elenco está mais forte, tanto é que foi quarto colocado no Paulistão, ficando atrás apenas dos grandes. Os destaques são os remanescentes da conquista da Copa do Brasil - o atacante Sandro Gaúcho e o meia Ramalho. Palpite: chega no quadrangular final.

São Raimundo: os amazonenses talvez sejam os mais fortes candidatos ao rebaixamento este ano. Não ficaram nem com o vice-campeonato estadual, estão com um elenco fraco e ainda passam por apertos financeiros. Os salários chegaram a atrasar. A diretoria resolveu apostar em jogadores baratos, como o meia Leandro Marangon e o volante Alberoni, que vieram do Grêmio Coariense. Mas o destaque continua sendo o atacante Delmo, herói do time há pelo menos cinco temporadas. Palpite: deve ser rebaixado.

Sport: o rubro-negro espera quebrar o estigma que envolve alguns clubes do Brasil. Em 2005 se comemora o centenário do Sport, e os pernambucanos querem comemorar um título, em vez de viver fiascos como o Flamengo. Para conquistar pelo menos o acesso, o clube contratou uma dupla de especialistas em série B: os atacantes Vinícius e Rinaldo, artilheiros das duas últimas edições do campeonato. Também chegou na Ilha do Retiro o volante Cleiton Xavier, ex-Internacional. Palpite: fica entre os oito melhores.

União Barbarense: depois da euforia pela conquista da série C de 2004, a União Barbarense teve um início de ano desastroso. Trocou de técnico quatro vezes e acabou rebaixada no Paulistão. Pior: perdeu o ótimo Frontini, artilheiro do clube na Terceirona do ano passado. No time, sobraram os experientes atacantes Brenner (ex-Vasco) e Gilso Batata (que passou por quase todos os clubes medianos de São Paulo). O técnico é o estreante Leandro Samarone. Palpite: será um dos rebaixados.

Vila Nova: o Vila foi uma das boas surpresas do primeiro semestre. Ganhou o campeonato goiano e revelou bons jogadores. O problema é que os principais, o meia Paulo Ramos e o atacante Pedro Júnior, foram vendidos para o Grêmio. Sobraram alguns bons nomes, como o atacante Leonardo Manzi e o meia Fábio Bahia. Problema: o time estréia sem técnico definido. Palpite: chega entre os oito.

Vitória: assim como o Grêmio, o Vitória está de volta à Segundona depois de 13 anos. O clima ruim pelo rebaixamento diminuiu um pouco por causa do tetracampeonato baiano. E o elenco é forte, apesar de ter perdido o atacante Obina, revelação do ano passado. Destaque para os zagueiros Marcelo Heleno e Claudiomiro. O time ainda aposta em dois atacantes medalhões: Alex Alves e Marcelo Ramos. René Simões continua como técnico, apesar do assédio que sofreu. Ele teria tido propostas de São Paulo e Palmeiras para o Brasileirão. Palpite: fica entre os oito.

 
Caboclo Alaranjado é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Belém. E-mail: caboclo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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