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Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006



Ponto Final - Match Point



Match Point, Inglaterra / EUA / Luxemburgo, 2005. Direção e roteiro de Woody Allen. Com Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johansson, Alexander Armstrong, Matthew Goode, Brian Cox, Penelope Wilton, Simon Kunz, Geoffrey Streatfield, John Fortune. Cor, 124 minutos.

Site oficial: http://www.dreamworks.com/matchpoint/
Site IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0416320/

Todo mundo já sabe que esse é o primeiro filme de Woody Allen rodado na Europa - alguns até falaram que seria uma "traição" à sua amada Nova Iorque: besteira, simplesmente os ingleses lhe deram dinheiro pra filmar. Mas a reflexão que vale é: essa mudança de ares fez bem ao diretor? Bem, essa pergunta vale dentro da perspectiva que já virou senso comum, do tipo Woody Allen "ultimamente" só faz filmes fracos. E essa constatação se torna ainda mais engraçada se nos atentarmos que, nos últimos anos, quando um novo filme de Allen é lançado sempre vem algum gato pingado e diz algo como "esse é o velho Woody Allen" ou o chavão "Woody Allen volta à velha forma". E blá, blá, blá.

Woody Allen tem mais de trinta filmes no currículo. Pessoalmente, já vi quase todos. Não tem mais nada o que provar a ninguém e sempre surpreende - positiva ou negativamente, o que também tem seu mérito - o público. O problema é que ele parece um velho jogador de futebol que teima em continuar jogando mas os torcedores insistem sempre que ele faça um gol de placa. Mas a verdade é uma só: os piores filmes de Woody Allen são melhores que 90% das coisas que estão em cartaz nos cinemas. E... ponto final (trocadilho infame, esse).

O que poderia ser argumentado é que desde Poucas e Boas, de 1999, Allen só faz filmes meia-boca. Mas ainda assim são, pelo menos do ponto de vista cinematográfico, eficientes. Exigir que ele faça um Annie Hall, um A Rosa Púrpura do Cairo ou um Desconstruindo Harry por mês é complicado. Daí, vai-se ao cinema com aquela expectativa: vamos ver um filme não do José das Couve, mas do Woody Allen. Ora bolas, reflita: ir ao cinema para ver um filme do diretor Fulano de Tal e não pelo filme em si é a demonstração cabal da consistência da obra do diretor Fulano de Tal. E pra falar a verdade, Allen nunca cometeu uma bobagem cinematográfica - pelo menos eu nunca vi nenhuma. Trapaceiros é bobinho? É. Escorpião de Jade? Bacaninha. Igual a Tudo na Vida é banal? Pode ser. Mas a banalidade de Allen transcende em muitos graus a mediocridade comum.

De qualquer maneira, coloquemos um ponto final nessa digressão (meu Deus, de novo!) para atermo-nos ao que realmente interessa. É verdade que os últimos filmes de Allen não estão à altura de sua vasta obra. Okei, agora chegamos a um consenso. E Ponto Final vinha sendo aguardado com mais ansiedade justamente por se tratar de um filme de Woody Allen realizado em Londres, na Europa, o velho continente, o continente da psicanálise, das pessoas cultas e blasès que fazem a casta intelectual americana liberal babar o ovo e tal. Bem, o cenário do filme não é a França, ou a Alemanha, ou a Áustria, mas é a Inglaterra, lugar dos lordes, da nobreza. Da monarquia. Bem, pode ser que os ares britânicos tenham tornado Ponto Final um filme tão conservador e elegante em sua estrutura e fotografia, mas ao mesmo tempo com um texto tão pouco ousado, às vezes até frívolo e previsível.

Okei, vamos à historinha: Chris Wilton é um ex-tenista irlandês que chegou a ter um certo destaque no circuito dos profissionais, mas resolveu abandonar a carreira para tentar ganhar a vida como instrutor de tênis por não suportar o ritmo intenso de jogos e viagens. Graças a seu currículo como jogador, consegue uma vaga numa escola bacana só para bacanas muito bacana$ e passa a dar aulas a Tom, um bacana da high society filho de empresário. Quase que imediatamente, Tom e Chris se tornam amigos.

Entrementes, o professor Chris começa a namorar a irmã de Tom, Chloe (que tá louca pra arrumar um marido), e vai fincando o pé na jaca, buscando seu lugar entre os nobres ricaços pra arrumar de vez sua vida. É isso aí, tem gente que tenta vaga no Big Brother, tem gente que tenta o golpe do baú. E tudo vai indo, até que ele se envolve com a futura cunhada, namorada de Tom, a aspirante a atriz Nola, uma americana rude mas sexy e peituda. E muito, mas muito gostosa. Aí o trem desgringola, porque nosso amigo Tom não consegue segurar o rojão - afinal de contas, pra segurar a onda com a Scarlett Johansson só sendo gay (muito gay) ou santo. A história segue, Chris se casa com Chloe e, agora que agarrou um marido, a princesa quer arrumar... um filho, é lógico. E Tom fica agarrado na americana. E a loira quer arrumar problemas para o tenista. E daí... assista ao filme.

O circo está armado, mas Woody Allen já havia realizado uma emulação de Crime e Castigo, de Dostoiévsky, com muito mais profundidade e talento em Crimes e Pecados, obra-prima de 1989. E se lá era proeminente a elucubração sobre moralidade e culpa, aqui vemos uma tímida e até pueril discussão sobre a sorte e o acaso. É verdade que Allen não objetiva surpreender, a história é bastante previsível, mas essa discussão que a permeia também é, e não se sustenta. Trata-se muito mais de uma conversa de boteco tipo "existe a sorte e o acaso e dane-se", mas ambientada num restaurante bastante chique, tendo a ópera como pano de fundo musical. Talvez a performance apática de Jonathan Rhys-Meyers como Chris seja co-responsável, a escolha de um ator tão inexpressivo para o papel é equivocada, mas o roteiro, embora muito bem escrito, não prima pelo preciosismo de seus diálogos - não mesmo: amarra bem as situações e as histórias, é correto. Mas não é inovador.

Londres inspira Allen na fotografia, bela, discreta, com movimentos de câmera elegantes, o Big Ben está lá, ao fundo do apartamento luxuoso de Chris, tudo é bonito de se ver - há uma bela e engenhosa rima visual que faz analogia ao jogo de tênis, e é essa rima que garante a resolução do filme, uma boa sacada, mas apenas isso. As cenas mais violentas do filme garantem o suspense, são extremamente bem filmadas, tudo é muito correto e preciso, sem deixar a impressão de um certo desleixo que podia transparecer em filmes como Trapaceiros e Dirigindo no Escuro, onde "não há nada de excepcional", diriam os mais críticos. Certo, mas embora Ponto Final seja bem mais consistente, também não tem nada de excepcional. A não ser a beleza de Scarlett Johansson.

Ainda assim, é um filme de Woody Allen. E sempre se tem algo a ser visto em um filme de Woody Allen. Se no conteúdo deixa a desejar, Ponto Final seduz pela forma, é um filme conservador, mas elegante, cheio de classe. E isso já é motivo para se ir ao cinema.

Avaliação:



:: Postado por Cajabis às 15:54  Enviar este post para um amigo



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