Sexta-feira, Abril 14, 2006
V de Vingança

V for Vendetta, EUA / Alemanha, 2006. Direção de James McTeigue. Com Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Roger Allam, Clive Ashborn, Sinéad Cusack. Cor, 132 minutos.
Site oficial: http://wwws.br.warnerbros.com/vforvendetta
Site IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0434409
Depois da absurda e desastrosa conclusão da trilogia
Matrix, eis que os irmãos Chatówski estão de volta, assinando o roteiro de mais uma adaptação de Hqs de Alan Moore para o cinema. E aqui vemos que os irmãos querem mesmo é passar a perna no espectador, fingindo que entendem de muita coisa e que têm algo de relevante para falarem sobre terrorismo, tiranias, ameaça à democracia, o escambau.
Bem, se há alguma virtude no filme é o fato de o estreante James McTeigue (assistente de direção em
Matrix) levar o filme numa boa, sem inventar moda, deixando a narrativa fluir. Ou seja, o filme é aquilo que deveria ser: uma adaptação de uma outra obra para o cinema, e não uma mera transposição dos quadrinhos para a tela grande - a meu ver, o principal problema de
Sin City, que não passa de uma bobagem espetacularmente bem produzida. Gente, vamos parar de besteira: cinema é cinema. Ponto final. É uma burrice cavalar ficar fazendo comparações do tipo "ah, mas era assim no livro e é assado no filme", ou então "mas é que nos quadrinhos..." Ora bolas, é claro que haverá diferenças, para o bem ou para o mal. O cinema, crianças, é a mais dinâmica das artes, neste sentido acaba por "engolir" todas as outras, desenvolvendo uma linguagem completamente diferente.
A história é a seguinte: o personagem V é um mascarado que luta por liberdade em uma Inglaterra num futuro próximo dominada pelo medo e oprimida por um governo autoritário. V é um homem em busca de vingança por ter sofrido maus bocados, ter sido preso e torturado, além de ter tido seu rosto completamente desfigurado. Seu caminho cruza com o de Evey (Natalie Portman), quando ela sai às ruas tarde da noite, desafiando o toque de recolher em vigor. Patrulheiros disfarçados tentam violentá-la, e eis que surge nosso bravo herói para salvar a mocinha. Entre idas e vindas, V e Evey começam uma ligação que se inicia como de um mestre para uma aprendiz, já que ela será definitivamente influencida por suas idéias revolucionárias, mas que no decorrer do filme se transforma em uma mal ajambrada versão pós-moderna de
A Bela e a Fera.
No decorrer do filme, V vai (essa foi horrível...) matando gente com vontade, e todas as suas vítimas têm alguma ligação com seu passado. O inspetor Finch tenta detê-lo e acaba por descobrir a verdade que sustenta o regime com o qual compactua. Há membros do governo envolvidos com a indústria farmacêutica e todos escondem um determinado centro de detenções utilizado pelo governo anos antes, no presente da história abandonado. Digamos que o local não era exatamente um spa. O objetivo de V é agir no dia 5 de novembro, com uma ação impactante: explodir o prédio do parlamento britânico. E o objetivo de Finch, obviamente, será o de impedi-lo a qualquer custo.
Os problemas de
V de Vingança estão na adaptação em si. O roteiro é ruim. Ao tentarem modificar a tragetória do personagem Evey em relação aos quadrinhos (nas hqs, ela estava debutando em sua carreira como prostituta), os caras já arrumam um problema logo no início do filme: se há um toque de recolher, porque diabos ela se arriscaria, sabendo dos perigos que estaria correndo? Para fazer uma visitinha? Tenham dó.
Mas o maior problema de
V de Vingança é tentar ser um panfleto político - e seus autores não entendem nada de política. Primeiro: galerinha, autoritarismo e totalitarismo são conceitos bastante diferentes. Leiam Hanna Arendt. A sociedade descrita pelo filme (não conheço os quadrinhos) é uma sociedade que se encaixaria em um modelo autoritário, mas é incompatível com
1984, que é a fonte de inspiração principal da produção cinematográfica. Neguinho que não entende nada de política vai achar o maior barato, mas é contraditório. A Inglaterra de
V de Vingança é uma sociedade amedrontada, onde as pessoas se isolam em casa, mantendo-se alienadas da política e abrem mão do espaço público, delegando o poder a terceiros. Em contrapartida, a sociedade de
1984 exige de um indivíduo aniquilado a participação total na engrenagem do poder. A própria esfera privada é destruída. O indivíduo tem que acreditar na ideologia do regime, como acontecia no nazismo e no stalinismo, os dois regimes totalitários por excelência da história.
V de Vingança retrata indivíduos apalermados, passivos e fatalistas frente à televisão. Isso combina com regimes autoritários, típicos das ditaduras, mas é inconcebível no universo previsto por George Orwell.
Pra se criticar uma situação, é preciso primeiro conhecê-la. E aqui os nossos irmãos Chatóvski nos dão novamente uma aula de arrogância, como em
Matrix 2 e 3. Tentam associar à guerra ao terror e o medo insulflado pela mídia norte-americana à tirania representada no filme. Mas o buraco é mais embaixo. A democracia americana está em crise, é verdade, mas continua sendo uma democracia: programas como
Simpsons e, principalmente,
South Park, fazem enorme sucesso fazendo troça de instituições como família, religião e abertamente ridicularizando conservadores e setores tradicionalistas americanos. Sem falar no Michael Moore, que ganha muito dinheiro com os documentários que faz detonando a direita, o conservadorismo e o Bush - e eu não vejo problemas em entupir os bolsos com isso. Onde está a censura? Onde está a ditadura? Além do mais, nosso herói V luta pela liberdade... Explodindo o parlamento. Ora bolas, existe democracia sem parlamento? Ainda que tenha sido corrompido, o parlamento é o símbolo da democracia - e, no contexto do filme, só haverá liberdade com democracia. Nos quadrinhos, V é um anarquista assumido, o que justifica a atitude de destruir violentamente o centro do poder - ainda que, na democracia o poder emane do povo, os anarquistas sustentam que não deve haver nenhuma forma de governo. Ou seja, dos quadrinhos para o filme, a luta do personagem perde um bocado de sua coerência. Que fique claro: têm que haver mudanças em adaptações de obras literárias para o cinema, mas o espírito da obra têm que ser mantido - e isso não aconteceu aqui.
Se
V de Vingança assumisse um tom pura e simplesmente de entreter o público, sem ser tão pretensioso, o resultado seria bem melhor. Trata-se simplesmente de um ataque à direita americana, ao conservadorismo e ao governo Bush. Mas torna-se chato, pedante e ignorante. No fundo, é intolerante como aqueles que ataca, porque coloca conservadores e tradicionalistas num mesmo balaio, lembrando o irritante maniqueísmo do PT em seus bons tempos: eles são o diabo, nós, que somos da esquerda, defendemos o povo e blá, blá, blá. Em nome da liberdade, os revolucionários franceses trucidaram mais de 17 mil pessoas em pouco mais de um ano, durante o Terror da Revolução Francesa (mais que 400 anos de Inquisição Espanhola, por exemplo). Portanto, devagar com esse papo de liberdade, porque ela pode se tornar tão assassina e autoritária quanto a pior das tiranias.
Ah, e o filme? Até que é assistível, abstraindo-se da patetice ideológica que tenta pregar. O problema é o final, absolutamente ridículo, jocoso. Até quando vão levar os irmãos Chatóvski a sério?
Avaliação:
:: Postado por Cajabis às 13:20
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