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Beagá, 31 de janeiro de 2005 d.C.

 
Oscar 2005 - entre mocinhos e cucarachas
Por Cajabis Cannabis
 

Site oficial do Oscar: www.oscar.com

Entra ano, sai ano, a cerimônia de entrega do Oscar torna-se cada vez mais chata, mais enfadonha, mais dispensável. Globo e SBT demonstraram enorme desdém à atração - o SBT nem se interessou em renovar o contrato de exibição, já que vinha mostrando o evento nos últimos anos. A Globo, por sua vez, começou a transmissão com 40 minutos de atraso, mostrando seu costumeiro desrespeito ao público e provando mais uma vez que é ela quem manda por aqui, calem-se todos ou paguem uma caríssima tevê por assinatura - que, por acaso, é quase um monopólio do grupo fundado pelo "saudoso" Roberto Marinho. Ou seja, o recado da Globo aos telespectadores foi bem claro, como sempre: fodam-se.

Ainda bem que gravei em vídeo e os momentos mais, digamos, dispensáveis, passam rapidinho pelo FF do controle remoto. A inacreditável falta de preparo e ignorância de Renato Machado, que por DUAS vezes anunciou o filme "Eterno Brilho" de Uma Mente Sem Lembranças - e não foi corrigido pelo palpiteiro de botequim José Wilker que, como crítico de cinema é um excelente jogador de hóquei sobre o gelo. Foi provavelmente a pior, mais constrangedora e mais imbecil transmissão de Oscar da história - ganhou até do ano que o Arnaldo Jabor dava chiliques nos comentários ou a Babi entrevistava sem noção total "convidados" nos intervalos.

Mas da transmissão quem falou foi a Lucie Multiplex. Como nas corridas de cavalos, vamos lá palpitar sobre quem venceu e quem voltou pra casa puto da vida.

Melhor Filme

Cinco filmes meia boca que provavelmente vão envelhecer bastante em menos de dez anos. Quero ver quem vai se lembrar de Menina de Ouro em 2015, por exemplo. Êta ano fraco esse... A ausência de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Os Incríveis entre os indicados é imperdoável. Por isso, talvez tenha vencido o mais correto entre os cinco filmes. Apenas isso. O Aviador é mais uma tentativa de Scorsese de se afirmar, Sideways - Entre Umas e Outras é simpático e imperdível - para quem gosta de vinhos, of course, o resto da humanidade pode muito bem passar sem assisti-lo -, Em Busca da Terra do Nunca é o mais "apelativo" para o sentimentalismo e Ray se complica um pouco ao tentar abarcar a vida movimentada de um verdadeiro mito da soul music. Então vá lá, entre esses cinco talvez Menina de Ouro fosse mesmo o melhor...

Melhor Ator

O prêmio mais manjado da noite. E até que todo mundo trabalhou direitinho. Mas Jamie Foxx é o Ray Charles cuspido e escarrado. Sua caracterização ficou realmente perfeita - ou quase isso. A ausência gritante de Paul Giamatti (Sideways) entre os indicados é que chamou mais a atenção.

Melhor Atriz

Meio que outra barbada. Não dá pra comentar muito, já que assisti apenas a Kate Winslet, que faz um bom trabalho em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, mas o que posso dizer é que Hilary Swank realmente brilha em Menina de Ouro.

Melhor Diretor

O Scorsese ficou chupando o dedo novamente. Eu até cheguei a arriscar que dessa vez a Academia iria dividir a glória, premiando Menina de Ouro como melhor filme e dando a estatueta de direção a O Aviador. Pois é, errei. Mas fica difícil escolher entre dois filmes tão sem graça, tão "certinhos", tão frios. O filme de Scorsese é uma biografia banal e o de Clint Estwood é uma historinha tipo Supercine. Nada de mais, nada de menos. Então, qualquer um que ganhasse tava bão mesmo.

Os Coadjuvantes

Outro filme muito superior a qualquer um dos cinco indicados, Closer, ficou de fora das categorias principais e levou duas indicações de consolação: as de ator e atriz coadjuvante. E ainda foi injustiçado em ambas. Tudo bem, o seu Morgan é gente boa, ele é bacana, tá sempre sorrindo, amigo da turma, sempre aí e talz, nunca havia ganho o Oscar e aí o pessoal deve ter pensado "gente, vamos dar um prêmio aí pra ele, imaginem se ele morre..." E deram o prêmio pra ele por sua atuação em Menina de Ouro. Clive Owen, no entanto, é um dos pontos altos de Closer, com uma atuação que literalmente rouba o filme e surpreende o espectador. E Natalie Portman perder para a apenas esforçada Cate Blanchett (O Aviador) também foi dose pra elefante.

Os Roteiros

A vitória de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças como Roteiro Original fez justiça a Charlie Kauffman, embora eu também gostasse muito do roteiro de Os Incríveis (e indicaram o roteiro de O Aviador, meu Deus do céu... Não tinha nada melhor não?). Mas na categoria Roteiro Adaptado a vitória de Sideways chega a ser ridícula. É uma boa história, mas não pode ser comparada aos diálogos inteligentes e à narrativa impecável em tempo real de Antes do Pôr-do-Sol ou à excepcional adaptação de Diários de Motocicleta. Chega a ser uma piada! Mas é aquela coisa, foi indicado a melhor filme, precisava de um Oscar de consolação, então...

E no mais...

O placar final foi 5 a 4 para O Aviador, mas com um sabor de derrota. Afinal de contas, os prêmios mais importantes ficaram com Menina de Ouro, o filme mais superestimado do ano. Os Incríveis levou seus prêmios, Em Busca da Terra do Nunca ganhou alguma coisa que eu não me lembro agora e então todo mundo ficou feliz. Exceto os produtores de O Aviador, que contavam com a vitória de Scorsese e estavam bufando após o encerramento da cerimônia.

Na categoria Filme Estrangeiro, estou curioso, muito curioso mesmo para assistir A Queda, filme alemão sobre os últimos e melancólicos dias do 3º Reich. Assisti Mar Adentro e A Voz do Coração, posso dizer que Mar Adentro é superior e Javiem Bardem é mesmo um ator fenomenal. E não preciso dizer do grande momento da cerimônia, a vitória de Diários de Motocicleta na categoria Melhor Canção, com "Al Otro Lado Del Río", composta pelo uruguaio Jorge Drexler, que foi impedido de cantar sua própria música no Oscar. Em seu lugar, Antônio Banderas e Santana (meu Deus, que decadência, por que alguém que já foi tão importante para a música se rebaixa a esse ridículo?! Por dinheiro? Será que ele já não tem grana o suficiente não???) se encarregaram de destroçar, pulverizar, arrebentar, desgraçar, enterrar a canção. O adjetivo "lamentável" é insuficiente para descrever o que foi a apresentação desses dois. Só faltou chamarem uns mexicanos com sombreros e trompetes para inserirem trechos de "La Cucaracha" (deve ser isso que Hollywood chama de "latinos").

E não é que o cucaracha venceu? Subiu ao palco e, ao invés de agradecimentos, fez justamente o que os organizadores da festa não queriam: cantou sua música. E o público é quem devia agradecê-lo, por sua lição de dignidade.

Confira os indicados ao Oscar 2005.
Confira os comentários de Lucie Multiplex sobre a transmissão.

 

 

 

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